Rogério Chér: "A forma como um líder reage nos dias de crise costuma chamar mais atenção, mas é a rotina — feita de decisões, conversas e preparação — que determina como ele chega a esses momentos" (Thinkstock)
Publicado em 2 de outubro de 2026 às 11h28.
Faça um teste rápido. Tente lembrar o que você fez numa terça-feira qualquer de março do ano passado. Difícil, não é? Agora lembre do dia em que o maior cliente ameaçou cancelar o contrato, do dia da demissão em massa ou daquela reunião em que tudo deu errado. Aposto que você lembra da sala, de quem estava lá e até da roupa que vestia.
Nosso cérebro funciona assim. A emoção marca a memória como um marca-texto, e a rotina passa sem deixar rastro. Lembramos do dia da crise, e a terça-feira comum vira um borrão.
Até aqui, nada de novo. O problema começa quando essa lógica da memória passa a comandar a nossa carreira.
Há décadas trabalhando com executivos, vi muita gente talentosa ficar viciada em crise. São profissionais que só se sentem úteis quando algo está pegando fogo. Chegam cedo, saem tarde, resolvem o impossível e, no fim do dia, sentem que fizeram diferença.
E fizeram mesmo. O problema é que a empresa também lembra só da crise. Quem apagou o incêndio vira herói. Quem passou o ano evitando que ele começasse continua invisível.
Com o tempo, isso cria um incentivo perverso. Se o reconhecimento vem do drama, o drama passa a ser útil. Já conheci gestores que, sem perceber, deixavam o problema crescer só para poder salvá-lo depois. Ninguém faz isso de propósito. A gente simplesmente aprende o que é recompensado.
Aqui está a verdade pouco glamorosa: carreiras não são construídas nos dias memoráveis. São construídas nas terças-feiras.
É na terça comum que você lê aquele artigo, pede um feedback sincero, toma um café com alguém de outra área ou revisa com calma um processo que ninguém pediu para revisar. Nada disso rende história para contar no jantar. Mas tudo isso se acumula, como juros compostos.
A crise mostra quem você é, mas a terça-feira decide quem você vai ser.
Acredito que as pessoas crescem em ambientes de alta exigência. Não defendo vida fácil. O problema nunca foi a demanda, mas a demanda sem recuperação.
Atleta de alto rendimento sabe disso há muito tempo. O músculo não cresce durante o treino, mas no descanso que vem depois. Executivo que vive de crise em crise não descansa, só troca de incêndio. E aos poucos perde exatamente o que o tornava bom: clareza, paciência e capacidade de enxergar o todo.
A terça-feira tranquila não é perda de tempo. É o momento de recuperação que permite aguentar a próxima tempestade.
Se tivesse que resumir a diferença em uma frase, seria esta: o mau líder precisa da crise para se sentir relevante, e o bom líder trabalha para que ela não seja necessária.
O mau líder fabrica urgência. Tudo é para ontem, cada e-mail vem com ponto de exclamação, cada reunião parece uma emergência. A equipe vive em alerta, cansada e com medo de errar. Quando a crise de verdade chega, ninguém tem energia sobrando.
O bom líder faz o contrário. Ele cuida das terças-feiras. Cria rotinas que funcionam, conversa antes de o problema virar conflito e deixa a equipe pensar com calma. Seu melhor trabalho muitas vezes é invisível, porque consiste justamente na crise que não aconteceu.
Mas tem um detalhe importante. Mesmo o melhor líder vai enfrentar dias difíceis. E é desses dias que a equipe vai se lembrar para sempre.
Ninguém lembra do que você disse na reunião de alinhamento de uma terça qualquer. Mas todo mundo lembra se, no dia em que o projeto afundou, você procurou culpados ou assumiu a responsabilidade. Se protegeu o time ou se protegeu a si mesmo. Se perdeu o controle ou foi a pessoa calma da sala.
Ou seja, a crise é a prova, e a terça-feira é o treino. O líder que cuidou bem das terças chega ao dia difícil com confiança acumulada, relações sólidas e cabeça no lugar. O que viveu só de adrenalina chega esgotado e reage no impulso. E a impressão que fica é justamente a desse dia.
Deixo algumas perguntas que costumo fazer aos executivos com quem trabalho:
No fim, a ironia é esta: a gente lembra do dia da crise, mas é a soma das terças-feiras esquecidas que define como vamos atravessá-lo.
Cuide bem das suas terças: elas não vão virar grande história, mas ajudarão a escrever a sua história.