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Entre os nomes constantemente pronunciados de CEOs fundadores do Vale do Silício, o de Sam Altman é o que remete à sensação tecnológica do momento. No comando da OpenAI, startup de inteligência artificial que criou o ChatGPT, a imagem do executivo resume o que de mais ficção científica a tecnologia dos tempos atuais pode oferecer.

Mas o proeminente Altman já reservou parte de sua fortuna para o que acredita ser uma empresa ainda mais futurista e transformadora: uma startup de fusão nuclear chamada Helion Energy.

E não só ele apostou nesse setor que já foi tendência de governos empenhados na guerra fria da década de 1960. Outros bilionários esperam aproveitar o processo físico que alimenta o Sol e as estrelas para fornecer energia quase ilimitada e expandir as capacidades da humanidade.

Além de fonte de energia elétrica, ao se provar viável, a fusão nuclear criará muitos novos bilionários. Para ter uma ideia, na lista de entusiastas que acreditam na tese estão nomes como Jeff Bezos, Peter Thiel, Bill Gates e Marc Benioff. Todos investidores da aposta e que esperam, até a próxima década, ser possível construir reatores de fusão nuclear sustentáveis que criem mais energia do que consomem.

Sam Altman: CEO e fundador da OpenAI (Chona Kasinger/Bloomberg/Getty Images)

“É o Santo Graal. É o unicórnio mítico”, disse Benioff, CEO da Salesforce, ao "Wall Street Journal", ao justificar o investimento ao lado de Bill Gates, de valor não revelado, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts chamado Commonwealth Fusion Systems, cujo objetivo é criar usinas nucleares compactas.

A fusão há muito é vista como uma alternativa de energia limpa para fontes que queimam combustíveis fósseis e liberam gases de efeito estufa.

Os pesquisadores dessa tecnologia, principalmente nos EUA, Canadá e Europa, estão em uma onda de hype desde agosto de 2021, quando pesquisadores do Lawrence Livermore National Laboratory, na Califórnia, conseguiram gerar energia partindo de um processo de fusão nuclear.

Em linhas gerais, fusão nuclear é a reação que ocorre no sol, gerando energia e calor. No processo, há dois átomos de hidrogênio, cujos núcleos se fundem resultando em hélio.

O calor faz com que a superfície da cápsula exploda, forçando seu conteúdo a implodir, resultando na fusão do deutério e do trítio, que se unem submetidos a uma pressão e temperatura muito altas. A consequência da fusão é a formação de núcleos de hélio. Como o núcleo de hélio tem menos massa do que os núcleos das duas formas de hidrogênio usadas no processo, a diferença de massa é liberada gerando uma explosão de energia.

Em determinadas condições, os núcleos de hélio podem transferir sua energia para o combustível restante provocando ainda mais fusão. Quando isso acontece, é possível que haja mais energia liberada do que inserida no experimento, condição conhecida como ignição. A conclusão desse processo seria a geração de energia, produzida sem a emissão de gás carbônico e sem efeitos poluentes.

Mas esse processo não é tão simples. No experimento, os pesquisadores usaram 2,1 MJ de energia e conseguiram liberar 2,5 MJ. Energia suficiente apenas para aquecer uma chaleira. Os cálculos se tornam ainda menos otimistas se incluirmos a energia gasta para alimentar os lasers que possibilitam a cadeia de reações (cerca de 500 MJ).

Além disso, as reações de uma possível usina elétrica de fusão nuclear precisa acontecer em uma frequência muito maior do que é possível hoje – aproximadamente dez reações completas por segundo, sem contar o desenvolvimento tecnológico necessário para fazer com que uma fonte de energia desse tipo seja barata e eficiente.

Bilionários empolgados

Apesar do aparente sucesso dos experimentos, uma máxima sobre a fusão é que é uma miragem a anos de distância e sempre será. Sendo assim, uma aposta arriscada até para o capital de risco acostumado a embarcar em ideias que naufragam em pouco ou muito tempo.

Mas ao olhar para os números, há sinal de que os investidores pressentem algo. Altman, da OpenAI, investiu US$ 375 milhões na Helion. Com sede em Everett, Washington, a empresa usa uma tecnologia chamada fusão magneto-inercial e pretende provar que pode produzir eletricidade em um mecanismo que produz mais do que gasta para ser gerada de forma limpa.

Outra startup com caixa abastecido é a Fusion Industry Association, com sede em Washington, que captou mais de US$ 5 bilhões em financiamento privado, com sete empresas levantando pelo menos US$ 200 milhões para acelerar o setor de pesquisa e desenvolvimento.

A Lowercarbon Capital, fundada pelo investidor de risco do Twitter e Uber, Chris Sacca, lançou um fundo focado em investimentos de fusão no ano passado com investidores que incluem doadores, empresas e escritórios familiares.

Cris Sacca: bilionário ganhou fama com apostas pioneiras em empresas como Twitter, Instagram, Uber, Stripe e Kickstarter (Shark Tank/Getty Images)

Os investimentos da Lowercarbon Capital incluem a Avalanche Energy, que fechou uma rodada da Série A de US$ 40 milhões. O CEO da Avalanche Energy, Robin Langtry, disse que a empresa está focada em pequenos sistemas que podem ser construídos e testados rapidamente com equipamentos disponíveis comercialmente.

“Queremos construir o menor reator de fusão do mundo. Então, estamos falando de um projeto que talvez custe dezenas de milhões de dólares, não bilhões, e você pode realizá-lo com uma pequena equipe”, disse ele ao WSJ.

O exemplo da Lowercarbon é um dos poucos que focam em uma forma de gerar rendimentos até agora, já que o setor rodeia os inventos tecnológicos e muita pesquisa científica. E sem receita, não há negócio.

China na corrida até o sol

No encalço do ocidente pelo rentoso brilho dos sóis artificiais, o Experimental Advanced Superconducting Tokamak (East), popularmente conhecido como “sol artificial” da China, estabeleceu um novo marco na semana passada ao rodar estável por 403 segundos.

Segundo a agência de notícias chinesa CGTN, o feito foi alcançado após mais de 120 mil tentativas. Antes, o recorde de operação do "sol artificial" chinês havia sido de 101 segundos, estabelecido em 2017.

O East entrou em operação em 2006, no Instituto de Física de Plasma da Academia Chinesa de Ciências (ASIPP, na sigla em inglês), com a missão de recriar o processo de fusão nuclear que acontece com o Sol.

Para isso, os pesquisadores têm usado substâncias abundantes no mar que fornecem um fluxo constante de energia limpa. Ao longo dos anos, de acordo com a CGTN, o reator tem sido usado como uma plataforma de teste aberta para cientistas chineses e internacionais realizarem experimentos e pesquisas relacionadas à fusão nuclear

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