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Por Márcio de Freitas*

A inflação acumulada em 12 meses fechou maio em 3,94% – segundo o IBGE. O trabalho para trazer o índice para esse patamar foi do Banco Central. A ferramenta monetária usada para forçar para baixo o percentual, que bateu de 10% em 2021, foram juros elevados. É uma vitória e tanto, até em comparação a Estados Unidos e países da Europa, onde alguns integrantes ainda convivem com até dois dígitos de reposição de preços ao ano. É caso de sucesso, mas o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, não recebe aplausos por cumprir com suas obrigações legais. Pelo contrário.

A autonomia do Banco Central inclui a responsabilidade de controlar a inflação, mas também com olho na geração de empregos. O país não está mal nesse item. O saldo positivo de vagas formais passa de 700 mil no ano, com índice de 8,8% para o desemprego. Mas novamente não há aplausos pelo trabalho entregue pelo Banco Central. A razão não é só o vetusto ódio aos banqueiros tão clássica quanto o Mercador de Veneza de Shakespeare: é a mira política de Luiz Inácio, o Lula III.

A relação do Banco Central com o governo atual

O presidente da República no Brasil tem imensa capacidade de criar agendas e pautar o país, e obter ganhos até quando o trabalho é de outros poderes, como muitas vezes acontece com o Legislativo. Lula pautou os juros altos como problema econômico, mais que a inflação ou a fragilidade fiscal do governo. Ao apontar sua metralhadora verbal para “o cidadão” do Banco Central, Lula endereçou as críticas de seus seguidores e da mídia para RCN, o neto do mais ardiloso liberal do país, Roberto Campos, o avô.

Ao fazer isso, Lula mirou no ponto vermelho do problema dos juros. Ninguém, nem o presidente do Banco Central, gosta de pagar altas somas sobre o dinheiro que pega emprestado, para remunerar agentes financeiros e aumentar o lucro dos bancos. E ele frisa, sempre que pode, o efeito colateral desse remédio contra a inflação à economia. RCN é visto como uma herança de Paulo Guedes e Jair Bolsonaro, melhor demarcar o terreno apontando seus defeitos. Nunca suas qualidades. É política total, sem nenhum viés econômico.

Pressão sobre o presidente do BC

A tática transfere ao presidente do Banco Central os problemas na economia, mesmo aqueles que são do governo – como a questão fiscal que andou elevando os juros futuros e o dólar no início do governo. Isso impede que ele receba qualquer reconhecimento pelo seu trabalho. Novamente, Lula colhe sozinho os frutos da árvore do BC quando comemora a queda do preço da picanha e dos combustíveis em suas redes sociais. Lula sabe onde bater, e sabe porque está batendo.

Roberto Campos Neto ainda ajudou o governo de certa forma com o comunicado da última reunião do BC. Faltou ser explícito sobre a queda futura de juros, o que veio na Ata da reunião divulgada dias depois da decisão de manter em 13,75% a taxa Selic – que nem é essa Brastemp toda, mas funciona como referência ao mercado. Importante ver que os juros futuros, que influenciam os títulos que o governo oferece aos rentistas de títulos públicos, caem e permitem uma certa folga ao Tesouro Nacional justamente pela agenda conservadora que emana do Banco Central – o marco fiscal e o controle da inflação.

Haverá ainda uma feliz coincidência para Lula: se o calendário político andar como planejado, o governo terá dois de seus indicados em operação justamente na reunião que baixará pela primeira vez os juros depois de longa temporada altista. O presidente poderá comemorar se isso ocorrer e apontar as qualidades excepcionais de seus indicados... faturando com a queda de juros tanto quanto tem faturado politicamente a queda da inflação. Lula tem sorte, mas também vende bem o seu peixe. 

*Márcio de Freitas é analista político da FSB Comunicação  

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