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Opinião: Overshoot climático exige cortes de emissões e liderança

Pnuma admite que a meta de 1,5°C será ultrapassada e aponta cortes de emissões, net zero e resiliência como caminho para reverter a alta

A era do overshoot exige limitar o pico do aquecimento e acelerar cortes de emissões para conduzir o planeta de volta a um clima seguro (vern design lab/Shutterstock)

A era do overshoot exige limitar o pico do aquecimento e acelerar cortes de emissões para conduzir o planeta de volta a um clima seguro (vern design lab/Shutterstock)

Danilo Maeda
Danilo Maeda

Diretor-geral da Beon - Colunista Bússola

Publicado em 4 de setembro de 2026 às 10h00.

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O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) acaba de oficializar: manter o aquecimento global abaixo da meta de 1,5°C não é mais um cenário considerado plausível.

Pela primeira vez, uma agência da ONU admite formalmente que o limite estabelecido pelo Acordo de Paris será ultrapassado.

Com a temperatura média global atingindo a marca de cerca de 1,4°C acima dos níveis pré-industriais já em 2025, o diagnóstico do Pnuma decreta um território novo.

O desafio central das políticas públicas e corporativas deixou de ser puramente evitar a ultrapassagem desse teto, passando a focar em como compreender, preparar-se e transitar por esse cenário turbulento para, futuramente, reverter a alta.

Os riscos do aquecimento global acima de 1,5°C

É profundamente desolador perceber a enorme desconexão entre a gravidade do momento e a atenção pública global.

A ciência detalha de forma clara os chamados pontos de inflexão irreversíveis — como o derretimento do permafrost, o colapso de recifes de coral de águas quentes e a gradual transformação da floresta amazônica em savana —, limites críticos que começam a ser cruzados logo na faixa de 1,5°C.

No entanto, a sociedade parece anestesiada. Estamos excessivamente ocupados, consumidos por crises políticas imediatas e conflitos internacionais, enquanto negligenciamos uma ameaça estrutural de enormes proporções.

Ignoramos que, sem uma adaptação eficaz, a produção agrícola global pode despencar 30% até 2050.

Fechamos os olhos para o fato de que a exposição humana ao calor perigoso saltará de 1,8 bilhão para até 3,8 bilhões de pessoas em um mundo 2°C mais quente, resultando em uma provável redução de cerca de 11% do PIB global até a metade do século.

A era do overshoot climático

Contudo, ceder ao fatalismo seria um equívoco gerencial e ético imperdoável.

O próprio relatório da ONU ressalta que o rompimento da barreira de 1,5°C não significa, em absoluto, o abandono da meta de longo prazo do Acordo de Paris, que segue como pilar central da política climática.

Entramos oficialmente na era das trajetórias de overshoot: um pico temporário no aquecimento que precisará ser seguido por um recuo estritamente gerenciado, impulsionado por cortes contundentes de emissões e pela remoção de carbono da atmosfera.

A janela para essa gestão é estreitíssima: as projeções indicam que esse pico precisa ser contido entre 1,7°C e, no máximo, 1,8°C, sob o risco de tornar a reversão aos níveis seguros da meta permanentemente inviável até 2100.

Corte de emissões, net zero e resiliência

Para que essa complexa manobra funcione, o Pnuma estruturou a resposta em três fases sobrepostas: uma ação imediata pautada no corte profundo de CO2 e metano; uma etapa de contenção na qual devemos alcançar o balanço líquido zero (net zero) no momento exato de pico das temperaturas; e, por fim, um foco em resiliência de longo prazo para mitigar os efeitos climáticos inevitáveis.

Do ponto de vista de negócios, as alavancas já estão disponíveis.

Hoje, novos projetos de energia renovável são financeiramente mais atrativos do que as alternativas baseadas em combustíveis fósseis, e o custo das baterias caiu.

Além disso, inovações em remoção de carbono atuarão como um complemento vital para forçar a queda das temperaturas após o pico, embora as diretrizes sejam claras de que essas tecnologias não podem, de forma alguma, substituir a necessidade de interrompermos nossas emissões na fonte.

Governança e liderança na gestão do aquecimento global

O que nos falta, no fim das contas, não é capacidade tecnológica nem clareza científica, mas foco, governança e liderança.

Ainda é perfeitamente possível atingir os objetivos finais do Acordo de Paris e sermos lembrados como a geração que respondeu proporcionalmente a um dos maiores desafios da história da humanidade.

A ultrapassagem temporária dos 1,5°C já é um dado da nossa realidade.

Como escolheremos gerenciar a nossa volta a um clima seguro é o que definirá, para sempre, o nosso legado no planeta.

Acompanhe tudo sobre:Mudanças climáticas

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