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“Parece que el demonio dirige las cosas de mi vida”, desabafou no século XIX Simón Bolivar, libertador das Américas ao sul do Equador. Em suas premonições, ele se via morto, pobre e desnudo. A entidade mítica citada por Bolivar parece manipular ainda hoje os destinos de líderes atuais da região, notadamente o presidente da república bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, reencarnação de populismo autoritário que, a cada ano, desnuda ainda mais a pobreza de seu povo.

Exitoso em manter o atraso e o subdesenvolvimento em seu país, Maduro quer expandir os limites da miséria venezuelana para além das fronteiras de sua ditadura: anexou, em mapa exibido na TV, o território da vizinha Guiana, país carente de força econômica e militar. Ele quer se apossar de imensa área que vai da floresta amazônica ao mar caribenho – onde a riqueza mineral brota do subsolo na forma de petróleo, na continuidade da chamada Faixa Equatorial, onde a Petrobras pretende sondar o lado brasileiro para saber se é possível encher barris futuros para fazer a transição energética nacional.

Maduro emula Vladimir Putin, que entrou Crimeia adentro para fomentar o que se tornou a guerra contra a Ucrânia. São bons aliados, Putin e Maduro. Ambos usam justificativas da história para impetrarem as ações do presente. A Venezuela reivindica da região há décadas, lembrando o passado da região tornada independente por Bolivar. Por essa lógica, poderia reivindicar também a Colombia, Peru, Equador, Bolívia… Seria contido pelo espírito de San Martin, líder da independência da Argentina.

Outro argumento histórico que poderia conter Maduro seria a reivindicação brasileira. Se é para lembrar o passado, os portugueses que fizeram o Brasil sua colônia chegaram primeiro à região. O Brasil disputou um pedaço da Guiana com os Ingleses. A Questão do Pirara surgiu desse conflito diplomático, que foi arbitrado pelo então rei da Itália Vitório Emmanuel III, no início do século XX. O defensor brasileiro foi Joaquim Nabuco. O rei italiano fechou o acesso do Brasil à baia do Essequibo em decisão no ano de 1901, dando vitória à Inglaterra.

O caso reforça a tradição brasileira para resolver seus conflitos fronteiriços pela via diplomática. Sem uso de força, sem truculência. O Brasil venceu questões disputas por território e também perdeu. Procurou sempre arbitragem e um negociador neutro. O uso desse caminho fez a fama do Itamaraty e do Barão do Rio Branco.

Maduro procura outro caminho, até para tentar criar uma causa de mobilização nacional que esconda suas deficiências administrativas. O venezuelano é pressionado pela comunidade internacional a realizar eleição justa e limpa, sem perseguir adversários ou impedir candidaturas viáveis, como já fez no passado. Com a anexação do Essequibo, ele pode conseguir um pretexto para alcançar muitos objetivos, seja adiar as eleições, seja endurecer o discurso contra seus adversários, seja uma forma de criar um fantasma externo que ameaça seu país. Todas essas alternativas são formas de tentar ficar no governo.

O problema é que, ao norte, os Estados Unidos da América também estão próximos de uma eleição presidencial em 2024. Os latinos são importantes nesse processo. Esse eleitorado que migrou de países como Cuba e Venezuela, se aproximou da direita e de Donald Trump nos últimos anos: deram a ele uma vitória sobre Joe Biden na Flórida em 2020. Esse eleitorado pode mudar de posição se Biden derrotar Maduro em conflito internacional.

O atual presidente norte-americano precisa desse eleitorado latino para continuar na Casa Branca. Maduro pode estar oferecendo um pretexto a Biden para agir. Hoje, uncle Biden está fragilizado nas pesquisas, mas tem a maior força militar do mundo. Há mais coisas entre o céu e a terra do Essequibo do que os aviões da aeronáutica dos EUA. Maduro deveria olhar os demônios que assombraram Bolivar para também não acabar pobre e desnudo.

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