Nossas crianças precisam voltar a ser crianças

Em sua coluna, Luciana Allan fala sobre os impactos da pandemia e do uso excessivo das telas na educação das crianças
 (Depositphotos/Reprodução)
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Crescer em RedePublicado em 14/06/2022 às 16:01.

Por Luciana Allan*

Não é de hoje que a discussão em torno do uso excessivo das telas se tornou frequente na agenda dos educadores. E com a pandemia, a situação se agravou, e muito, revelando, mais de dois anos depois dos estudantes ficarem presos em casa no ensino remoto, seu lado mais perverso: o comprometimento da saúde mental e a sensação, que afetou todos nós, de que não conseguimos mais nos reconectar ao convívio social como estávamos acostumados. No caso particular das crianças e adolescentes dos ensinos básico e médio, o que se vê é uma síndrome generalizada que poderá levar anos para ser vencida caso não seja frontalmente atacada.

Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, realizada em parceria com outras universidades do Brasil e coordenada pela neuropediatra Liubiana Arantes, ouviu mais de 6 mil pais de crianças e adolescentes e uma das conclusões foi de que o tempo de uso do celular durante a pandemia aumentou absurdamente - 75% ultrapassaram as 3 horas diárias, extrapolando muito o tempo máximo de 2 horas recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria. E mais: 51% das crianças estavam comendo mais durante a pandemia, quase 72% ficaram sedentárias e 52% apresentaram dificuldade de dormir.

O desafio que se impõe é que mesmo com o fim do isolamento social e retorno das escolas às atividades presenciais, a garotada continua fazendo uso excessivo das telas e das redes sociais, o que tem causado dependência, vício, isolamento e afastamento da realidade, além de potencializar e disparar problemas socioemocionais como depressão e ansiedade.

Entre os casos de maior repercussão, a crise de ansiedade 'coletiva' registrada recentemente na Escola de Referência em Ensino Médio (Erem), na zona norte do Recife (PE), pode ter relação com o uso indiscriminado de celular e internet. A unidade de ensino acionou o Serviço de Atendimento Móvel Urgência (SAMU), no começo de abril, após 26 alunos apresentarem sintomas de crise de ansiedade. Os estudantes relataram instabilidades como choro excessivo, falta de ar e tremor.

Celulares, tablets e computadores não precisam ser vilões, mas a relação desses dispositivos com as crianças e adolescentes precisa ser guiada e cuidada de perto. É importante que os pais tenham um papel ativo na relação dos filhos com os aparelhos eletrônicos. Estreitar os laços familiares fora das telas é uma das saídas mais interessantes para conseguir um meio termo. Com ou sem telas, o que eles precisam é tempo de qualidade.

Sempre defendi que a tecnologia faz parte da linguagem contemporânea e é uma grande aliada do desenvolvimento de capacidades infantis e oportunidades de uma série de aprendizagens, mas também há vida lá fora. Os dois universos podem coexistir. Só é preciso equilíbrio e bom senso.

É fato: famílias que investem tempo em atividades de lazer ao ar livre ou esportes, ficando menos horas conectadas, têm filhos mais equilibrados emocionalmente, seguros e saudáveis. Em alguns países, o desenvolvimento de uma variedade de competências socioemocionais sempre foi um objetivo educacional ao lado do crescimento cognitivo; para outros, o objetivo da educação tem sido predominantemente o desenvolvimento de habilidades acadêmicas.

A pesquisa da OCDE “Além da aprendizagem acadêmica”, traduzida em 2021 pelo Instituto Ayrton Senna, mostra que o impacto de longo prazo em vários resultados de vida, e o movimento de defesa da aprendizagem socioemocional, colocaram as competências socioemocionais no topo da agenda da política educacional de muitos países.

Em outras palavras, o impacto do fortalecimento das competências socioemocionais para melhorar os resultados sociais é considerável e geralmente é complementar ao desenvolvimento das competências cognitivas. Segundo o estudo, por esse motivo, agora, os educadores estão procurando avidamente por evidências e melhores práticas em competências socioemocionais.

Martin Seligman, pai da Psicologia Positiva e presidente da Associação Americana de Psicologia (APA) na década de 60, identificou que os relacionamentos pessoais são o fator mais significativo para que uma pessoa tenha saúde mental e bem-estar. Ele ensina que, para promover tais competências, é preciso trabalhar em cinco pilares, dentro e fora da escola: emoções positivas (como trazê-las para as atividades); engajamento (imersão nas atividades); relacionamentos; significado (senso de propósito); e conquistas pessoais (fator de saúde mental).

Por isso é imprescindível a corresponsabilidade dos pais junto aos processos educacionais. A importância de promover o ser de forma integral passa pelo desenvolvimento adequado das sete inteligências múltiplas, muito estudadas e difundidas por Howard Gardner (Inteligência espacial, físico-cinestésica, interpessoal, intrapessoal, linguística, lógico-matemática e musical).

Todos nós possuímos todas essas inteligências e somos capazes de desenvolvê-las, mas acabamos tendo maior aptidão para umas ou outras. A melhor forma de observar as capacidades e aplicar a teoria das inteligências múltiplas na prática é desenvolver métodos que estimulem as habilidades potenciais das crianças, principalmente em atividades off-line.

As crianças mais velhas já entendem o conceito de equilíbrio. Os pais devem ajudá-las a entender como distribuir o tempo de exposição às telas ao longo do dia. Então, não perca mais tempo e convide seus filhos a olhar para fora da janela. Mostre que há muito mais para viver e se divertir além do mundo virtual.

Deixo algumas sugestões para ajudá-los a se reconectar com o mundo real:

- Faça atividades coletivas que podem estimular a criança ou adolescente de diversas maneiras e evitam a tendência ao isolamento causado pelas telas;

- Pratique atividades físicas juntos, como andar de bicicleta, caminhar no parque, jogar futebol ou qualquer esporte que ele ou ela goste.

- Seja o modelo de comportamento que você deseja: limite o próprio uso de telas.

- Não permita que crianças e adolescentes fiquem isolados nos quartos com TV, computador, tablet ou celular; estimule o uso em locais comuns da casa.

- Promova conversas e discussões sobre a quantidade de horas apropriadas para a exposição às telas.

- Determine horários em que a tela não deve ser usada – por ninguém da família – como no horário do jantar e no carro, por exemplo.

Por fim, a dica derradeira: estimule que as crianças voltem a ser crianças, brinquem e vivam plenamente a infância e a juventude desfrutando da companhia dos colegas. Afinal, tem coisa melhor do que curtir a companhia de bons amigos, especialmente nesta fase lúdica da vida?

*Luciana Allan é Doutora em Educação pela USP e diretora técnica do Instituto Crescer, onde há mais de 20 anos lidera projetos nacionais e internacionais na área de educação. É idealizadora e líder do APEI-50 – Avaliação de Práticas Educacionais Inovadoras –, foi redatora dos PCNs em Ação, PCNs + Conceitos Estruturantes e, mais recentemente, da BNCC de Computação para o MEC. É articulista da Exame Online, autora dos livros Metodologias Ativas, Diálogos sobre gestão e Transformações da escola e do cenário educacional do Brasil. Também foi autora do curso Melhor Gestão, Melhor Ensino para a Secretaria de Estado de Educação de SP. Luciana ama inovar na Educação e acredita que todos somos responsáveis por repensá-la de forma a promover processos que façam mais sentido para os estudantes e os engajem em momentos de aprendizagem significativa.