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“Emprego é o canal para realizar o seu trabalho como ser humano”, diz ex-CEO da Bayer e Roche

A brasileira Lara Bezerra foi a primeira mulher presidente executiva do Grupo Bayer na América Latina (Venezuela) e ex-CEO da Roche Pharma na Índia; em entrevista à EXAME, ela traz conselhos sobre como alcançar altos cargos internacionais e como encontrar o propósito por meio de sua carreira

Lara Bezerra, executiva brasileira e fundadora da “Workcoherence”: “O que te dá muita raiva e você briga muito, provavelmente é algo que você acredita e muitas vezes está ali o seu propósito” (Lara Bezerra /Divulgação)

Lara Bezerra, executiva brasileira e fundadora da “Workcoherence”: “O que te dá muita raiva e você briga muito, provavelmente é algo que você acredita e muitas vezes está ali o seu propósito” (Lara Bezerra /Divulgação)

Publicado em 29 de junho de 2024 às 08h10.

Última atualização em 1 de julho de 2024 às 10h24.

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“O seu emprego pode ser o canal para realizar o seu trabalho como ser humano. Quando você encontra essa coerência na sua vida, você consegue ser mais produtivo, prestativo, efetivo e tomar decisões muito mais coerentes” – esse é um dos conselhos de Lara Bezerra, primeira mulher nomeada presidente executiva do Grupo Bayer na América Latina (Venezuela) e ex- CEO da Roche Pharma na Índia.

Filha da japonesa Masa Tsuji Bezerra, e do brasileiro João Batista Gomes Bezerra, Lara Yumi Tsuji Bezerra nasceu e foi criada na capital paulista. Com os pais médicos, as histórias sobre pacientes e desafios da área saúde sempre estavam presentes no dia a dia de Lara, seja no jantar ou até em eventos, como o Natal, em que a árvore ficava cheia de presentes dos pacientes.

Além do amor pela vida, Lara aprendeu com os pais a olhar o emprego de forma diferente. Enquanto seu pai era louco pelo trabalho, para a mãe da executiva, trabalho era uma maneira de buscar e encontrar a felicidade e o seu propósito.

“De um lado meu pai sempre dizia que o que eu fizesse, eu teria que ser a melhor; enquanto minha mãe, com uma visão mais oriental, falava que eu tinha que escolher uma carreira que me fizesse feliz e que fizesse o bem. Então, existia essa dicotomia dentro de casa, de que eu teria que ser a melhor sem deixar de ser feliz”, diz Bezerra.

O desafio de escolher a carreira 

O amor que ela via dos seus pais pela profissão, fez com que Lara fizesse cursinho para também tentar uma vaga em medicina, mas na hora de fazer o vestibular, ela acabou escolhendo estudar Administração na FGV. A primeira oportunidade de emprego chegou como trainee na Johnson & Johnson, e foi com essa experiência que começou a história da executiva na indústria farmacêutica.

“De alguma forma, eu queria ter a vocação dos meus pais de ajudar a população na área da saúde. E quando eu entrei na área da indústria farmacêutica eu senti os dois lados que meus pais sempre diziam. De um lado, eu poderia ajudar as pessoas, mas tinha aquele outro lado de ser a melhor, de crescer e ser promovida em negócios, área que eu escolhi”.

Como chegar ao topo?

Várias vezes Lara foi a primeira mulher em altas posições. E para ganhar a confiança dos funcionários e líderes, maioria homens, ela tentava fazer um ambiente confortável para eles a aceitarem.

“Ao mesmo tempo mostrava para eles como o trabalho poderia ser diferente e melhor. E era simples. Eu ajudava a resolver problemas e mostrava pontos de vistas diferentes.”

Após muitas reflexões sobre o que a ajudou a alcançar o topo várias vezes, mesmo sendo mulher, Lara chegou à seguinte conclusão: “Nunca me vi como uma mulher”.

O foco de Lara não era em seu gênero, ela sempre focou no seu potencial, ela queria ser a melhor, fazer o bem e estar feliz. “Para mim, estar feliz no trabalho era poder ajudar as pessoas. Era ajudando outros departamentos que eu aprendia algo novo”, afirma. “Posso dizer que a minha carreira foi se expandindo graças a minha experiência em estar em projetos diferentes e ajudar outras áreas, porque assim me convidaram para novas oportunidades.”

Foi assim que Lara saiu de marketing para administração de vendas, depois foi para controle, depois logística. “Fui passando de área em área. De repente quando vi, eu tinha um escopo de experiência que era o que precisava para ser a presidente da companhia.”

A disponibilidade da mulher e seus diferentes papéis  

Como gerente de produto da Bayer, em 1997, Lara fez um trabalho junto com a área de logística para ajudar na distribuição dos produtos para os médicos. Um executivo da Alemanha gostou do projeto e a convidou para implementar na Europa. Da Alemanha, Lara foi para Portugal e passou por outros países da Europa. “Eu sempre falava que eu queria estar onde eu poderia ajudar”.

Essa disponibilidade de sempre estar disponível para o trabalho impactou na área pessoal de Lara – principalmente na formação de uma família. “Sempre falo para mulheres que temos que saber balancear muito bem carreira e vida pessoal. Eu foquei muito na minha carreira, saí do Brasil namorando, casei com um brasileiro, e vivemos juntos na Europa, mas ele quis voltar e eu fiquei na Hungria. Pensamos várias vezes se era o momento para ter filhos, mas o tempo passou”.

Um novo convite da Bayer apareceu para Lara ser vice-presidente de comercial da América Latina no México. Lá encontrou um ex-namorado e acabou se casando novamente, mas já não era mais possível realizar o sonho de engravidar.

“Eu sempre falei para as mulheres que trabalharam comigo, ter filho é uma coisa que você não tem que pensar muito. Você casa e sabe que você quer ser mãe. Se quiser, é bom tentar logo, porque hoje em dia o relógio biológico da mulher é muito mais acelerado”, diz. “Aconteceu comigo, eu fiz três in vitro e eu não consegui engravidar”.

Do México, o próximo destino de Lara foi a Venezuela, ainda pela Bayer. Lá ela visitou uma instituição e encontrou três crianças venezuelanas, que eram irmãos, os quais ela adotou e formou a família que tanto queria. “O Marco tinha oito anos, a Sarah tinha seis e a Lili tinha cinco, então, eu acabei virando uma mãe de um menino de oito anos com 43 anos”, lembra a executiva.

Uma das lições que Lara aprendeu ao ser mãe é que quando queremos algo, conseguimos balancear. “Eu encontrei o balanço em um momento desafiador da minha vida. Eu virei mãe de três filhos numa empresa nova, e em uma Venezuela pós morte de Chaves, fase em que começou os desafios da Venezuela.”

Para Lara, é possível fazer tudo, desde que tenha uma mentalidade do que você quer ser de cada parte. “Eu quis ser uma boa mãe, e eu não queria ser a mãe melhor do mundo e nunca me cobrei muito de não estar toda hora com eles. Eu também queria ser uma super boa presidente da empresa onde eu focava nas pessoas e dava resultado. Eu não tinha aquela pressão que normalmente muitas tem em ser uma mãe perfeita, uma esposa perfeita, e uma profissional perfeita.”

O maior desafio e a maior oportunidade 

Desenvolver a espiritualidade e querer fazer o bem, ao mesmo tempo que tem que trabalhar em uma companhia que precisa dar lucro foi o maior desafio da carreira da executiva internacional. “Encontrar o balanço de você querer ser um bom ser humano ao mesmo tempo que tem que ser um bom profissional foi o meu maior desafio”.

Sobre a oportunidade que mudou a sua vida, Lara lembra das pessoas que acreditaram nela, quando ela mesma não acreditava em seu potencial. “Eu tive pessoas que acreditavam em mim e isso fortaleceu a crença em mim mesma, eu me sentia em dívida com essa pessoa, e pensava que eu devia a ela o meu melhor. Não importa o que aconteça eu vou fazer o meu melhor”.

Os desafios e as oportunidades de Lara chegaram porque ela decidiu falar o que ela queria com profissional.

“É muito importante saber expressar o que quer no ambiente de trabalho. Por exemplo, quando em uma entrevista interna ou externa me perguntavam em qual país eu gostaria de trabalhar, eu falava que eu queria ir para algum lugar onde eu poderia ajudar muitas pessoas e poderia adicionar valor”, diz. “Quando você é muito aberta e flexível para servir é mais fácil para os líderes encontrarem posições e te darem oportunidades. Essa flexibilidade me ajudou muito em minha carreira”.

O que é preciso ter para conquistar uma carreira internacional?

Lara foi executiva internacional e CEO durante 27 anos em sete países de três continentes, e hoje vive nos EUA como empresária da "Workcoherence”, uma empresa de consultoria, mentoria e coaching com a missão de criar mais pessoas que lideram com propósito.

Entre os principais conselhos que a mentora destaca para quem busca ter uma carreira internacional, estão:

  • Aprenda idiomas: Além do inglês, ter conhecimento em outros idiomas, especialmente o espanhol, é crucial. Dominar múltiplos idiomas aumenta as oportunidades de trabalho em diversos países.
  • Busque oportunidades em multinacionais: Trabalhar em uma empresa multinacional facilita a transferência para outros países. É importante construir uma rede de contatos (networking) e se oferecer para participar de projetos internacionais. Isso demonstra flexibilidade e disposição para aprender rapidamente.
  • Tenha uma mentalidade aberta: Ter uma mentalidade aberta é essencial para se adaptar a diferentes culturas. É importante apreciar e respeitar outras culturas e pontos de vista. Ser patriota é importante, mas a abertura para novas experiências culturais facilita a integração em ambientes internacionais.
  • Conheça o estilo de liderança local e o seu: Tenha uma clara compreensão de suas próprias características e estilo de liderança. Isso ajuda a se comunicar efetivamente com colegas de diferentes culturas e a adaptar seu estilo de liderança conforme necessário.
  • Seja proativo: É importante ser proativo em buscar oportunidades internacionais dentro da empresa. Mostrar interesse em transferências e em projetos globais pode abrir portas para uma carreira internacional.

Quando Lara chegava na direção de uma companhia, ela comenta que fazia três perguntas:

  • Quais são as características do líder ideal que você gostaria de ter?
  • O que vocês estão fazendo muito bem, que vocês têm muito orgulho e que vocês gostariam que eu ajudasse a continuar?
  • O que vocês acham que eu deveria focar para ajudar vocês a mudar ou fazer melhor porque não está funcionando?

“Essas três perguntinhas eu sempre fazia para os meus diretores e para o meu grupo de liderança. Assim eu já sabia como eles pensavam, suas necessidades e que tipo de líder eles gostariam de ter”, diz a executiva que irá participar como mentora do programa Salto Alto.

Como encontrar o seu propósito?

Para a executiva que já ajudou mais de 180 executivos a encontrar o seu propósito, essa palavra que parece subjetiva diz mais sobre autoconhecimento do que imaginamos e portanto, é algo que pode ser mudado, já que passa por evoluções naturais.

“Para mim o propósito é você sair dessa vida um ser humano melhor do que você entrou. Então, o teu propósito é encontrar o que vai fazer você crescer como ser humano durante a jornada e as experiências que você tem na sua vida”, diz. “O meu propósito antes era, sim, ajudar as pessoas a encontrar o propósito. Hoje, o meu propósito é elevar a consciência da humanidade.”

E uma das formas de encontrar o seu propósito é quando você sente raiva de algo. “O que te dá muita raiva e você briga muito, provavelmente é algo que você acredita e muitas vezes está ali o seu propósito”.

O trabalho de Lara na Roche Pharma Índia foi um estudo de caso bem-sucedido sobre a integração do propósito nos negócios no livro "Rehumanizing Leadership: Devolvendo o Propósito aos Negócios" de Sudhanshu Palsule e Michael Chavez, CEO da Duke Corporate Education. Além disso, a Prof. Danah Zohar dedicou um capítulo ao trabalho de Lara no seu livro "Zero Distance." Outros livros sobre ela seguem sendo publicados.

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