Colunistas

Quando acelerar errado pode parar sua carreira

Crises pessoais, saúde e carreira se entrelaçam mais do que executivos costumam admitir — e ignorar os sinais pode custar caro, dentro e fora do trabalho

O passeio pela Estrada dos Romeiros, de Barueri até Itu, leva pouco mais de uma hora (Alexandre Disaro/Abril Branded Content)

O passeio pela Estrada dos Romeiros, de Barueri até Itu, leva pouco mais de uma hora (Alexandre Disaro/Abril Branded Content)

Adriano Lima
Adriano Lima

Autor do livro "Você em Ação"

Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 08h00.

Última atualização em 8 de fevereiro de 2026 às 16h54.

A vida se parece muito com uma estrada. Uma longa highway, dessas que parecem não ter fim, onde a gente gira a chave do carro no dia em que nasce. Sabemos exatamente o ponto de partida, o local, a data, as circunstâncias. Mas nunca sabemos o ponto de chegada. Não sabemos quando, nem onde, nem de que forma.

No meio do caminho, seguimos dirigindo.

Algumas paradas são planejadas. São metas. Sonhos. Marcos que colocamos no GPS da vida: uma promoção, uma mudança de cidade, um casamento, um filho, uma conquista profissional. Outras paradas, no entanto, não são escolhas. São interrupções impostas. A vida simplesmente nos obriga a encostar o carro no acostamento.

E é aí que tudo muda.

As paradas que escolhemos e as que nos escolhem

Quando paramos porque queremos, geralmente é simples. O pneu está um pouco murcho, basta calibrar. O tanque está na reserva, é só abastecer. O vidro está sujo, uma limpeza resolve. Pequenos ajustes. Autocrítica leve. Autoconhecimento superficial.

A gente resolve rápido e volta para a estrada do mesmo jeito.

Mas há paradas diferentes.

Paradas em que o pneu não está murcho, ele estourou. O vidro não está sujo, ele trincou. Não falta combustível, o motor fundiu.

São as paradas do acostamento que ninguém planejou.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo, responsáveis por cerca de 32% dos óbitos globais. O que poucos falam é que uma parte significativa desses eventos está ligada não apenas a hábitos físicos, mas a estresse crônico, falta de pausas reais e desconexão emocional.

Eu vivi isso na pele.

O dia em que a vida me mandou encostar

Em 2015, dei entrada no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, com taquicardia. A suspeita inicial: infarto do miocárdio. Da região do Ibirapuera, fui levado de ambulância para o Hospital Central do Morumbi. Três dias internado. Exames. Silêncio. Medo.

No final, o diagnóstico: não foi infarto. Foi um descompensamento severo dos batimentos cardíacos. O curioso e perigoso é que, olhando de fora, tudo parecia “certo”. Eu corria regularmente, treinava para a Maratona de Nova York, não fumava, bebia socialmente, mantinha hábitos considerados saudáveis.

Mas havia algo profundamente desajustado dentro de mim.

Eu atravessava uma crise pessoal importante. E, como tantos executivos fazem, ignorei. Não cuidei. Não parei. Não olhei. A vida me mandou para o acostamento. Eu consertei superficialmente o carro. E voltei para a estrada do mesmo jeito.

O erro que muitos cometem ao sair do acostamento

Pesquisas do American Institute of Stress indicam que mais de 70% dos profissionais afirmam que o trabalho é a principal fonte de estresse em suas vidas. Ainda assim, a maioria só para quando o corpo ou a vida grita. Eu ouvi o grito. Mas não escutei a mensagem.

Dois anos depois, sem ter mudado o essencial, a vida me parou de novo.

Dessa vez, não foi o corpo. Foi a estrutura inteira. Meu casamento acabou. E, ao mesmo tempo, perdi meu emprego na Dasa.

Quando o motor funde, tudo descarrilha

Aqui, a metáfora muda de escala. Em 2017, não foi um pneu. Não foi o vidro. O motor fundiu. E quando algo importante na nossa jornada descarrilha e não é cuidado, o potencial de descarrilhar outras dimensões da vida é enorme. Um problema não tratado raramente fica contido. Ele se espalha.

Eu não cuidei bem da minha vida pessoal. Não cuidei dos impactos que um casamento infeliz àquela altura me causava. Não olhei para os sinais a tempo.

E quando a vida pessoal descarrilha, ela cobra pedágio em outras pistas. Descarrilhou a saúde. Descarrilhou a carreira. Descarrilhou o eixo emocional.

Não foi coincidência perder o emprego na DASA no mesmo período em que meu casamento terminou. Foi consequência.

Segundo estudos do World Economic Forum, crises simultâneas em múltiplas dimensões da vida aumentam de forma significativa o risco de adoecimento emocional, decisões impulsivas e rupturas profundas de carreira.

Quando o motor funde, seguir acelerando não é força.

É imprudência.

Quando o carro para, a paisagem aparece

Existe algo curioso quando estamos no acostamento. O carro está parado. O barulho da estrada continua, mas você não está mais correndo atrás da chegada. E, pela primeira vez, a paisagem aparece. Talvez um lago. Talvez árvores. Talvez um céu aberto. Talvez uma cidade que você nunca teria visto se estivesse acelerando na estrada da vida.

A metáfora é simples, mas profunda: quando a vida nos tira da corrida, ela nos convida a olhar. Não só para fora. Mas principalmente para dentro. Foi ali em 2017 que eu tomei uma decisão diferente: não voltar para a estrada do mesmo jeito.

Olhar a paisagem interior exige coragem

Olhar para dentro não é romântico. É duro. É admitir que o problema não está só no trânsito, no chefe, na empresa, no mercado ou no tempo. Muitas vezes, está em escolhas que fizemos ou deixamos de fazer.

Foi nesse período que decidi parar de verdade. Voltei para a terapia depois de 15 anos.

Busquei uma nova visão de espiritualidade, menos discurso, mais prática. Passei a cuidar de forma integrada da saúde física, mental e emocional. Retomei o estudo como ferramenta de reconstrução interna.

Olhar para frente também é parte do conserto

Além do mergulho interior, eu sabia que precisava olhar para o futuro. Fui ao Vale do Silício estudar o futuro do trabalho. Voltei mais de uma vez. Levei missões de Recursos Humanos. Mergulhei no mundo digital, nas novas formas de cultura, liderança e gestão de talentos.

Esse movimento me levou a um novo capítulo profissional: tornar-me sócio da Neon Pagamentos, uma empresa símbolo da nova economia.

Ali, pude colocar em prática tudo o que havia reconstruído: cultura, gestão de talentos e liderança em um ambiente de altíssima velocidade. E me reinventar profissionalmente. Decidi contar essas histórias no Linkedin. Em 2024 recebi a notificação que eu era o Executivo de RH mais seguido do Linkedin.

A estrada voltou a fazer sentido.

Voltar diferente é a única volta que vale

Minha carreira voltou para o trilho. Minha vida ganhou mais coerência.

Hoje, atuo como coach executivo, conselheiro e advisor de empresas, sócio de startups, palestrante e colunista de uma revista renomada. Tenho meu programa de videocast “gente que pod”, atuei como host em 2025 de um programa semanal com a radio CBN do Mato Grosso. Minhas redes sociais ultrapassaram a marca de 100 mil seguidores.

Em 2023 lancei meu livro “Você em ação”. Fui eleito Top of Mind, o Oscar do RH, por 4 anos consecutivos (22,23,24 e 25), fui eleito Ibest Influenciador de RH em 24 e 25.

Mais importante do que números, reencontrei presença. Estou casado novamente. Bem feliz. E, aos 59 anos, vivo o melhor momento da minha vida e da minha carreira. Não porque a estrada ficou mais fácil. Mas porque eu aprendi a dirigir diferente.

A mensagem que fica para quem está na estrada

Se eu pudesse deixar uma mensagem para quem está lendo este artigo, seria simples e profunda:

Cuide-se antes que a vida te obrigue a parar.

Cuide da saúde física, mental e espiritual.

Cuide das relações.

Cuide do intelecto.

Cuide da cultura que você constrói ao seu redor.

Quando a vida te parar no acostamento, não volte no piloto automático. Olhe a paisagem externa, sim mas, sobretudo, a paisagem interior.Porque às vezes a vida não está tentando te atrasar.

Ela está tentando te salvar.

E o verdadeiro sucesso não é chegar primeiro.

É chegar inteiro.