Como trabalhar com eSports, um mercado de US$ 1 bilhão

Sonha em trabalhar com games? O crescimento do eSports pode criar novas oportunidades de carreira para jogadores profissionais e amadores
 (Honkytonk/Divulgação)
(Honkytonk/Divulgação)
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Luísa Granato

Publicado em 09/02/2022 às 06:00.

Última atualização em 11/02/2022 às 15:45.

SJ Santos, fundador da Honkytonk

SJ Santos, fundador da Honkytonk (Honkytonk/Divulgação)

Equipes caem de paraquedas em áreas aleatórias do mapa, sem armas e com um mesmo objetivo: eliminar todos os outros até sobrar um time vencedor. De um lado da tela, atletas e seus técnicos traçam estratégias do jogo. Do outro, milhões de espectadores acompanham e torcem por seus times favoritos.

Esse é o cenário que levou 6 milhões de espectadores para a final do campeonato de Free Fire, jogo de celular da empresa de Singapura Garena, organizado pela empresa HonkyTonk em 2021. E essa foi apenas um dos eventos organizados ao longo da pandemia para o jogo de celular que atingiu 1 bilhão de downloads no Google Play Store.

Segundo a Newzoo, principal fonte de dados sobre a indústria de games, o público geral dos campeonatos de eSports saltou de 397,8 milhões para 435,9 milhões de 2019 para 2020.

Até 2024, a empresa prevê que o público alcance a marca de 577,2 milhões. Apenas em 2021, a indústria movimentou mais de 1 bilhão de dólares no mundo.

Com esses números, o lado profissional dos games está longe de ser uma brincadeira de criança - e cada vez mais jovens começam a sonhar em tornar o passatempo em uma carreira e fonte de renda.

Se antes o sonho era se tornar um jogador de futebol, o tradicional mundo do esporte começa a se misturar ao dos esportes eletrônicos. No ano passado, o Free Fire se tornou patrocinador da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). E o Ronaldinho Gaúcho lançou um campeonato com prêmio de R$ 80 mil (e a chance de conhecê-lo).

Sem os astros dos gramados, os torneios têm seu próprio brilho também: no campeonato Free Fire World Series 2021, em Singapura, a equipe Phoenix Force, da Tailândia, além de levar o troféu de primeiro lugar, embolsou o prêmio de 500 mil dólares.

“Ao contrário de ser um astronauta ou um astro de futebol, que depende muito de outras pessoas, para o jogador profissional de eSports não tem uma grande barreira: eu abro a câmera, faço um trabalho bom e começo a criar notoriedade. Facilita se tiver habilidade de se comunicar, pois o caminho é mais simples com acesso ao YouTube, Twitch e outras plataformas”, afirma SJ Santos, jornalista e fundador da empresa Honkytonk.

Com eventos presenciais cancelados na pandemia, a força das lives que impulsionou a audiência dos eSports também salvou a empresa de Santos.

Após trabalhar na área por 20 anos, ele se tornou empreendedor e criou a Honkytonk em 2019 para auxiliar companhias estrangeiras de games a montarem suas operações e equipes no Brasil. Para alcançar o público, eles fechavam parcerias de patrocínio para arenas presenciais de jogos.

“Foi um sucesso. Quando fizemos a Arena Extra powered by Google, tinha uma área dentro do supermercado com patrocínio das duas empresas e todo final de semana entrava um jogo diferente”, diz.

Com as restrições da pandemia, os projetos patrocinados foram suspensos. Quando tudo parecia perdido, eles mudaram de rota e resolveram criar do zero um novo campeonato de Free Fire com tudo online.

Mesmo com a retomada, Santos vê um grande potencial para os eSports no Brasil. Segundo ele, a criação de jogos como o Free Fire mudou totalmente o cenário de games, diminuindo o custo para começar a jogar e para competir.

Diferente de jogos criados para console, como o Playstation, ou que pedem por um computador mais potente, o jogo da Garena é acessível para qualquer um com celular e acesso à internet.

“Com a explosão do jogo, você começa a ver jogadores e influenciadores se destacarem em um mercado concorrido, e aí entram patrocinadores e o dinheiro segue. Vemos garotos e garotas de comunidade que em seis meses compraram uma Porsche”, diz SJ.

Nos principais mercados de jogos, a China e os Estados Unidos, há mais tempo jogos famosos como o League of Legends, lançado em 2009, ou Overwatch, de 2016, tornaram competições em grandes negócios e criaram profissões em torno deles.

O Brasil, que antes era apenas consumidor e espectador dos eventos, agora começa a dar passos para amadurecer como indústria.

As carreiras em alta do eSports

Para os adultos que cresceram amando os jogos, assim como SJ, as possibilidades de trabalhar na indústria começam a se multiplicar.

Para cada grupo de atletas, é necessário criar uma equipe técnica com treinador, gerente, fisioterapeuta, assessores e até contadores. Tudo para administrar um fluxo de eventos, patrocinadores e publicidade cada vez maiores.

“Muitos dos atletas começam jovens, com 10 anos, e atingem seu auge com 17 ou 18 anos. No entanto, esse setor não é limitado ao atleta. Muita gente está envolvida na organização de eventos, de onde sai muito do faturamento”, diz Carol Olival, diretora de Community Outreach da Full Sail University.

A universidade dos Estados Unidos é especializada em cursos voltados para a indústria criativa, desde uma graduação em design de games até cursos de especialização como narrador de competições de eSports.

“Existe uma maior quantidade de jogadores, mas faltam profissionais em outras áreas. Mesmo sem uma formação específica, um profissional de marketing com uma paixão pelo jogo pode contribuir muito para a área e fazer uma transição”, afirma.

Com as novas normas da Base Nacional Comum Curricular, a universidade desenvolveu um programa de carreiras criativas voltado para o novo Ensino Médio com 11 escolas de São Paulo, buscando desenvolver o interesse por profissões da economia digital em artes, design, comunicação, cinema e games.

“Vemos um potencial muito maior de vagas no setor. E vamos ter problemas para encontrar profissionais o suficiente para abastecer o mercado. Muitos aprendem na raça, os locutores, por exemplos, aprendem fazendo streaming ou são os próprios organizadores do torneio. Com campeonatos maiores, vai aumentar a demanda por locutores que consigam manter o engajamento do público e a audiência”, explica.

Alguns dos times mais famosos no Brasil têm vagas abertas. No LinkedIn, as equipes brasileiras publicam anúncios de oportunidades. No momento, o paiN Gaming procura por diretor comercial e atendimento de contas pleno; e a LOUD e a Black Dragons buscam por gerente de eSports.

Os times estão presentes na rede social profissional com vagas para áreas de marketing, finanças, comunicação e administrativo, entre outras.

Olival aponta que, para os profissionais nas áreas mais administrativas dos times e de apoio, uma formação normal no ensino superior ainda é uma exigência. Depois, ter experiência de trabalho (que pode ser fora da área de games) e conhecimento da indústria é importante. Por último e muito importante, é um pré-requisito ser apaixonado por games.

Algumas das profissões “tradicionais” em alta são:

  • Administradores
  • Contadores
  • Psicólogo
  • Preparador Físico
  • Social Media
  • Assessoria de Imprensa

Como trabalhar jogando

“O time é uma empresa, os atletas e técnicos são elementos principais. Se não vão bem, a empresa vai mal. E é necessário ter muitos talentos além dos atletas. O tamanho dessa equipe também vai depender do tamanho do sucesso e vitórias dos jogadores”, explica SJ.

Confira algumas das carreiras de destaque nas competições:

Atleta

Para que qualquer esporte aconteça, é necessário ter times com craques no jogo. No eSports, o perfil de atleta se mistura ao de influenciador digital e criador de conteúdo. Mas, se o objetivo é se profissionalizar, SJ Santos fala que existem alguns passos para passar de um jogador casual a um atleta de eSports.

Para qualquer tipo de game, o primeiro passo é começar a jogar competitivamente online e em servidores ranqueados oficiais. “Você vai subindo de patente, como no exército, e ficando bom. Você precisa ficar no servidor oficial do jogo, assim se garante que não usou nenhuma trapaça”, explica SJ.

Geralmente, os profissionais mantêm uma rotina de horas de jogo diariamente e com objetivos claros para melhorar seu ranking. É possível fazer melhorar sozinho ou já começar a procurar parceiros para jogar em equipe para começar a entrar em campeonatos amadores.

“Equipes estão de olho nos próximos talentos, a forma de se apresentar ao mercado é jogando com patente alta e ganhando notoriedade em campeonatos”, diz.

Também é possível se especializar em estilos de personagens, como um curandeiro, ou em posições, no estilo de times de futebol que têm goleiros e atacantes.

Assim como atletas do skate, manter sua presença nas redes sociais e ter vídeos compilando seus melhores momentos e jogadas ajuda a ganhar espaço na indústria.

Gerente de eSports

Esse é o principal profissional da equipe de apoio. Ele vai gerenciar e prepara todos que trabalham com o time, como falar com o psicólogo, trazer os objetivos, determinar o calendário de campeonatos e partidas.Junto com o técnico, ele também faz a seleção de novos talentos para jogar.

Com essas funções múltiplas, esse profissional deve ter habilidades de comunicação e negociação. Normalmente, é uma pessoa com experiência em gestão de pessoas e negócios.

Gerente de Equipes

Uma equipe pode ter diversos times especializados em jogos diferentes. Cada time pode ter um gerente, o que vai depender do nível de estrutura e complexidade da empresa. Ele vai traçar o objetivo individual do time pelo qual é responsável, ele viaja junto dos atletas e cuida da parte mais operacional nos torneios.

Por ser mais próximo dos jogadores, esse cargo pode ser assumido por um ex-atleta que se aposentou. Ele ainda precisa ter habilidades de gestão, mas tem um escopo de trabalho no dia a dia do time.

Técnico

“Achar um bom técnico é como encontrar uma agulha no palheiro”, diz SJ. Essa figura vai estar junto do time nos treinamentos e nas competições, sempre acompanhando a estratégia para garantir a vitória.

A pessoa precisa ter um conhecimento profundo sobre o jogo, entender as capacidades da equipe e saber avaliar os adversários. Com a profissionalização da indústria no Brasil, o fundador da Honkytonk acredita que um perfil mais analítico e voltado para dados das partidas e times deve se destacar no futuro.

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