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O que as empresas podem aprender com a Copa do Mundo

Quanto mais estudo liderança, cultura organizacional e gestão de pessoas, mais percebo que o futebol e o mundo corporativo tem muitas semelhanças

 (Divulgação/Divulgação)

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Adriano Lima
Adriano Lima

Autor do livro "Você em Ação"

Publicado em 4 de junho de 2026 às 07h10.

A primeira Copa do Mundo que acompanhei presencialmente foi a de 2002, no Japão. Já participei de outras depois daquela, mas existe algo na primeira vez que permanece para sempre na memória.

Lembro da sensação de caminhar por cidades tomadas por diferentes idiomas, culturas e bandeiras. Pessoas que jamais se encontrariam em circunstâncias normais dividindo espaços, celebrando emoções parecidas e vivendo uma experiência coletiva que ultrapassava o futebol.

E lembro, claro, do momento que entrou para a história.

Eu estava naquele Mundial quando Ronaldinho Gaúcho marcou contra a Inglaterra um dos gols mais emblemáticos de todas as Copas. Até hoje há quem discuta se foi um cruzamento ou um chute. Pouco importa. O fato é que aquele lance ajudou a mudar o rumo de uma partida e entrou definitivamente para o imaginário do esporte mundial.

Mas passadas mais de duas décadas, percebo que a principal lição daquela Copa não veio daquele gol.

Veio dos bastidores.

Porque nenhum título mundial é conquistado apenas pelo talento de seus jogadores. Nenhuma seleção chega ao topo sustentando-se exclusivamente em genialidades individuais. E nenhuma organização constrói resultados extraordinários de forma consistente sem cultura, liderança, disciplina, confiança e capacidade de trabalhar coletivamente.

Talvez seja exatamente por isso que eu goste tanto de observar Copas do Mundo. Quanto mais estudo liderança, cultura organizacional e gestão de pessoas, mais percebo que o futebol e o mundo corporativo possuem semelhanças impressionantes.

Quando assistimos a uma partida, vemos apenas o resultado final. Vemos o gol, a comemoração, a entrevista e a taça sendo levantada.

Nas empresas acontece a mesma coisa.

O mercado vê os resultados financeiros, o crescimento, a valorização da marca ou os indicadores divulgados ao final do trimestre.

O que quase ninguém vê é tudo aquilo que aconteceu antes.

As conversas difíceis. Os treinamentos. Os ajustes de rota. Os conflitos administrados. As decisões impopulares. A construção de confiança entre as pessoas. A formação de lideranças capazes de inspirar, desenvolver e mobilizar equipes.

É nesse território invisível que os campeões são construídos.

Ao longo da minha carreira participei de transformações culturais em organizações dos mais diferentes segmentos e tamanhos. E uma das conclusões a que cheguei é que cultura nunca foi sobre frases bonitas penduradas na parede.

Cultura é aquilo que as pessoas fazem quando ninguém está olhando.

É o comportamento que se repete todos os dias.

É a forma como as decisões são tomadas.

É o que determina se a estratégia sairá do PowerPoint ou se tornará realidade.

As seleções campeãs da história compreenderam isso muito bem.

Quando analisamos os grandes vencedores das Copas do Mundo encontramos padrões que aparecem também nas empresas mais admiradas do planeta. Existe clareza sobre o objetivo. Existe alinhamento. Existe disciplina na execução. Existe confiança. E existe um senso coletivo que se sobrepõe aos interesses individuais.

Parece simples.

Mas é justamente aí que reside a dificuldade.

Porque construir um time é muito mais complexo do que reunir talentos.

Felipe Azevedo, CEO da LG Lugar de Gente, sintetiza essa questão de forma muito precisa:

“Os grandes campeões não são necessariamente aqueles que possuem os maiores talentos individuais, mas os que conseguem transformar talento em sistema, estratégia em execução e propósito em comportamento. No mundo corporativo acontece exatamente o mesmo. Empresas vencedoras são aquelas que conseguem alinhar pessoas, tecnologia, processos e cultura em torno de um objetivo comum, criando uma capacidade coletiva de gerar resultados de forma consistente e sustentável.”

A fala de Felipe toca em um dos maiores equívocos da gestão moderna.

Durante muito tempo acreditamos que bastava contratar os melhores profissionais para garantir os melhores resultados.

A realidade mostra algo diferente.

Existem empresas repletas de talentos que performam abaixo do esperado. Da mesma forma que a história do futebol está cheia de seleções talentosas que jamais conquistaram o título.

O motivo normalmente é o mesmo.

Falta de alinhamento.

Falta de liderança.

Falta de capacidade de transformar indivíduos em equipe.

A Copa do Mundo também oferece uma das maiores aulas de liderança que existem.

Poucos ambientes expõem tão rapidamente líderes preparados e despreparados.

A pressão é gigantesca. O erro é público. O tempo para reagir é curto. E as consequências de uma decisão equivocada podem ser irreversíveis.

No mundo corporativo, embora em uma velocidade diferente, a dinâmica é semelhante.

Mercados mudam.

Tecnologias surgem.

Modelos de negócio desaparecem.

Crises econômicas acontecem.

Novos concorrentes aparecem.

E é justamente nesses momentos que descobrimos se existe liderança de verdade ou apenas ocupação de cargo.

Costumo dizer em minhas palestras que liderança é habilidade, não posição.

A Copa reforça essa tese a cada edição.

Os maiores líderes nem sempre são aqueles que usam a braçadeira de capitão. Muitas vezes são aqueles que conseguem manter o grupo unido quando as coisas não estão funcionando, que sustentam a confiança coletiva nos momentos difíceis e que colocam o resultado da equipe acima do próprio protagonismo.

As organizações precisam desesperadamente desse tipo de liderança.

Não por acaso, em uma pesquisa que realizei com mais de uma centena de CHROs brasileiros, a principal preocupação não estava relacionada à inteligência artificial ou à tecnologia.

O maior desafio apontado foi a falta de líderes preparados para enfrentar os desafios atuais e futuros das organizações.

Talvez porque a tecnologia esteja evoluindo rapidamente, mas a capacidade humana de liderar continue sendo um diferencial difícil de substituir.

Existe ainda uma outra dimensão da Copa que merece atenção.

Seu impacto econômico.

Uma Copa do Mundo movimenta muito mais do que torcedores.

Movimenta negócios.

Movimenta cadeias produtivas.

Movimenta oportunidades.

Milhões de profissionais trabalham para que aquele espetáculo aconteça.

Empresas de tecnologia, turismo, logística, alimentação, entretenimento, transporte, comunicação e serviços formam uma gigantesca engrenagem que opera simultaneamente.

Eduardo Abreu, vice-presidente de Desenvolvimento de Negócios da Visa, destaca exatamente essa perspectiva:

“Uma Copa do Mundo movimenta muito mais do que torcedores. Ela movimenta negócios, gera oportunidades e impulsiona economias inteiras. Por trás de cada partida existe uma enorme rede de empreendedores, comerciantes, empresas de tecnologia, profissionais de turismo, logística, entretenimento e muitos outros que ajudam a fazer tudo acontecer.”

Sua reflexão nos lembra que grandes realizações nunca acontecem isoladamente.

Por trás de cada vitória existe uma rede complexa de colaboração.

No futebol.

E também nas empresas.

Mas talvez a contribuição mais interessante para esta reflexão tenha vindo de Edison Ticle, CFO da Minerva Foods.

Ao comentar a série sobre a seleção brasileira de 1970, ele chamou atenção para uma passagem que vai muito além do esporte.

“A minissérie sobre a seleção brasileira de 1970 mostra uma lição que continua extremamente atual para qualquer organização. Em um momento decisivo da campanha, quando o Brasil corria o risco de não avançar, a principal mensagem não foi sobre talento individual, mas sobre equipe. Não adianta reunir grandes estrelas se elas não conseguem atuar como um time. A história mostra que aquela seleção tinha jogadores extraordinários, mas só alcançou seu potencial quando entendeu que precisava jogar de forma coletiva. Nas empresas acontece exatamente a mesma coisa. Você pode ter profissionais brilhantes, mas, enquanto eles não se enxergarem como parte de uma equipe, dificilmente chegarão longe. Os maiores resultados surgem quando o talento individual se coloca a serviço do objetivo comum.”

Essa talvez seja a maior lição da Copa do Mundo para qualquer líder.

O talento importa.

Mas não basta.

A estratégia importa.

Mas não basta.

Os recursos importam.

Mas também não bastam.

No final, aquilo que diferencia organizações extraordinárias de organizações medianas é sua capacidade de transformar indivíduos em equipes, objetivos em propósito compartilhado e estratégia em execução consistente.

Quando a próxima Copa começar, milhões de pessoas estarão olhando para os gols, para os craques e para os momentos decisivos.

Eu também estarei.

Mas continuarei prestando atenção principalmente nos bastidores.

Porque é nos bastidores que os campeões são construídos.

No futebol.

E nas empresas também.