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Análise: Crise sem árbitro leva futuro do STF para o centro da eleição

Nenhum pleito desde a redemocratização concentrou tamanha capacidade de alterar simultaneamente a Presidência, o Senado e a composição futura do Supremo

STF vai decidir de lei que reduz pena de Bolsonaro é inconstitucional (Gustavo Moreno/SCO/STF/Divulgação)

STF vai decidir de lei que reduz pena de Bolsonaro é inconstitucional (Gustavo Moreno/SCO/STF/Divulgação)

Fábio Zambeli
Fábio Zambeli

Diretor de Public Affairs do Grupo In Press

Publicado em 2 de setembro de 2026 às 15h39.

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Brasília passou a operar sob duas estratégias desde que o relatório da Polícia Federal sobre Daniel Vorcaro saiu do sigilo. Um campo procura uma solução de acomodação capaz de preservar o STF e impedir que o caso Master provoque uma ruptura institucional de consequências imprevisíveis. Outro trabalha pela exposição integral do material, pelo escrutínio público dos envolvidos e por uma apuração que não seja interrompida por conveniências políticas ou corporativas.

O problema é que falta autoridade para conduzir qualquer desses caminhos. Edson Fachin tentou ocupar esse espaço nesta quarta-feira ao classificar o momento como de “especial gravidade” e anunciar que tomará as “medidas cabíveis e necessárias”. A fala foi cuidadosamente construída. Recordou que a autoridade do cargo impõe limites e responsabilidades, evitou absolver ou condenar qualquer colega e prometeu agir sem precipitação.

Fachin assumiu a condução do rito. Ainda precisa demonstrar que consegue exercer a arbitragem política de uma Corte profundamente dividida. As recentes tentativas encabeçadas pelo presidente do Supremo de estabelecer parâmetros éticos para as condutas dos seus pares foram mal-sucedidas, o que evidencia a dimensão do desafio que encara agora.

Edson Fachin, presidente do STF (Nelson Jr./SCO/STF/Flickr)

A reação de Paulo Gonet mostra a disposição do establishment judicial em conter a crise de forma protocolar. O procurador-geral pediu a nulidade do relatório produzido pela PF por determinação de André Mendonça. Sua tese é juridicamente relevante: o relator não poderia ter transformado a análise de material apreendido numa investigação de um ministro do Supremo sem autorização do plenário.

O problema político está na posição do próprio Gonet. O chefe do Ministério Público Federal aparece no material recolhido no celular de Vorcaro, inclusive em mensagens intermediadas por terceiros. A discussão sobre o procedimento passou, assim, a conviver com uma questão inevitável sobre a legitimidade de quem pede a sua anulação.

Mendonça também perdeu a condição confortável de simples agente da transparência. Nesta manhã, confirmou que recebeu Vorcaro reservadamente em março de 2025 para tratar de um processo sobre precatórios de interesse do Master. Disse ter se limitado a ouvir o banqueiro e lembrou que votou contra a posição defendida por ele.

Horas depois, confirmou outra informação sensível: Vorcaro prestou recentemente depoimento em seu gabinete, acompanhado pelo Ministério Público e sem a presença da Polícia Federal. Segundo o ministro, a oitiva foi regular, pedida pela defesa diante de relatos de intimidação, e não tratou de Alexandre de Moraes.

A sucessão de revelações explica por que uma solução corporativa se tornou tão difícil. O caso alcançou autoridades que deveriam investigar, julgar ou controlar umas às outras. A Polícia Federal já vinha em atrito com Mendonça sobre os limites da atuação do relator.

Seu diretor-geral, Andrei Rodrigues, é mencionado nas conversas apreendidas como alguém a quem Vorcaro pretendia recorrer. Gonet aparece no mesmo material. A disposição manifestada pelo próprio Vorcaro de “falar mais” e tentar novamente uma colaboração premiada mantém aberto o perímetro da crise.

O Supremo tampouco dispõe hoje de maioria política evidente para uma saída rápida. Nos bastidores, a conta que se faz na corte aponta quatro ministros inclinados a admitir a apuração e três contrários, com a ministra Cármen Lúcia ainda sem posição definida.

O quadro pode mudar até a votação e não constitui placar oficial, mas registra o dado essencial: o colegiado rachou numa matéria que envolve um dos seus integrantes mais influentes. Fachin terá de administrar esse conflito enquanto decide quando e em que termos o plenário será chamado a enfrentá-lo.

No Senado, os incentivos caminham para a contenção.

Figura proeminente nos arranjos políticos recentes na capital federal, Davi Alcolumbre sinaliza que não pretende dar curso agora aos novos pedidos de impeachment e prefere esperar o próprio Supremo. Ao comentar o estoque de 109 representações contra ministros da Corte, limitou-se a dizer que a quantidade “não é normal”.

A oposição aumentará a pressão, embora reconheça que hoje não dispõe do ambiente político necessário para impor o afastamento.

Davi Alcolumbre, presidente do Senado (Edilson Rodrigues/Agência Senado/Divulgação)

A reação de Lula

Lula, em plena reta final de campanha, procura distância do caso. Assessores recomendam que o presidente trate o episódio como assunto do Judiciário e evite uma defesa pessoal de Moraes, cuja proximidade política com o governo torna o custo eleitoral especialmente delicado. A atitude mais provável do Planalto será acompanhar a investigação sem assumir a propriedade da crise.

É difícil, contudo, separar a figura do presidente do STF, que vem exercendo papel central na governabilidade desde que o petista voltou ao poder, em 2023.

Fora das instituições, o ambiente é menos controlável. A divulgação das mensagens multiplicou o volume de conversas sobre Moraes nas redes, e o pedido de impeachment ganhou tração nesse debate. Tarcísio de Freitas, personagem importante do campo de centro-direita, falou nesta quarta em transparência, investigação e responsabilização. Movimentos de direita começaram a deslocar o foco dos atos de 7 de Setembro para o mote “Fora Moraes”.

André Mendonça

André Mendonça, ministro do STF (Nelson Jr./SCO/STF/Flickr)

Esse calendário importa. A abertura do material ocorreu a menos de uma semana das manifestações, o que aumenta a capacidade de pressão de rua sobre um processo que, em outras circunstâncias, provavelmente seria administrado dentro do circuito institucional de Brasília.

Como não existe coincidência na política, é possível inferir que Mendonça tenha feito esse cálculo ao dobrar a aposta na divulgação do conteúdo das mensagens que comprometem Moraes e Gonet para perceber o efeito político produzido.

Uma mobilização expressiva na segunda-feira elevará o custo de qualquer solução percebida como proteção corporativa e colocará sob pressão os ministros que terão de decidir o destino da apuração. Antes mesmo desses atos públicos, o fim do sigilo já garantiu espaço nobre na cobertura midiática e ensejou editoriais cobrando até a renúncia de ministros do STF.

A partir desse contexto (o eco das ruas), desponta a dimensão realmente histórica desta crise: outubro.

O próximo presidente e o STF

O próximo presidente da República já terá três indicações certas ao Supremo. Luiz Fux completa 75 anos em 2028, Cármen Lúcia em 2029 e Gilmar Mendes em 2030. A conta pode crescer.

A vaga deixada por Luís Roberto Barroso continua aberta depois de o Senado rejeitar a indicação de Jorge Messias, e Lula ainda pode apresentar outro nome. Caso essa cadeira chegue vazia a janeiro, será uma quarta nomeação para quem tomar posse.

Uma eventual saída antecipada de Moraes, se não houver substituição até o fim deste governo, abriria um cenário ainda mais radical.

As eleições do Senado

A eleição para o Senado ganha, nessa conjuntura, peso semelhante. 54 das 81 cadeiras estarão em disputa, dois terços da Casa. O Senado aprova as indicações ao Supremo por maioria absoluta e tem competência constitucional para processar ministros da Corte por crimes de responsabilidade.

A composição escolhida em outubro acompanhará praticamente todo o próximo mandato presidencial e terá poder para aceitar ou bloquear a remodelação do tribunal.

Esse é o motivo do “all in” que começa a aparecer na política. Para o bolsonarismo, uma vitória presidencial acompanhada de uma bancada robusta no Senado cria a oportunidade de alterar profundamente a configuração do Supremo.

Para o campo que hoje sustenta a estabilidade institucional da Corte, uma derrota nessas duas frentes pode produzir uma mudança de maioria com efeitos por muitos anos. A disputa deixou de envolver apenas quem governará o país a partir de janeiro. O destino do Judiciário entrou objetivamente na equação eleitoral.

O 7 de Setembro será o primeiro teste de temperatura dessa nova etapa. Outubro dará a resposta que realmente importa.

A saída negociada continua possível. Brasília conhece bem a engenharia dos acordos destinados a evitar crises maiores. O obstáculo atual está na ausência de alguém com autoridade suficiente para propor os termos, confiança bastante para reunir os lados e força política para fazê-los cumprir.

Enquanto esse personagem não aparece, a eleição ocupa o espaço vazio. Nenhum pleito desde a redemocratização concentrou tamanha capacidade de alterar simultaneamente a Presidência, o Senado e a composição futura do Supremo. Em outubro, o eleitor também estará votando no desenho institucional da próxima década.