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A Copa acabou. A gestão continua

Quem já participou de um processo de transformação organizacional sabe que grandes resultados nunca começam no dia em que são celebrados

Adriano Lima
Adriano Lima

Autor do livro "Você em Ação"

Publicado em 20 de julho de 2026 às 09h28.

Quando um time levanta a taça de uma Copa do Mundo, é natural que os olhos estejam voltados para o instante da conquista. A imagem do capitão erguendo o troféu, a comemoração dos jogadores e a explosão da torcida parecem resumir toda a história. No entanto, quem já participou de um processo de transformação organizacional sabe que grandes resultados nunca começam no dia em que são celebrados. Eles começam muito antes, quase sempre longe dos holofotes, quando ainda não existe reconhecimento, manchete ou medalha.

Talvez essa seja a maior lição que a Copa do Mundo de 2026 deixa para quem lidera empresas.

Ao longo desta série procurei mostrar que o Mundial sempre foi muito mais do que uma competição esportiva. O Japão nos ensinou sobre disciplina e preparação. O Marrocos mostrou que identidade pode compensar diferenças de orçamento. A Noruega reforçou como um projeto consistente sobrevive à troca de gerações. O Haiti revelou que propósito continua sendo uma poderosa fonte de mobilização mesmo diante da escassez. Também vimos como a Copa se transformou na Copa dos creators, refletindo um mundo em que influência passou a ser um ativo estratégico para atletas, marcas e organizações. Cada história ofereceu uma perspectiva diferente sobre liderança e gestão. A Espanha, porém, reuniu praticamente todas elas em uma única campanha.

Seria um erro atribuir essa conquista apenas ao talento de uma geração extraordinária. O futebol está repleto de seleções que reuniram jogadores brilhantes e, mesmo assim, fracassaram nos momentos decisivos. A diferença espanhola foi construída em outro lugar. Ela nasceu da capacidade de desenvolver um sistema que permanece competitivo independentemente das mudanças de elenco, de treinador ou de contexto. Em um ambiente cada vez mais marcado pela busca de soluções imediatas, a Espanha lembrou ao mundo que excelência sustentável é consequência de continuidade.

Os números ajudam a entender essa afirmação. A seleção terminou a Copa sofrendo apenas um gol em toda a competição, estabelecendo um recorde defensivo do torneio. Na decisão contra a Argentina, venceu por 1 a 0 na prorrogação, mas o placar esconde um domínio muito maior do que o resultado sugere. Os espanhóis controlaram mais de 65% da posse de bola, finalizaram cerca de vinte vezes e praticamente não permitiram que os argentinos criassem oportunidades claras durante o tempo regulamentar. A superioridade não nasceu de uma atuação inspirada em uma única noite. Ela foi consequência de um modelo de jogo que vem sendo aperfeiçoado há décadas.

Durante muito tempo, a Espanha foi identificada quase exclusivamente pelo chamado tiki-taka. Nesta Copa, entretanto, vimos uma evolução importante. A equipe continuou valorizando o controle da bola, mas incorporou intensidade sem ela, pressão alta, transições rápidas e maior flexibilidade tática. Em outras palavras, preservou sua identidade enquanto atualizava sua maneira de competir.

A escolha do técnico Luis de la Fuente simboliza essa lógica. Antes de assumir a seleção principal, passou mais de uma década nas categorias de base da Federação Espanhola, conquistando títulos e formando atletas que mais tarde chegariam ao time principal. Quando assumiu a equipe adulta, conhecia profundamente seus jogadores e a cultura que ajudara a construir.

Esse é um contraste interessante com o ambiente empresarial. Muitas organizações investem em programas de liderança, mas, diante da saída de um executivo, recorrem imediatamente ao mercado porque não prepararam sucessores. A sucessão continua sendo tratada como resposta a uma emergência, quando deveria ser uma competência permanente.

Talvez esse seja o maior contraste entre a gestão esportiva e a gestão empresarial contemporânea. Vivemos uma época fascinada pela velocidade. Queremos transformar cultura em um workshop, liderança em um treinamento de poucas horas e inteligência artificial na solução para praticamente todos os desafios humanos. A Copa lembrou que tecnologia acelera processos, mas não substitui maturação.

Quando esta série começou, meu objetivo era mostrar que uma Copa do Mundo poderia ser observada como um grande laboratório de gestão. Depois de acompanhar dezenas de jogos e histórias improváveis, termino convencido de que os campeões quase nunca são fruto do acaso. Eles representam o estágio mais visível de um trabalho invisível que começou muitos anos antes.

A Espanha levantou a taça em julho de 2026. O verdadeiro título, entretanto, foi conquistado ao longo de décadas, quando decidiu investir na formação de jogadores, treinadores e uma identidade que resistisse às mudanças de geração. Para quem lidera empresas, fica uma pergunta que permanece muito depois do encerramento da Copa: sua organização está apenas tentando vencer o próximo jogo ou está construindo um sistema capaz de continuar vencendo quando os atuais protagonistas já não estiverem mais em campo?