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Como estimular jovens talentos como Rayssa, a 'Fadinha' do skate

Rayssa Leal, skatista medalhista nas Olimpíadas de Tóquio, traz à tona o debate de como aproveitar o potencial de crianças e adolescentes

Rayssa Leal Rayssa Leal: skatista é a medalhista mais jovem do Brasil

Rayssa Leal: skatista é a medalhista mais jovem do Brasil (Ezra Shaw/Getty Images)

Há quase cem anos uma medalha não era entregue a um atleta tão jovem nas Olimpíadas. O desempenho de Rayssa Leal na final feminina de skate street, em Tóquio, rendeu à brasileira de 13 anos a premiação de prata na modalidade.

Antes dela, a outra atleta mais jovem a subir em um podium tinha sido a dinamarquesa Inge Sorensen no nado de peito em 1936 em Berlim.

A idade, o desempenho e o carisma da skatista maranhense têm rendido uma enxurrada de elogios de brasileiros nas redes sociais. Rayssa ficou conhecida quando tinha apenas sete anos e um vídeo em que fazia manobras vestida de fada viralizou. 

De lá para cá ela treinou e foi parar em Tóquio, cidade sede das Olimpíadas, que são as primeiras em que o skate está entre as modalidades concorrentes, assim como o surfe.

Rayssa é também a medalhista mais jovem do Brasil, o que levanta algumas questões. De que forma a escola, a família e as políticas públicas podem impulsionar os talentos de crianças e adolescentes?

Mesmo com igualdade de oportunidades em níveis diferentes pelo país, especialistas ouvidos pela Exame defendem que o desenvolvimento dos talentos está ligado à chance de experimentar e ao contato com diversidade.  

Ambiente de estímulos

Nos seus mais de 30 anos de atividade, a Fundação Estudar tem como uma das principais frentes garimpar talentos no Brasil e estimular sua educação. 

Para Anamaíra Spaggiari, diretora executiva da fundação, é possível identificar pontos em comum na história de quem se destaca e tem habilidades fora da curva.

“Quando conversamos com os pais de bolsistas vemos que independentemente da família ser de baixa ou alta renda, o estímulo foi crucial na infância. Essas pessoas desenvolveram uma autoconfiança desde muito cedo. E uma autoconfiança porque elas tiveram suporte da família, elas tiveram um apoio de uma rede, de gente que acreditou nelas”, afirma.

Apesar de um ambiente familiar estruturado fazer diferença, isso não é regra. O mais comum entre os bolsistas da Fundação é uma figura de referência. Isso, sim, é fundamental, de acordo com a diretora.

“A referência vai se dar na escola, com o professor, vai se dar com um amigo, vai se dar com os pais ou com a avó. Não importa com quem, mas existe uma referência. Tem a questão de passar o valor do conhecimento, da disciplina e da educação e de gastar o tempo com qualidade”, diz Anamaíra.

A perspectiva também é compartilhada pela psicóloga Desirée Cassado, da The School Of Life.

“Crianças talentosas são sementes que vão desenvolver aptidões ao serem expostas ao ambiente certo. A gente pode ter muitas Rayssas por aí e outras que nunca vão poder tocar em um skate. Para desenvolver aptidões, a gente precisa de oportunidades, dadas pelo contexto. O mais importante é ter o contexto social, cultural e familiar que possibilite às crianças experimentarem alguma habilidade e testem a viabilidade dela”, diz Desirée.

Os estímulos e o contato com diversas experiências são o que vão garantir o tão valioso autoconhecimento, habilidade socioemocional que tem figurado entre as mais valorizadas no mercado de trabalho - e que não deixa de ser crucial no esporte ou nas artes.

“Nós não nascemos com algo dentro de nós que precisa ser descoberto. O autoconhecimento é mais sobre construir uma relação com as coisas que estão ao nosso redor. Para desenvolver um adulto que tenha resiliência e que se conheça, a criança e o adolescente precisam ter oportunidade de construir sua relação com as coisas. O autoconhecimento é experiência. Então, as crianças precisam ser expostas a diversos tipos de estímulos para eles entenderem o que faz sentido para eles”, explica a psicóloga da The School of Life.

A CEO da consultoria Eureca, que conecta jovens e o mercado de trabalho, Carolina Utimura, lembra que esse ambiente precisa ter segurança psicológica. Só assim os talentos podem se desenvolver na infância e adolescência. 

“Ela precisa estar confortável em ser autêntica. Não estar em contexto punitivo. Tem que ser permitido errar”, diz Carolina. “Um ponto em comum divulgado pelo Google, por exemplo, sobre suas equipes que performam bem é que elas têm sempre em comum a segurança psicológica”.

Atividades extracurriculares

Quando se fala em ambientes de estímulos, é importante entender a educação de crianças e adolescentes como algo “extra sala de aula”. Essa é a visão da diretora-executiva da Fundação Estudar.

“Sem ter colocado a mão na massa, sem uma atividade extracurricular e se o estudante ficou muito tempo só em sala de aula é bem mais provável que ele vai ter dificuldade para escolher a profissão. É importante não subestimar a sala de aula, mas não superestimar a sala de aula a ponto de achar que ela é suficiente”, aponta Anamaíra.

A diretora também critica a necessidade de se colocar um adolescente diante da uma escolha de profissão aos 17 anos, quando termina o Ensino Médio, e que fica piorada conforme ele tem menos contato com experiências reais. 

“Na adolescência eu acho que é o momento de você somar ao seu sonho o conhecimento da realidade que está ao seu redor. Entender o que é viável, o que não é, e como que se materializa isso através das profissões", diz.

Apesar de muitos se frustrarem com a graduação que escolheram, Anamaíra vê uma flexibilidade que o mercado de trabalho alcançou facilita a empregabilidade desses jovens.

Grandes empresas como Ambev e Google, por exemplo, costumam anunciar programas de estágio e trainee abertos para todas as graduações.

“Já não importa muito mais no que elas se formaram se elas tem um modelo mental que é procurado e algumas habilidades técnicas e comportamentos de referência que podem ser replicados em outros contextos”. 

Dentro do mundo do esporte, a ex-atleta Adriana Samuel, hoje gestora de patrocínio esportivo e responsável por 22 estrelas das Olimpíadas e Paraolimpíadas que formam o Time Petrobras, destaca a necessidade de políticas públicas que incentivem a prática esportiva em escolas de todo o Brasil. Para ter mais qualidade, é necessário focar em quantidade também.

“Não se deve tentar acelerar o processo de formação de um jovem talento, mas gerar oportunidade para que as pessoas possam praticar atividade física, depois um esporte e depois uma modalidade olímpica. O grande problema do Brasil é que temos uma quantidade muito pequena de atletas de alta performance em relação ao tamanho da nossa população”, diz Adriana. 

Prática importa mais que talento

Nos critérios da Fundação Estudar, potencial e talento significam principalmente a capacidade de a pessoa gerar resultados, levando em conta o nível de oportunidades que teve. 

A Fundação costuma olhar para a capacidade de execução da pessoa, o quanto ela consegue entregar, implementar e o quanto ela tem de energia pra isso acontecer. 

Outros pontos que fazem parte da definição de altos talentos da organização também são: a capacidade de entender um problema complexo, a capacidade analítica e a capacidade de aprendizagem.

Anamaíra Spaggiari explica que a prática é a que faz a diferença no sucesso, mas que qualquer tipo de treino precisam de uma motivação muito forte. E essa motivação tem um limite muito mais curto se não houver um interesse genuíno.

Assim como diretora da Fundação Estudar, a psicóloga Desirée Cassado destaca a importância da prática e do treino ao longo da vida do que uma suposta predisposição quando se fala de talentos.

“É preciso desconstruir um pouco o conceito de talento como algo feito com menos esforço. É claro que algumas pessoas têm habilidades esportivas, intelectuais. Existem diversos tipos de inteligência. Mas isso não diz nada sobre conseguir uma medalha. O que vai levar até o podium são as habilidades que ela desenvolveu ao longo da vida. O Michael Phelps, por exemplo, tem uma envergadura enorme que propicia ele ganhar na natação, mas ele não seria o Michael Phelps se ele não tivesse sido colocado na piscina, e tivesse a habilidade de perder, de continuar, assim como a Rayssa. No vídeo em que ela está vestida de fada, o mais interessante é o quanto ela cai, se esborracha no chão”, comenta.

Outros jovens têm se destacado nestas Olímpiadas. Na noite desta segunda-feira, a nadadora norte-americana Lydia Jacoby, de 17 anos, venceu os 100 metros de natação e levou o ouro. A skatista que levou o ouro na competição em que Rayssa ficou com a prata foi a japonesa Momiji Nishiya, também com treze anos.

Os próximos voos da fadinha

Com uma medalha aos 13 anos e uma longa carreira pela frente, o que mais a Rayssa Leal pode conquistar? 

Segundo Marcelo Nobrega, executivo de Recursos Humanos e investidor de HR Techs, esse é um dilema que muitas empresas precisam lidar quando lidam com pessoas jovens de alta performance. 

“O grande dilema que vejo é como saber administrar isso, como é feita a gestão de uma pessoa desse calibre para que possa voar?”, diz. 

Para ele, é importante ter foco no desenvolvimento da pessoa de alto potencial, não deixando permear a crença de que ela já está pronta. Na verdade, ela ainda tem muito potencial para crescer. 

Não importa a idade, o perfil da pessoa de alto desempenho e alto potencial é aquele que precisa de novos projetos, posições e desafios no seu caminho.  

“Ela agora tem que voar. Para onde? Essa é a questão para se pensar. A Daiane dos Santos, da ginástica, tem movimentos que levam o nome dela. Ela pode levar o esporte para um nível mais alto, mais complexo. E ainda inspirar os outros e ter uma posição de liderança pra prática do skate”, afirma. 

Quanto ao crescimento do skate como modalidade olímpica, Adriana Samuel vê que a posição de Rayssa como ídolo nacional pode ter um impacto semelhante ao que vôlei de praia, modalidade em que competiu, teve depois da estreia em 1996.

“A lição é a necessidade de uma estruturação maior da modalidade. Qualquer modalidade nova passa por isso. O ponto é aproveitar a medalha para alavancar o esporte no país. E aproveitar de forma boa essa conquista, trazendo mais mulheres para a prática esportiva” 

Ela viu o mesmo acontecendo após sua vitória em 1996. As medalhas atraíram patrocinadores e as atletas reinvestiram o dinheiro na sua profissionalização, com equipamento, técnicos e preparadores físicos. 

Os talentos não surgem do nada. E não são sozinhos que mantém as vitórias. Rayssa teve outras mulheres que a inspiraram, como a colega de equipe Letícia Bufoni, ou até o famoso Tony Hawk, que ela apelidou de “Tonyzinho”. 

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