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A nação precisa de líderes competentes para progredir?

Celso Toledo fala sobre o impacto da liderança e os limites institucionais no progresso das nações

Liderança: desenvolvimento de líderes é o principal desafio para RH's 

 (Richard Drury/Getty Images)

Liderança: desenvolvimento de líderes é o principal desafio para RH's (Richard Drury/Getty Images)

Celso Toledo
Celso Toledo

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Publicado em 8 de março de 2025 às 08h00.

A resposta parece óbvia, mas a relação entre liderança e progresso pode ser mais complexa do que se imagina. Afinal, o desenvolvimento de um país pode depender menos das habilidades de seus governantes e mais de fatores estruturais, como tendências demográficas, localização geográfica, normas culturais e regras institucionais. Dessa perspectiva, os líderes seriam mais produtos do que vetores da história.

Há evidências de que o desempenho econômico dos países muda significativamente após a saída repentina de um líder, seja por doença ou morte. Isso pode sugerir um impacto da liderança, mas a relação causal ainda não é clara. A diferença de performance antes e depois da transição súbita é uma medida apenas indireta da "qualidade" do líder. Além disso, embora o momento da sucessão seja aleatório, o processo em si já está previamente determinado.

Para identificar a causalidade entre qualidade da liderança e desempenho, o experimento ideal deveria considerar líderes com governos longos, diferentes níveis de habilidade e cuja ascensão fosse aleatória. Um estudo publicado recentemente em um dos mais prestigiados periódicos de economia enfrentou essa questão ao analisar o impacto das monarquias europeias entre os anos 1000 e 1800 (*).

Os autores compilaram dados sobre as capacidades cognitivas dos monarcas e o desempenho de seus reinos. A influência individual foi inferida a partir de duas características que aproximam os 800 anos da história europeia do experimento ideal delineado acima: (i) a sucessão de soberanos ocorria por hereditariedade, critério que independe da habilidade do sucessor, e (ii) havia um elevado grau de consanguinidade entre as dinastias.

Hoje se sabe que o acasalamento entre indivíduos geneticamente próximos tende a reduzir a aptidão biológica da população, pois a endogamia aumenta a probabilidade de transmissão de traços recessivos prejudiciais. A nobreza europeia desconhecia esses efeitos negativos. Os autores utilizaram esse fenômeno para criar um “índice de consanguinidade”, que foi correlacionado com registros históricos sobre a capacidade cognitiva dos soberanos.

Altos índices de consanguinidade estão estatisticamente ligados a monarcas historicamente descritos como menos inteligentes. Dessa forma, a relação estatística entre esse índice e os critérios de performance dos reinos isola o efeito da habilidade individual. Para medir o desempenho dos reinados, os pesquisadores codificaram registros e descrições históricas além de dados objetivos sobre variações de área territorial e população.

Os resultados mostram que aumentos no índice de consanguinidade estão estatisticamente associados a deteriorações significativas em todas as métricas de desempenho utilizadas. Isso sugere que a qualidade da liderança foi um fator determinante para o sucesso dos reinos e, por extensão, trazendo as lições para os dias de hoje, das nações.

Em síntese, líderes mais inteligentes e, em menor grau, mais estáveis emocionalmente governavam reinos com finanças mais saudáveis, comércio ampliado, menos desordem e melhores condições de vida para a população. Além disso, os mais aptos evitavam conflitos desnecessários, mas quando iam à guerra, tendiam a obter mais vitórias. Isso sugere que sabiam escolher as batalhas — ou, de maneira mais ampla, calculavam melhor a relação risco-retorno das decisões em benefício do reino.

O estudo também revela que a habilidade cognitiva dos líderes era mais relevante quando a autoridade era irrestrita. Se houvesse mecanismos que a limitassem, como parlamentos efetivos, o efeito da capacidade individual desaparece. Isso, de certa forma, confirma a sabedoria popular segundo a qual os piores desastres ocorrem quando se dá poder em excesso a um ignorante com iniciativa.

Essa história nos ajuda a compreender o presente. A democracia tende a produzir líderes que são socialmente representativos, mas isso não garante competência. O fato de um presidente refletir a demografia ou os valores da sociedade não significa, por si só, que ele seja capaz de governar com eficácia. Essa é uma realidade bem conhecida pelos brasileiros, especialmente por quem não pertence às tribos polarizadas. Essa é a parcela da população que está disposta a revisar suas opiniões à luz dos fatos. São os que decidem o resultado das eleições, mas que há tempos não se veem representados.

As chances de eleger líderes competentes (ou de atenuar o efeito de escolhas más) aumentam se:

(i) os eleitores reconhecerem a importância do voto e estiverem bem-informados sobre os problemas reais, as políticas propostas e a aptidão dos candidatos;

(ii) os partidos políticos atuarem como filtros eficazes, estabelecendo padrões mínimos de qualidade para os candidatos;

(iii) os debates forem valorizados, bem estruturados e focados em políticas públicas, capacidade de resolução de problemas e tomada de decisão;

(iv) existirem pesos e contrapesos institucionais que limitem o poder dos eleitos, garantam transparência, alternância no comando e uma burocracia técnica que assegure continuidade e eficiência, independentemente de quem esteja no cargo;

(v) houver uma cultura que valorize o diálogo e a busca por consensos baseados em fatos compartilhados pela maioria. Isso permitiria avaliar os líderes pelos resultados concretos de suas ações, e não apenas por alinhamento ideológico.

Infelizmente, muitas — talvez todas — essas condições não estão plenamente satisfeitas no Brasil (ou mesmo em países cujas decisões influenciam indiretamente o nosso futuro). Se essa impressão estiver correta, a probabilidade de elegermos um líder competente no futuro é baixa, e a evidência sugere que as consequências de escolhas equivocadas se acumulam ao longo do tempo.

(*) Ottinger, S. e Voigtländer, N. (2025) “History’s Masters: The Effect of European Monarchs on State Performance”, Econometrica, Vol. 93, No. 1, pp. 95-128.

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