Vacina da covid-19 em países pobres pode salvar dobro de vidas, diz Gates

Pesquisa encomendada pela Fundação Gates aponta que vacinar países mais populosos em vez de mais ricos evitaria 61% das mortes

Para o casal de filantropos Bill e Melinda Gates a vacina contra o novo coronavírus, assim que aprovada, precisa ser distribuída aos pobres igualmente. Segundo eles, isso pode salvar o dobro de vidas — e a afirmação tem comprovação científica.

Em um artigo publicado no jornal britânico Financial Times, os Gates explicaram como chegaram a essa conclusão. A fundação deles encomendou uma pesquisa da Universidade de Northeastern que considerou dois cenários: em um deles, aproximadamente 50 países ricos monopolizaram as primeiras 2 bilhões de doses de uma vacina. No segundo, as doses foram distribuídas com base na população dos países, não em dinheiro.

Por não termos, ainda, nenhuma vacina aprovada, a universidade considerou que uma dose única de uma proteção contra a covid-19 seria 80% eficaz duas semanas após ser administrada e que 125 milhões de doses poderiam ser dadas por semana — grande parte da pesquisa deles é uma observação do que aconteceu com outros vírus, como a gripe.

O que o estudo concluiu é que uma vacina oferecida para países com a população maior evitaria 61% das mortes. No cenário no qual os países mais ricos monopolizaram as primeiras doses da vacina, quase o dobro de pessoas morreria — e a covid-19 continuaria a se espalhar por até quatro meses em 3/4 do mundo.

Mas os países mais ricos já estão saindo na frente em termos de reservar boa parte dos estoques de vacinas no mundo.

Desde reservar 90% do estoque do remdesivir, primeiro tratamento promissor na luta contra o novo coronavírus, da farmacêutica americana Gilead Sciences, o que pode fazer com que outros países não recebam doses da medicação até setembro, incluindo o Brasil, até um acordo com a Pfizer para comprar todas as vacinas produzidas pela empresa, os Estados Unidos têm corrido para chegar primeiro na linha de chegada das vacinas e remédios experimentais contra a covid-19.

Os EUA também aumentaram o investimento na proteção da Moderna para 955 milhões de dólares e, em um acordo de 1,2 bilhão de dólares, asseguraram 300 milhões de doses da vacina de Oxford.

Em maio, o Reino Unido havia investido 79 milhões de dólares no programa de Oxford em troca do recebimento de 30 milhões de doses da vacina produzida pela universidade. O total dos investimentos dos britânicos para encontrar uma vacina, no entanto, chega a 100 milhões de libras (mais de 667 milhões de reais na cotação atual).

A Alemanha, a Itália, a França e os Países Baixos também não ficaram para trás e assinaram um acordo com a mesma farmacêutica para receber 400 milhões de doses até o final de 2020. E em 17 de junho, a União Europeia criou uma Estratégia de Vacina Europeia para garantir o acesso à proteção para todos os integrantes do bloco econômico e 2,3 bilhões de dólares podem ter sido investidos nisso.

O Brasil foi o escolhido para as testagens da chinesa Coronavac, do laboratório Sinovac Biotech, em parceria com o Instituto Butantan, e também para testes da vacina de Oxford. Para o doutor em microbiologia e divulgador científico Atila Iamarino, essa escolha se deu pelo alto número de contágio no país. “O Brasil é palco de testes e vacinas porque aqui os fabricantes têm chance de em pouco tempo ver se as pessoas que se expuseram ao vírus estão protegidas ou não porque a epidemia segue crescendo.

“Com a Europa declinando em casos, com a Ásia em partes também diminuindo os números de infecções, sobra o Brasil”, disse ele em uma transmissão ao vivo em seu canal do YouTube. Outro fator que leva as empresas a testar por aqui é o baixo custo para fazê-lo. “Vale pensar que são vacinas que já chegam aqui tendo passado pela fase de testes de segurança, não é como se estivessem fazendo os brasileiros de cobaia só”, garantiu.

Enquanto grandes potências econômicas têm o dinheiro necessário para investir em vacinas próprias, outras sem o mesmo poder capital, como é o caso do Senegal, dependem exclusivamente das ações de empresas de fora. Por lá, a biotech Mologic desenvolveu testes caseiros e rápidos que podem custar até 1 dólar. Mas quanto tempo uma vacina pode demorar para chegar até esses locais?

“Não podemos depender somente da boa vontade para garantir acesso à ela. Demorou dez anos para as drogas contra a AIDS chegar a países mais pobres”, afirmou Arzoo Ahmed, do Conselho Britânico Nuffield de Bioética à agência de notícias AP.

O programa das Nações Unidas Unaids afirmou que as nações africanas já ficam no fim da linha para o recebimento de medicamentos em pandemias e que isso “será pior caso uma vacina seja encontrada.”

Pensando nisso, a AstraZeneca assinou um acordo de 750 milhões de dólares com a A Coalizão Para Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI, na sigla em inglês) e com a Gavi Alliance para assegurar 300 milhões de doses para países pobres. E também fez um acordo com o Instituto Serum da Índia, que receberá 400 milhões de doses reservadas para países de baixa e média renda. A farmacêutica garantiu que não obterá lucros em nações mais necessitadas. O mesmo foi prometido pela americana Johnson & Johnson.

A União Europeia assegurou que tentará fazer com que os países mais pobres não fiquem para trás na fila das vacinas. “Ao falarmos sobre uma pandemia global, não tem espaço para ‘eu primeiro’”, afirmou a presidente para a Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

A China prometeu doar qualquer uma que tiver sucesso primeiramente para países no continente africano.

As iniciativas das empresas e dos países são promissoras, mas, enquanto uma vacina não fica disponível, é difícil mensurar o quão rápido ela chegará em locais mais necessitados e com sistemas de saúde mais frágeis.

“A pandemia e a recessão econômica são globais, e as soluções nacionais são inadequadas”, escreveram os Gates no FT. “As fronteiras não são significativas para patógenos e se tornam cada vez menos consequentes para as economias a cada ano que passa”, disseram.

No fim, Bill e Melinda Gates acreditam que a forma mais eficaz de lidar com a pandemia é a cooperação global. “Empresas e governos devem entender que o futuro não é uma corrida na qual vencedores vencem apenas quando outros perdem. É um esforço cooperativo no qual todos progredimos juntos.”

Os tipos de vacina disponíveis

Alguns tipos de vacinas têm sido testados para a luta contra o vírus. Uma delas é a de vírus inativado, que consiste em uma fabricação menos forte em termos de resposta imunológica, uma vez que nosso sistema imune responde melhor ao vírus ativo. Por isso, vacinas do tipo tem um tempo de duração um pouco menor do que o restante e, geralmente, uma pessoa que recebe essa proteção precisa de outras doses para se tornar realmente imune às doenças. É o caso da Vacina Tríplice (DPT), contra difteria, coqueluche e tétano. A vacina da Sinovac, por exemplo, segue esse padrão.

Outro tipo de vacina é a de Oxford, feita com base em adenovírus de chimpanzés (grupo de vírus que causam problemas respiratórios), e contendo espículas do novo coronavírus.

As outras vacinas em fases clínicas já avançadas também são baseadas em espículas, mas apresentadas em forma de RNA mensageiro, como as da Pfizer e da Moderna.

Como estão as 9 potenciais?

Sinovac Biotech: a vacina chinesa que começou os testes em fase 3 no Brasil na última segunda-feira, 20, pretende fabricar até 100 milhões de doses anuais. Por aqui, 9 mil profissionais da área da saúde receberão a vacina.

Sinopharm (Wuhan e Pequim): a vacina com base em vírus inativado, que se mostrou capaz de produzir resposta imune ao vírus, começou as fases 3 de testes neste mês nos Emirados Árabes Unidos. Cerca de 15 mil voluntários participaram do período de testes e a empresa chinesa acredita que a opção estará disponível para o público já no final do ano.

Oxford e AstraZeneca: os resultados preliminares das fases 1 e 2 da vacina com mais de mil pessoas mostraram que ela foi capaz de induzir uma resposta imune à doença. As fases dois (que ainda está ocorrendo no Reino Unido) e três de testes (acontecendo no Reino Unido, Brasil e África do Sul) devem garantir a eficácia completa dela. A opção é tida como a mais promissora pela OMS.

Moderna: a empresa americana iniciou última fase de testes de sua vacina baseada no RNA mensageiro no dia 27 de julho. O teste vai incluir 30 mil pessoas nos Estados Unidos e o governo investiu pesado: cerca de 1 bilhão de dólares para apoiar a pesquisa. A expectativa da empresa é produzir 500 milhões de doses por ano.

Pfizer e BioNTech: a vacina agora também está na fase três de testes e também usa o RNA mensageiro, que tem como objetivo produzir as proteínas antivirais no corpo do indivíduo. A expectativa é testar a vacina em aproximadamente 30.000 voluntários com idades entre 18 e 85 anos no mundo. Desse total, 1.000 serão testados no Brasil. Se tudo der certo, a expectativa é que a eficácia da vacina seja comprovada até o outubro. A empresa espera produzir até 100 milhões de doses até o fim do ano. Outras 1,3 bilhão de doses podem ser fabricadas no ano que vem.

Instituto Gamaleya: em 11 de agosto a Rússia registrou a primeira vacina do mundo contra a covid-19. A vacina russa é baseada no adenovírus humano fundido com a espícula de proteína em formato de coroa que dá nome ao coronavírus e é por meio dessa espícula de proteína que o vírus se prende às células humanas e injeta seu material genético para se replicar até causar a apoptose, a morte celular, e, então, partir para a próxima vítima. Na última segunda-feira, 31, o país anunciou que o primeiro lote de sua vacina, a “Sputnik V”, estará disponível já neste mês.

CanSino: a vacina chinesa usa um vírus inofensivo do resfriado conhecido como adenovírus de tipo 5 (Ad5) para transportar material genético do coronavírus para o corpo e, segundo a companhia, conseguiu induzir uma resposta imune nos indivíduos que foram testados. No começo de agosto, a China concedeu a primeira patente da vacina.

Janssen Pharmaceutical Companies: a vacina, em parceria com a gigante Johnson&Johnson, será “produzida em larga escala”, segundo as empresas, e conseguiu induzir imunidade robusta em testes pré-clínicos. O plano da Janssen é produzir até 1 bilhão de doses que serão distribuídas mundialmente em 2021, após a aprovação. A tecnologia usada para a produção dela é a mesma utilizada no desenvolvimento da vacina da Ebola, que inclui o uso do vírus inativado da gripe comum, incapaz de ser replicado.

Quais são as fases de uma vacina?

Para uma vacina ou medicação ser aprovada e distribuída, ela precisa passar por três fases de testes. A fase 1 é a inicial, quando as empresas tentam comprovar a segurança de seus medicamentos em seres humanos; a segunda é a fase que tenta estabelecer que a vacina ou o remédio produz, sim, imunidade contra um vírus, já a fase 3 é a última fase do estudo e tenta demonstrar a eficácia da droga.

Uma vacina é finalmente disponibilizada para a população quando essa fase é finalizada e a proteção recebe um registro sanitário. Por fim, na fase 4, a vacina ou o remédio é disponibilizado para a população.

Com isso, as medidas de proteção, como o uso de máscaras, e o distanciamento social ainda precisam ser mantidas. A verdadeira comemoração sobre a criação de uma vacina deve ficar para o futuro, quando soubermos que a imunidade protetora realmente é desenvolvida após a aplicação de uma vacina. Até o momento, nenhuma situação do tipo aconteceu.

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