Autor do livro "Você em Ação"
Publicado em 23 de junho de 2026 às 18h04.
Última atualização em 23 de junho de 2026 às 18h16.
PHILADELPHIA — Algumas das melhores lições desta Copa do Mundo aconteceram antes mesmo de a bola rolar.
Horas antes da partida entre Brasil e Haiti, participei do tradicional esquenta da torcida verde e amarela ao lado da minha esposa, Thaís Luquesi. Como costuma acontecer em grandes eventos esportivos, encontrei amigos, revi brasileiros que viajaram milhares de quilômetros para acompanhar a Seleção e vivi aquele clima único que só uma Copa do Mundo consegue proporcionar.
Mas o que mais me chamou atenção naquela tarde não foi a quantidade de camisas amarelas pelas ruas da Filadélfia.
Foi a convivência.
Brasileiros e haitianos compartilhavam os mesmos espaços, trocavam cumprimentos, conversavam, tiravam fotos e celebravam juntos a oportunidade de viver aquele momento. Em um mundo cada vez mais polarizado, havia algo inspirador naquela atmosfera de respeito e convivência entre culturas diferentes reunidas por uma paixão em comum.
Enquanto observava aquela cena, pensei que a Copa do Mundo talvez seja muito mais do que uma competição esportiva. Ela é também um encontro de identidades. E isso vale tanto para países quanto para empresas.
Poucas horas depois, dentro do estádio, outra imagem chamou minha atenção.
A Seleção Brasileira parecia diferente daquela que havia empatado com Marrocos.
O adversário desta vez era tecnicamente inferior e seria injusto ignorar esse fato. O Haiti não apresentou o mesmo nível de organização, intensidade e competitividade que vimos na estreia. Ainda assim, reduzir a vitória por 3 a 0 apenas à diferença entre os elencos seria simplificar demais o que aconteceu em campo.
O Brasil estava mais organizado, mais entrosado e mais confortável dentro daquilo que pretendia executar. Havia uma percepção clara de que os jogadores compreendiam melhor os espaços, os movimentos e as responsabilidades de cada um dentro da proposta de jogo. A circulação da bola parecia mais natural, as conexões entre os setores aconteciam com mais fluidez e a equipe transmitia uma sensação de confiança que não havia aparecido com a mesma intensidade na partida anterior.
Os jogadores eram os mesmos. O talento era o mesmo. Mas a execução parecia melhor.
Ao longo da minha carreira, aprendi que uma das características mais marcantes das equipes de alta performance não é a ausência de erros. Pelo contrário. Grandes organizações erram o tempo todo. Grandes líderes tomam decisões equivocadas. Grandes empresas lançam projetos que não funcionam como esperado.
O que diferencia os melhores não é a capacidade de evitar erros.
É a capacidade de aprender com eles.
E, principalmente, a capacidade de aprender sem perder a própria identidade.
Esse é um ponto importante porque muitas equipes, depois de um resultado abaixo do esperado, entram em um processo de mudanças desordenadas. Trocam tudo ao mesmo tempo. Mudam a estratégia, mudam a forma de atuar, mudam prioridades e, frequentemente, acabam perdendo aquilo que as tornava especiais.
As organizações mais maduras fazem diferente.
Elas corrigem a rota sem abandonar sua essência.
Elas evoluem sem perder sua identidade.
Foi exatamente isso que me pareceu acontecer com a Seleção Brasileira diante do Haiti.
O Brasil continuou sendo uma equipe técnica, criativa e ofensiva. Não tentou se transformar em algo que não é. O que fez foi ajustar comportamentos, melhorar conexões, corrigir falhas e executar melhor aquilo que já estava proposto.
Pode parecer uma diferença sutil. Mas é exatamente essa diferença que separa processos de evolução de processos de improvisação.
No futebol, como nas empresas, raramente os resultados aparecem porque alguém decidiu mudar tudo de uma hora para outra. Na maioria das vezes, eles surgem quando uma equipe consegue identificar rapidamente seus erros, fazer os ajustes necessários e seguir avançando com mais consistência.
Ao deixar o estádio naquela noite na Filadélfia, fiquei com a sensação de que a principal notícia não eram os três gols marcados.
Era a evolução demonstrada entre um jogo e outro.
Ainda é cedo para qualquer conclusão definitiva sobre a campanha brasileira nesta Copa. Os desafios certamente serão maiores daqui para frente. Mas a atuação diante do Haiti deixou um sinal positivo.
Mostrou uma equipe que parece ter ouvido os alertas da estreia, aprendido com eles e respondido dentro de campo.
Porque em ambientes altamente competitivos, sejam eles esportivos ou corporativos, o sucesso raramente pertence a quem nunca erra.
Ele costuma pertencer a quem aprende mais rápido sem esquecer quem é.
Talvez essa tenha sido a maior vitória do Brasil na Filadélfia.