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Por que Lula faz um "giro" em São Paulo, Rio e Minas? Pragmatismo político

Para Fábio Zambeli, vice-presidente da Ágora Assuntos Públicos e colunista da Exame, a comitiva tem relação direta com a necessidade do governo em pavimentar a governabilidade e com as eleições

Lula: presidente realiza giro pelos principais colégios eleitorais do país (Ricardo Stuckert / PR/Flickr)

Lula: presidente realiza giro pelos principais colégios eleitorais do país (Ricardo Stuckert / PR/Flickr)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 6 de fevereiro de 2024 às 16h00.

Última atualização em 29 de fevereiro de 2024 às 14h06.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai visitar nesta semana os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, para concluir o giro pelos três maiores colégios eleitorais do país, que começou na sexta-feira em São Paulo. Para Fábio Zambeli, vice-presidente da Ágora Assuntos Públicos e autor da coluna Pulso Político, na Exame, trata-se de puro pragmatismo político. Ou seja, o giro tem relação direta com a necessidade do governo em pavimentar a governabilidade e com as eleições que se avizinham. "Lula precisa lidar com um Congresso de maioria de centro-direita e os estados economicamente mais importantes são governados por oposicionistas. E, nesse contexto, o melhor instrumento do Planalto para reduzir as resistências políticas é o orçamento", diz Zambeli em entrevista à EXAME.

Após fazer uma maratona de viagens internacionais em seu primeiro ano de mandato, o petista busca aumentar sua presença nas cidades brasileiras em ano de eleição municipal. As viagens começaram no Nordeste em janeiro, tradicional reduto petista, com passagens em Recife, Salvador e Fortaleza. "É evidente que essas viagens têm impacto eleitoral, pois teremos eleições municipais este ano e Lula gostaria de nacionalizar a disputa nas capitais", diz o vice-presidente da Ágora Assuntos Públicos. "Ele gosta de manter o tal "palanque permanente" e é muito habilidoso quando pega o microfone e se dirige aos adversários."

Nessa quinta-feira, 8, será a primeira vez que Lula visita Minas Gerais em seu terceiro mandato. Além desse simbolismo, o petista também realizará entregas do governo federal em duas cidades que saiu derrotado nas eleições de 2022. No pleito, Lula perdeu para Bolsonaro na cidade do Rio, quando teve teve 1.734.159 votos (47,3% dos votos válidos) e Bolsonaro 1.929.209 votos (52,7% dos votos válidos). Na capital mineira, o ex-presidente venceu com 699.105 votos (54,7% dos votos válidos) contra 703.755 votos (45,75 dos votos válidos) de Lula. Apesar da derrota na capital, o presidente venceu Bolsonaro no estado de Minas com uma margem de 50 mil votos.

Zambeli também fala sobre o diálogo de Lula com os governadores para entregas do governo federal e a aproximação com aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Veja a entrevista completa.

Quais os sinais da visita de Lula aos três maiores colégios eleitorais do país? 

Esse giro pelos maiores colégios eleitorais do país tem relação direta com a necessidade de pavimentar melhor a governabilidade. Lula precisa lidar com um Congresso de maioria de centro-direita e os estados economicamente mais importantes são governados por oposicionistas. E, nesse contexto, o melhor instrumento do Planalto para reduzir as resistências políticas é o orçamento. Ou seja: obras, financiamentos e repasses. Anunciando programas para essas regiões, o presidente minimiza a rejeição, que ainda é muito expressiva nos estados do Centro-Sul-Sudeste, e busca melhorar o ambiente para sua agenda no Legislativo.

Como o diálogo com governadores de oposição pode favorecer nessa articulação com o Congresso? 

Os parlamentares são fortemente influenciados pelos governadores e lucram politicamente com mais dinheiro nos redutos territoriais. Do lado dos governadores, é fundamental, apesar das diferenças ideológicas, acessar recursos federais e mais crédito para viabilizar grandes projetos, de visibilidade. Há uma queda acentuada na arrecadação nesses estados governados pela direita e torna-se crucial ter um diálogo institucional com a União. Então, vejo que é uma estratégia natural de quem está no governo e tem aliados com pouca musculatura nos maiores colégios eleitorais. Acredito que qualquer presidente nas mesmas condições faria o mesmo, desde que fosse pragmático. Lula consegue executar sua agenda com a oposição contumaz de São Paulo, por exemplo, que tem um terço do PIB e uma bancada de 70 deputados? É bastante delicado.

E a troca de afagos entre Lula e Tarcísio, pode ser vista como uma aproximação? 

Ocorre que nos acostumamos com os confrontos da gestão de Jair Bolsonaro, que era um presidente "contra o sistema" e que não distinguia os embates pessoais da tarefa da governar, principalmente aqueles governadores que ele chamada de "traidores". Mas isso não é o normal na política. A construção de arranjos federativos sempre foi decisiva para assegurar o mínimo de paz política e estabilidade institucional no Brasil.

Mas os apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro podem se colocar contra um aliado que posa com Lula...

Os apoiadores de Bolsonaro não gostam de ver os "afilhados" tirando fotos sorrindo para Lula, como ocorreu com Tarcísio. Mas mesmo neste caso específico houve um fato curioso: muitos políticos de direita saíram em defesa do governador, o que mostra uma mudança ainda que sutil de comportamento. A gritaria fica mais concentrada no ambiente digital. Na vida prática, a política é assim. Bolsonaro está inelegível e os detentores de mandatos do seu campo político precisam fazer obras, prestar serviços e projetar realizações visando a manutenção da viabilidade eleitoral para 2026.

Qual pode ser o impacto desse giro de Lula para as eleições desse ano? 

É evidente que essas viagens têm impacto eleitoral, pois teremos eleições municipais este ano e Lula gostaria de nacionalizar a disputa nas capitais. Ele gosta de manter o tal "palanque permanente" e é muito habilidoso quando pega o microfone e se dirige aos adversários. Também não podemos deixar de vislumbrar um efeito desmobilizador em parte da direita, sobretudo a mais ideológica e radical, com esse tipo de agenda do presidente.

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