“Maioria das organizações não se importa com saúde mental”, diz economista

Em entrevista à EXAME, Jeffrey Pfeffer, da Universidade de Stanford, destaca que o estresse aumentou na pandemia e que o bem-estar não pode ficar para trás

Com quase meio ano de quarentena, ficou claro que trabalhar de casa é… trabalhar. Não precisar ir ao escritório pode ser uma vantagem, mas, a depender das condições do seu home office e da cultura da sua empresa, o teletrabalho também pode ameaçar a sua saúde mental.

Manter-se saudável é bom para você – mas é ainda melhor para as empresas e para a economia. É esta uma das conclusões de Jeffrey Pfeffer, professor de comportamento organizacional na Universidade de Stanford e autor do livro Morrendo por um salário.

Em entrevista à EXAME, Pfeffer falou sobre o aumento do estresse no contexto da pandemia, e dos riscos da má gestão da saúde corporativa.

e. Antes da pandemia, víamos uma tendência de aumento do estresse. Como a quarentena tem afetado a saúde mental dos trabalhadores?

Pesquisas recentes confirmam o que o senso comum já nos diz: estamos mais estressados. Uma pesquisa feita pela healthtech de saúde mental Ginger mostrou que, mesmo antes da covid-19, os níveis de estresse da população já estavam altos. Após a pandemia, 96% dos respondentes da pesquisa disseram que o coronavírus estava aumentando ainda mais o estresse. O vírus causa mais estresse do que o 11 de setembro ou a grande recessão.

e. Como você enxerga o impacto do home office na saúde mental? É melhor ou pior para o trabalhador?

Não existe uma resposta única, depende muito das instalações de cada um. Trabalhar de casa quando se tem crianças que não podem ir à escola é diferente de trabalhar de casa sem a presença de crianças. Também depende de quanto espaço você tem, de quantas outras pessoas trabalham de casa ao mesmo tempo etc. No entanto, sabemos que o distanciamento social é ruim para a saúde física e mental – mais cedo ou mais tarde, seria melhor que as pessoas voltassem à convivência normal.

e. Algumas pessoas, por não serem vistas no escritório, acabam se sentindo impelidas a produzir mais.

Diversas companhias instalaram softwares de monitoramento para controlar o que o trabalhador está digitando, as páginas que visita e até mesmo seus movimentos oculares. Este nível de monitoramento constante é muito estressante.

e. Em seu livro Morrendo por um salário, você fala sobre situações de violência no trabalho, seja contra colegas ou até suicídio. No Brasil, vimos um aumento nos casos de violência doméstica. Você acredita que o teletrabalho pode influenciar nosso comportamento em casa?

Estamos em uma corrida de rato. As evidências são claras quando o tema é o efeito do salário, entre outras coisas, no tempo em que uma pessoa trabalha. Há pressão para fazer mais. Além disso, temos a cultura machista sobre quanto podemos produzir e por quanto tempo podemos trabalhar. Horas de trabalho são vistas como um sinal de comprometimento e lealdade pelas companhias, mesmo que as pessoas coloquem sua saúde em risco durante longas horas. A maioria das organizações não se importa com isso.

e. Quando falamos sobre as relações entre estresse e trabalho, existe uma ideia de que o estresse, de certa forma, é natural em situações profissionais. Até que ponto isso é aceitável?

Estresse não é “natural”. O estresse custa. Para além dos efeitos de absenteísmo e turnover, o estresse casua doenças como câncer, diabetes e problemas no coração. O estresse não é inevitável, nem pode ser considerado algo bom para ninguém, em nenhum cargo. Ele leva ao burnout.

e. Seu livro também menciona a tendência da economia “gig”, baseada no trabalho como freelancer. A era pós-pandemia irá acelerar esta tendência? Quais são os possíveis impactos disso na saúde mental?

A economia “gig” aumenta a instabilidade à medida que o trabalhador não tem segurança sobre quanto irá trabalhar ou o quanto irá ganhar. É difícil dizer o que o vírus pode fazer com a economia “gig”, que, de qualquer forma, estava em ascensão. Nos EUA, onde tudo – de seguro-saúde a benefícios ao desempregado – depende de ter um trabalho regular, o trabalho como freelancer é ruim para as pessoas.

e. Qual o papel das empresas no bem-estar dos funcionários?

Sabemos que o estresse gera doenças e vem, em boa parte, do trabalho. Com o aumento dos custos de saúde no mundo todo, estamos em um caminho realmente insustentável – é economicamente inviável manter as pessoas infelizes no trabalho.

Melhorar a vida dos empregados requer o entendimento de que a produtividade deles vai cair na pandemia. É preciso prover as ferramentas necessárias para que eles possam cumprir seus trabalhos remotamente e, mais importante, prover o suporte para que continuem saudáveis – o que inclui a saúde mental.

Obrigado por ler a EXAME! Que tal se tornar assinante?

Tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo de seu dia. Em poucos minutos, você cria sua conta e continua lendo esta matéria. Vamos lá?

Falta pouco para você liberar seu acesso.

exame digital

R$ 15,90/mês

  • Acesse onde e quando quiser.

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

exame digital + impressa

R$ 44,90/mês

  • Acesse onde e quando quiser

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

  • Edição impressa quinzenal.

  • Frete grátis

Já é assinante? Entre aqui.

Apoie a Exame, por favor desabilite seu Adblock.