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Machline: da Sharp aos palcos

Tom Cardoso  Fim da década de 1980. O então jovem diretor de marketing José Maurício Machline, primogênito de Mathias Machline, presidente e fundador da Sharp, na época uma das maiores redes de eletrodomésticos do Brasil, surpreende a todos durante uma reunião do conselho: por que não patrocinar um prêmio de música brasileira, dando, inclusive, o […]

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MARIA GADU, ZECA BALEIRO, IVETE SANGALO, LENINE E MACHLINE: o herdeiro da Sharp criou o maior prêmio da música brasileira / Gilberto Evangelista/ Divulgação

MARIA GADU, ZECA BALEIRO, IVETE SANGALO, LENINE E MACHLINE: o herdeiro da Sharp criou o maior prêmio da música brasileira / Gilberto Evangelista/ Divulgação

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Da Redação

Publicado em 27 de julho de 2016 às, 19h24.

Última atualização em 22 de junho de 2017 às, 18h36.

Tom Cardoso 

Fim da década de 1980. O então jovem diretor de marketing José Maurício Machline, primogênito de Mathias Machline, presidente e fundador da Sharp, na época uma das maiores redes de eletrodomésticos do Brasil, surpreende a todos durante uma reunião do conselho: por que não patrocinar um prêmio de música brasileira, dando, inclusive, o nome da empresa a ele? A ideia foi rechaçada por quase todos os conselheiros (inclusive por Mathias) do grupo Sharp, menos pelo mais influente deles, o banqueiro e economista Mário Henrique Simonsen (1935-1997).

Simonsen enxergou ali uma boa chance de agregar mais valor à marca e convenceu Mathias, um homem voltado exclusivamente ao trabalho, que nunca havia ouvido um disco de música brasileira em casa, a bancar o projeto idealizado pelo filho. Nascia, em 1988, o Prêmio Sharp de Música Brasileira, um dos mais tradicionais e longevos prêmios culturais do país e um dos primeiros a investir em marketing direto.

Machline envolveu-se de uma maneira tão intensa com a criação do prêmio que o diretor de marketing de carreira promissora foi logo engolido pelo inquieto produtor cultural – ele já não estava mais na Sharp quando a empresa enfrentou a maior crise de sua história que a levaria à bancarrota, em 2002.

Antes da falência, que se intensificou após a morte de seu pai, num acidente de helicóptero nos Estados Unidos, em 1994, Machline chegou a assumir a presidência da Sharp, mas ficou apenas alguns meses até vender sua parte para os irmãos. “Eu já estava em outra, envolvido completamente com a atividade de produtor cultural e sabia que qualquer erro como presidente da Sharp ajudaria a acelerar o processo de declínio da empresa”, diz Machline.

Por ironia, o Prêmio da Música Brasileira seguiu numa direção contrária a de seu patrocinador e foi se solidificando ano a ano, beneficiado por um conjunto de acontecimentos, que incluiu desde o fortalecimento do mercado fonográfico do país, um dos maiores do mundo, até o talento de Machline como vendedor. Talento este que Machline aprendeu na própria Sharp.

O pai o obrigou a passar por todas as etapas dentro da empresa até que ele assumisse o cargo de diretor de marketing. Na juventude, Machline tornou-se um fenômeno como vendedor em Guarulhos, sede da matriz da Sharp, oferecendo catálogos de aparelhos de som e de televisão de porta em porta na cidade. “Essa fase na Sharp foi muito importante, pois me deu experiência para atuar em todas as posições do jogo”, diz Machline.

O prêmio ganhou tanto em prestígio, que Machline conseguiu mantê-lo de pé mesmo após a falência da Sharp. Nesses quase 30 anos, o Prêmio da Música Brasileira já foi patrocinado por grandes empresas de diversos setores e expandiu o formato para sobreviver (para a edição deste ano, Machline, que não revela valores, conseguiu apoio do Banco do Brasil).

Atualmente, além da cerimônia, transmitida ao vivo na TV por assinatura no dia 22 de junho, o PMB realiza turnê de shows pelo país, a maioria com medalhões da música popular brasileira. Em cada edição, um grande artista ou um gênero é homenageado. Na turnê 2016, por exemplo, patrocinada pelo Banco do Brasil, Machline escalou um time de figurões da MPB, que inclui nomes como Gal Costa, Ivete Sangalo e Lenine, para se apresentar em cinco capitas: Porto Alegre, Brasília, Goiânia, Salvador e Rio de Janeiro. Todos os shows ocorrem nos CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) das respectivas cidades. Machline tem direito a uma parte do que é arrecadado nas bilheterias e também pode explorar produtos com a marca Prêmio da Música Brasileira. Essas receitas extras ajudam a manter o prêmio de pé mesmo em anos de crise como 2016.

Para quem viu a empresa da família quebrar, Machline também não é de se assustar facilmente. No prêmio, ele chegou a ficar sem patrocínio a três meses do início de uma premiação. A TIM, que bancara o prêmio de 2003 a 2008, e decidira renovar o apoio por mais cinco anos, em 2009, voltou atrás, após uma mudança de gestão. Sem dinheiro nenhum, Machline foi salvo depois de um mutirão feito pelos próprios artistas, iniciado pela atriz Fernanda Montenegro, que se ofereceu para apresentar, de graça, a cerimônia.

“Naquela época, a saída da TIM, em cima da hora, me pareceu o pior momento. Mas, com o passar do tempo, percebi que aquele ano talvez tenha sido o mais importante de todos, porque foi quando eu notei que o prêmio é, de fato, um evento aguardado e respeitado por toda a classe musical”, diz Machline. É um prestígio e tanto para um ex-vendedor de televisores.