Colunistas

O brasileiro e o dinheiro

Por que o comportamento financeiro do brasileiro não é falha individual, mas é herança coletiva de história, cultura, sistema e mente

Publicado em 28 de julho de 2026 às 07h15.

Existe um paradoxo brasileiro que a maior parte dos livros de finanças pessoais publicados no país prefere ignorar. Somos um povo extraordinariamente inteligente, criativo e resiliente. Transformamos escassez em invenção, adversidade em arte, crise em improviso genial. E, ao mesmo tempo, em 2026 dezenas de milhões de brasileiros adultos seguem inadimplentes — uma parcela expressiva da população economicamente ativa carrega, agora mesmo, alguma forma de dívida em atraso. A taxa de poupança das famílias brasileiras fica consistentemente abaixo de seis por cento da renda disponível — contra mais de trinta por cento na China, vinte e cinco na Coreia do Sul e dezoito nos Estados Unidos. Segundo pesquisas do Serviço de Proteção ao Crédito, a maioria absoluta dos adultos economicamente ativos do país não consegue guardar um mês inteiro de despesas como reserva de emergência. Somos o país do jeitinho, da resiliência e da criatividade. E somos, simultaneamente, um dos países com a pior relação com o dinheiro do mundo desenvolvido. Como conciliar essas duas realidades?

A resposta convencional é simples, repetida e, na minha leitura, profundamente equivocada. Falta de disciplina. Falta de educação financeira. Falta de cultura de investimento. Como se bastasse uma planilha, um podcast e um curso online para resolver o que levou séculos para ser construído. Esse diagnóstico é confortável para quem o oferece e prejudicial para quem o recebe. Confortável porque isenta o sistema de qualquer responsabilidade. Prejudicial porque, ao localizar o problema exclusivamente no indivíduo, paralisa o indivíduo — que agora carrega, sozinho, a culpa por uma corrente contra a qual está nadando sem saber que ela existe. Você rema com força. O barco não avança. E conclui que é fraco, quando na verdade estava nadando contra uma maré que nunca reconheceu como maré.

Como advogado tributarista que atende empresários, profissionais liberais e investidores brasileiros há mais de duas décadas, aprendi que a relação do brasileiro com o dinheiro não pode ser entendida sem que quatro dimensões sejam consideradas simultaneamente. A primeira é histórica. Trezentos anos de economia colonial extrativista ensinaram gerações a extrair valor em vez de construí-lo. Quatro décadas de hiperinflação tornaram poupança sinônimo de perda — quem guardou dinheiro nos anos oitenta e início dos noventa perdeu; quem gastou imediatamente pelo menos manteve o poder de compra. A memória traumática do confisco de 1990, quando o governo Collor bloqueou a poupança de milhões de brasileiros da noite para o dia, destruiu num único movimento a confiança contratual entre cidadão e sistema financeiro. Essa confiança nunca foi plenamente reconstruída. Ela sobrevive como reflexo condicionado nas decisões financeiras de três gerações — inclusive na geração que nasceu depois da estabilização e que absorveu, na conversa cotidiana com pais e avós, a desconfiança como senso comum sobre dinheiro.

A segunda dimensão é cultural. O homem cordial que Sérgio Buarque de Holanda descreveu, incapaz de dizer não ao pedido de empréstimo do parente ou ao pedido de fiança do amigo, encontra sua expressão financeira contemporânea no brasileiro que sistematicamente prioriza a preservação do vínculo afetivo sobre a preservação do próprio patrimônio. O consumo como sinal de pertencimento à classe média, herança do período de crescimento dos anos setenta, opera hoje como pressão silenciosa por atualizações de smartphone, viagens de fim de ano, festas de aniversário elaboradas e escolas particulares para os filhos — pertencimento que se atinge, com frequência, pela dívida antes de se atingir pela renda. O jeitinho, celebrado como criatividade resolutiva, transforma-se em técnica de sobrevivência financeira que consegue apagar incêndios de curto prazo às custas de comprometer a construção de médio prazo. Cada aspecto isolado dessa cultura tem justificativa histórica clara. O problema aparece quando os quatro operam simultaneamente sobre o mesmo indivíduo, sem que ele reconheça a operação combinada.

A terceira dimensão é estrutural. O Estado brasileiro retira mais de trinta e três por cento do PIB em tributos antes que o cidadão decida o que fazer com o que produziu — e o faz por meio de arquitetura tributária historicamente regressiva, que onera proporcionalmente mais o consumo popular do que a renda dos mais abastados. Cada compra num supermercado embute ICMS, PIS, Cofins — hoje em fase de extinção progressiva pela Reforma Tributária, sendo substituídos por IBS e CBS —, e essa carga tributária embutida raramente aparece de forma transparente para quem paga. O cartão de crédito com rotativo a trezentos e treze por cento ao ano é oferecido como produto normal, comercializado ativamente por bancos regulados pelo próprio Estado, aceito como parte natural do cotidiano por dezenas de milhões de brasileiros que não compreendem completamente o mecanismo matemático que os prende. A previdência pública opera hoje num modelo de repartição que qualquer análise atuarial séria demonstra ser insuficiente para sustentar quem a financia — o que não impede a maioria absoluta dos brasileiros de estruturar suas expectativas de aposentadoria como se o INSS fosse suficiente. O sistema financeiro brasileiro, resultado histórico de décadas de arquitetura pró-consumo e não pró-poupança, oferece mais opções para se endividar do que para acumular patrimônio — e as opções para acumular patrimônio existem, mas são estruturalmente pior comunicadas ao público amplo do que as opções para consumir a crédito.

A quarta dimensão é neurológica, e é a que a literatura brasileira de finanças pessoais mais negligencia. Setenta e quatro por cento dos brasileiros vivem em condição documentada de estresse financeiro crônico. A neurociência estabeleceu, em pesquisa liderada por Sendhil Mullainathan em Harvard e por Eldar Shafir em Princeton, que a pressão financeira sustentada reduz mensuradamente a capacidade cognitiva — o que os autores chamaram de efeito tunneling, o estreitamento involuntário do campo de visão cognitivo para o problema mais urgente e mais imediato. Bruce McEwan, da Rockefeller University, desenvolveu ao longo de décadas o conceito de allostatic load: a carga acumulada no organismo pelo estresse crônico, incluindo o financeiro. Cortisol cronicamente elevado inflama progressivamente as paredes das artérias, suprime o sistema imunológico, interfere na regulação do ciclo do sono e compromete a memória de trabalho e o controle executivo — exatamente as funções cerebrais necessárias para tomar boas decisões financeiras. E é aqui que aparece o ciclo mais cruel do fenômeno brasileiro: o estresse financeiro perturba o sono, o sono ruim compromete o controle de impulsos, o controle de impulsos comprometido produz decisões financeiras piores, decisões piores criam mais dívida, mais dívida cria mais estresse. O ciclo se fecha e se aperta progressivamente. Os economistas Ulrike Malmendier, de Berkeley, e Stefan Nagel, da Universidade de Chicago, demonstraram ainda que pessoas que viveram períodos de instabilidade econômica intensa nos anos formativos desenvolvem, durante décadas, preferências mais fortes por gratificação imediata — o que é um retrato do brasileiro médio nascido entre 1955 e 1985. O corpo carrega a dívida. O cérebro, quando pressionado financeiramente por tempo suficiente, começa a tomar as decisões que aprofundam a pressão que o comprometeu.

Considerar apenas uma dessas quatro dimensões é insuficiente. Considerar as quatro em conjunto muda tudo.

Vou dar dois exemplos práticos que ilustram por que a análise integrada importa. O primeiro é o brasileiro que carrega dívida no rotativo do cartão de crédito, frequentemente descrito na literatura de finanças pessoais como financeiramente irresponsável — alguém que não entende juros compostos e por isso cai em armadilhas óbvias. Quando você olha para o mesmo brasileiro pela lente das quatro dimensões, aparece outra coisa. Ele cresceu numa cultura que ensinou que dinheiro guardado perde valor. Aprendeu com pais que viveram a hiperinflação que o presente é a única variável controlável. Vive num sistema tributário que dificulta a acumulação de patrimônio popular. Trabalha em condições que produzem estresse financeiro crônico, o que fisiologicamente reduz sua capacidade de resistir a impulsos e planejar longo prazo. E, quando finalmente precisa do crédito emergencial, encontra um mercado que oferece o rotativo do cartão como opção natural — porque outras alternativas ou não existem para o seu perfil, ou não são apresentadas com clareza equivalente. Não é irresponsabilidade. É comportamento ótimo dentro de um sistema que estrutura escolhas de forma específica.

O segundo exemplo é ainda mais revelador porque envolve alguém que raramente aparece na literatura convencional: o brasileiro de classe média que sistematicamente empresta dinheiro para parentes e amigos e sistematicamente não recebe de volta. Análises superficiais chamam esse comportamento de ingenuidade. A análise integrada mostra outra coisa. A cordialidade herdada da tradição colonial ensinou que recusar pedido de família é ato de ruptura moral, não de zelo financeiro. A insuficiência crônica de rede de proteção social fez da família a instituição de crédito de última instância, papel que o Estado nunca cumpriu adequadamente para a maioria da população. A pressão emocional imediata do pedido, feita presencialmente, ativa o cérebro de forma diferente do cálculo racional que seria feito em planilha. Não é ingenuidade. É racionalidade dentro de outra equação — a equação cordial que compete, no cotidiano brasileiro, com a equação financeira, e que quase sempre vence porque tem apoio cultural profundo. Diagnosticar esse comportamento como falha de caráter individual, sem entender a arquitetura que o produz, torna qualquer intervenção fadada ao fracasso. Reconhecer a arquitetura é o primeiro passo para desenhar alternativas que respeitem o vínculo afetivo sem sacrificar o patrimônio — conversas familiares antecipadas, contratos escritos entre parentes, criação de reserva específica para emergências familiares, entre outras estratégias que o livro desenvolve em detalhe.

Chegar a esse diagnóstico não é oferecer desculpa ao indivíduo. É oferecer contexto — e a partir do contexto, um caminho real. Porque sem entender por que se chegou onde se está, qualquer mapa para onde se quer ir começa do lugar errado. O leitor que atribui integralmente ao próprio caráter a dificuldade financeira que enfrenta gasta energia psicológica combatendo a si mesmo. O leitor que compreende o contexto pode redirecionar essa energia para o que efetivamente muda a situação: automatização de decisões antes que a pressão emocional aja, escolha consciente de instrumentos que compensem a assimetria estrutural, conversa aberta em família sobre dinheiro para desativar o silêncio que o alimenta, uso ativo dos recursos que o próprio sistema oferece e que poucos conhecem — Registrato do Banco Central, Lei do Superendividamento, planejamento tributário legal, previdência complementar com benefício fiscal real, Tesouro Direto a partir de trinta reais, Fundos de Investimento Imobiliário isentos de imposto de renda sobre dividendos, ETFs de índice com taxa de administração inferior a três décimos por cento ao ano. A caixa de ferramentas existe. A distância entre o brasileiro comum e essas ferramentas raramente é distância técnica. É distância psicológica, cultural e informacional — três variáveis que a educação financeira convencional não trata.

Existe outro aspecto que a análise integrada permite enxergar e que raramente aparece nos livros brasileiros de finanças. A Reforma Tributária aprovada pela Emenda Constitucional 132 de 2023, hoje em plena fase de implementação, está mudando a arquitetura do sócio compulsório com quem o brasileiro divide cada real que produz. A CBS já opera em 2026 em fase-piloto com alíquota de teste de zero vírgula nove por cento, compensável com PIS e Cofins. O IBS começou a operar em sistema-piloto compartilhado entre Estados e municípios a alíquota de zero vírgula um por cento. A partir de 2027, a CBS substitui integralmente PIS e Cofins, e o IPI passa a ter alíquota zero para a maior parte dos produtos. Entre 2029 e 2032, ICMS e ISS são extintos progressivamente, com transferência completa para o IBS. Em 2033, o sistema novo opera em sua forma plena — configurando o que a literatura especializada já chama de IVA dual brasileiro. Para o cidadão comum, os efeitos práticos serão graduais e o impacto emocional será modesto. Para o empresário, especialmente o de pequeno e médio porte, é a maior mudança tributária brasileira em cinco décadas. Compreender esse cenário em curso, no momento em que ele está sendo construído, é a diferença entre navegar com bússola e navegar de olhos vendados. É também a diferença, para muitos empreendedores, entre continuar operando com estruturas societárias tributariamente ineficientes e reorganizar suas atividades para o novo sistema antes que a transição obrigue reorganização apressada.

Foi a partir desse conjunto de diagnósticos que estruturei ao longo dos últimos anos aquilo que chamo de Método Nerd — a Neuroestratégia de Execução e Realização Duradoura. O nome não é adereço. É definição técnica. É neuroestratégia porque trabalha explicitamente com o que a neurociência comportamental estabeleceu sobre como o cérebro humano toma decisões financeiras sob pressão — reconhecendo que força de vontade é recurso limitado, que o viés do presente é estrutural e não moral, e que o ambiente decisório importa mais do que a intenção declarada. É execução porque recusa a lógica motivacional que promete transformação por meio de insights isolados: transformação real acontece por meio de arquitetura de decisões repetidas, automatizadas onde possível, protegidas das próprias oscilações emocionais do agente. É realização porque tem como objetivo resultados concretos e verificáveis — patrimônio construído, dívida eliminada, reserva estruturada, planejamento tributário legal aplicado — e não estados subjetivos como confiança, motivação ou empoderamento. E é duradoura porque opera na escala dos juros compostos: décadas, não meses. O Método Nerd é o oposto exato da promessa milagrosa. É a construção paciente de quem entendeu que método vence talento, que consistência vence intensidade, e que reconhecer o próprio chão é o único ponto de partida honesto para qualquer virada real.

O tema pede um livro, não um artigo. Escrevi esse livro, e ele chega às livrarias pela Editora Actual, do Grupo Editorial Alta Books, com prefácio de Peter Jordan. Chama-se O Brasileiro e o Dinheiro e desenvolve, ao longo de 25 capítulos, essas quatro dimensões e suas interseções — do homem cordial ao rotativo do cartão a 313% ao ano, da hiperinflação à Reforma Tributária em curso, do estresse cognitivo da escassez à construção patrimonial gradual e consistente que aplico com meus clientes há duas décadas, e que sistematizei no Método Nerd. É a obra mais ambiciosa que já escrevi para o público amplo, e a que reúne, num único volume, o que aprendi sobre as razões pelas quais o brasileiro, tão criativo em quase tudo, permanece preso numa relação tão sistematicamente disfuncional com o próprio dinheiro. É também a obra em que consegui, pela primeira vez, atravessar as fronteiras entre direito tributário, história econômica, ciências sociais brasileiras e neurociência comportamental para oferecer uma leitura integrada — porque nenhuma dessas disciplinas, isoladamente, explica o brasileiro.

A tese central da obra é simples e, espero, útil. O comportamento financeiro do brasileiro não é falha individual. É herança coletiva. E reconhecer essa herança — sem excesso de culpa, sem excesso de complacência, sem excesso de romantismo sobre o que é a brasilidade — é o primeiro passo para uma virada real. Não a virada milagrosa dos manuais motivacionais que prometem transformação em trinta dias. Mas a virada gradual, imperfeita e sustentável de quem começa a construir, mês após mês, o patrimônio que o país não construiu para ninguém e que continua não construindo. A virada de quem entende que o problema não é só individual, e que a solução também não é só individual — que a solução envolve entender o próprio chão, escolher deliberadamente onde pisar diferente do que se pisou até aqui, e agir com a paciência dos juros compostos, que não recompensam pressa, mas recompensam consistência de forma extraordinária ao longo de décadas.

Brasilidade não é destino. É ponto de partida.