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Resiliência climática: o que o Brasil pode aprender com outros países?

OPINIÃO | Já passou da hora de desenvolvermos uma cultura de gestão de riscos relacionados às mudanças climáticas. Isso requer um planejamento eficaz e a implementação de medidas preventivas

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 29 de maio de 2024 às 06h16.

Por Tadeu Barros e Paulo Guerra* 

O maior desastre natural do Rio Grande do Sul nos obriga a questionar a prontidão do Brasil para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas. Com um número crescente de mortos, feridos e desabrigados, fica a pergunta: como o setor público pode antever desastres desta natureza?

A premissa deve ser a formulação de políticas públicas com foco na resiliência climática — a capacidade de resistir aos eventos climáticos extremos e de se recuperar com agilidade. Isso envolve não apenas ações de adaptação para lidar com os impactos já em curso, mas também esforços para mitigar as emissões de gases de efeito estufa e reduzir a vulnerabilidade das comunidades às mudanças climáticas futuras.

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Bangladesh

Nesse sentido, talvez possamos aprender com outros países, cuja cultura é mais voltada a prevenção de eventos naturais extremos. Provavelmente ao falar disso, a maioria das pessoas pensam logo no Japão, com seu aparato tecnológico construído durante décadas e que buscam prevenir desde terremotos até enchentes e tsunamis. Mas a verdade é que existem outros exemplos menos conhecidos e que talvez estejam mais próximo do Brasil tanto do ponto de vista econômico, quanto tecnológico e cultural.

Me refiro a Bangladesh. Mas Bangladesh se parece mais com o Brasil em quais aspectos?

Em termos culturais, no Japão as pessoas já possuem forte cultura de planejamento, enquanto em Bangladesh e no Brasil essa cultura ainda é incipiente. Em termos econômicos, o Brasil possui 67,8 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza, Bangladesh 92 milhões e o Japão, 15 milhões.

Embora a situação econômica e social de Bangladesh seja ainda pior do que a do Brasil, aquele país asiático se transformou em um excelente exemplo de como políticas públicas bem aplicadas podem evitar catástrofes diante eventos naturais extremos. Em 1991, o ciclone Gorky matou 138 mil pessoas e fez dez milhões de refugiados em Bangladesh. De lá para cá, um projeto robusto de prevenção e gestão de riscos de desastres tem sido implementado com investimentos em abrigos e em tecnologia de detecção e capacitação da população.

Apesar de o país passar praticamente todos os anos por eventos extremos, o desastre humano nunca mais se repetiu e seus resultados são impressionantes até quando comparado ao de países desenvolvidos.

Trinta anos depois que o projeto de prevenção começou a ser implementado, em maio de 2020, o ciclone Amphan atingiu Bangladesh e deixou 26 mortos. No ano seguinte, em julho de 2021, foi a vez da Alemanha. Porém uma chuva com menos da metade do volume experimentado por Bangladesh levou à morte 196 pessoas, 653% mais do que o país asiático. Vale lembrar que os dois países possuem uma densidade populacional, atributo que influencia o número de pessoas afetadas, bastante diferente. Bangladesh possui 5 vezes mais pessoas por km² do que a Alemanha. Por tudo isso, o Banco Mundial considera que Bangladesh está na vanguarda da gestão de riscos de eventos extremos.

Questão econômica

Essas medidas também são uma questão econômica, já que as catástrofes naturais resultam em perdas significativas para governos, empresas e cidadãos e afetam a infraestrutura, a agricultura, a indústria e os serviços. Além disso, os custos de recuperação após tais eventos são enormes.

Estima-se que somente em 2023, o Brasil precisou gastar R$ 105 bilhões para se recuperar dos prejuízos causados com eventos naturais extremos.

Dados das Nações Unidas revelam que cada bilhão investido em adaptação contra inundações costeiras leva a uma redução de US$14 bilhões em danos econômicos. Portanto, investir em resiliência climática é uma estratégia econômica inteligente.

Torna-se ainda mais importante a adesão de estados e cidades brasileiros aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que fornecem um framework útil para orientar esses esforços de fortalecimento da resiliência e ampliação da capacidade de adaptação a riscos relacionados ao clima.

Já passou da hora do Brasil desenvolver uma cultura de gestão de riscos relacionados às mudanças climáticas. Isso requer um planejamento eficaz e a implementação de medidas preventivas. Os municípios e estados brasileiros devem desenvolver e executar Planos de Resiliência Climática, identificando áreas de alto risco, criando abrigos e zonas seguras, capacitando as pessoas para entenderem como agir e adotando medidas para reduzir a vulnerabilidade das áreas mais expostas.

Segundo dados da pesquisa "Emergência Climática", da Confederação Nacional dos Municípios, 68% das cidades não estão preparadas para lidar com eventos extremos. O impacto desse cenário resulta nas 4.728 mortes provocadas por desastres naturais em pouco mais de três décadas — de 1991 a 2022 —, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Regional.

A catástrofe no Rio Grande do Sul é um lembrete sombrio da urgência da ação climática e o fato de ter acontecido em um estado com forte capacidade institucional e grande histórico de gestão torna o alerta ainda mais importante. Hoje, o estado está no top-5 de quatro pilares do Ranking de Competitividade dos Estados: Eficiência da Máquina Pública (1°), Inovação (2°), Sustentabilidade Social (4°) e Segurança Pública (5°).

Imagina o que poderia acontecer se a mesma quantidade de água caísses sobre estados com menos capacidade. É hora de os líderes públicos, empresas e cidadãos assumirem suas responsabilidades e agirem.

*Tadeu Barros, diretor-presidente do CLP, e Paulo Guerra, diretor de programas da Fundação Dom Cabral (FDC)

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