Alerta: querem derrubar a filantropia em pleno voo

Doações para combater a pandemia, que atingiram o pico em abril do ano passado, embicaram para baixo em 2021, no auge da crise

No Brasil temos um jeito muito peculiar de lidar com os temas do momento e os conceitos que existem por trás deles. Como era de se esperar, já estamos fazendo uma confusão danada com siglas como ESG, RSE e PRI. E também com palavras inteiras como sustentabilidade, investimento de impacto e filantropia.

Pelo que vejo por aí, as pessoas que entendem de verdade desse negócio não estão muito preocupadas com isso. O que elas dizem é que não importa o nome que você dá, desde que faça alguma coisa para tirar o mundo da rota de naufrágio em que ele está. Faz todo sentido.

Mas temo que essa confusão terminológica possa penalizar algo que já é diminuto no país: a filantropia. Recentemente, duas empresas me perguntaram se deveriam interromper o trabalho filantrópico que fazem para concentrar esforços no tal do ESG. A resposta é mil vezes NÃO! 

Elas precisam, sim, como todas as empresas do planeta, aprimorar sua estratégia de sustentabilidade para encontrar oportunidades de impacto positivo no bojo de sua atividade principal e, desse modo, conquistar uma certa perenidade e uma boa reputação. Mas sem jamais abandonar as doações.

Em países como os Estados Unidos, a filantropia é responsável por bancar não apenas uma infinidade de projetos socioambientais como também as principais universidades e centros de pesquisa que lá existem.

 

Enquanto isso no Brasil, no dia em que o primeiro bilionário disser que doará toda a sua fortuna para uma determinada causa, ninguém vai acreditar. Além das diferenças culturais, há outras fiscais que justificam a maior presença de grandes beneméritos nos EUA.

A coisa ganhou mais tração aqui com a chegada da pandemia. A mobilização empresarial para ajudar os outros foi totalmente inédita nos últimos 521 anos do país. As doações corporativas atingiram cifras nunca antes vistas. Em novembro do ano passado, no Dia da República, de posse de dados preliminares, escrevi neste espaço sobre a lindeza dessa surra de solidariedade. O desafio seria manter a chama acesa para o futuro. 

Pois bem, adivinhem! Não mantivemos. Mas já há um sutil sinal de retomada. 

As doações atingiram um pico de R$ 3,25 bilhões em abril do ano passado. Em janeiro de 2021 caíram para R$ 23 milhões. Em fevereiro, com a pandemia bombando, o montante foi ainda menor: R$ 19 milhões. Os dados são da ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos), que criou o Monitor das Doações Covid-19 assim que o tormento causado pelo vírus começou.

Um certo alento veio em março último: R$ 148 milhões. E agora em abril, com o mês quase fechado, o número subiu mais um tiquinho: R$ 149,22 milhões. Duas boas notícias. Mas não tem comparação com abril de 2020.

Com ou sem esse maldito vírus, o caminho da filantropia no Brasil ainda é longo – e o bom é que existem instituições sérias trabalhando para isso. Ocupamos o 74º lugar em um ranking de solidariedade de 140 nações, o World Giving Index. Somos um país com uma superabundância de carências. Há muita gente com todo tipo de necessidade básica. Para essas pessoas, a filantropia pode ser o último fio que as mantém ligadas à possibilidade de continuar vivendo. 

Como estamos na febre das siglas, e dado que filantropia não é ESG, talvez precisemos em algum momento inventar uma nova que ressignifique algo que é essencial para resolver os problemas do presente.

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