Pelo 12º ano consecutivo, Brasil é país que mais mata transexuais no mundo

Rejeição familiar, marginalização econômica e impunidade explicam a alta contínua dos números; inclusão no mercado de trabalho poderia reverter cenário

Uma semana após o Brasil bater o recorde de pessoas trans eleitas nas eleições municipais, novos dados do Trans Murder Monitoring ("Observatório de Assassinatos Trans", em inglês) apontam que, apenas nos primeiros nove meses de 2020, 124 pessoas transexuais foram mortas no Brasil. Com isso, o país ocupa o inglório topo do ranking dos mais violentos para essa população pelo 12º ano consecutivo. México e Estados Unidos vêm em seguida, com 528 e 271 assassinatos reportados, respectivamente.

Por ser rejeitada pela própria família e também pelo mercado de trabalho, a esmagadora maioria das pessoas trans é levada a buscar seu sustento em trabalhos informais, principalmente na prostituição. A soma dessa conjuntura desfavorável com a pandemia de covid-19 e o aumento da brutalidade policial pelo mundo faz de 2020 um dos anos mais violentos para a população trans.

Só até setembro, foram 350 assassinatos reportados — um aumento de 6% em relação a todo o ano passado. Dessas mortes, 82% aconteceram na América Latina, sendo 43% delas no Brasil, onde os dados locais são compilados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Além da Consciência Negra, nesta sexta, 20, também é celebrado o Dia Internacional da Memória Transgênera.

Rejeição familiar, a marginalização econômica e, principalmente, a impunidade para os atos violentos são os fatores que explicam a alta contínua nesses números ano após ano. Mas, no Brasil, discursos de ódio vindos dos altos escalões da administração pública exacerbam ainda mais essa realidade.

"Quando um presidente da República diz algo homofóbico com orgulho, é um sinal para os brasileiros de que eles podem fazer o mesmo", explica Cristian Cabrera, pesquisador da Human Rights Watch em entrevista à EXAME. "Isso incentiva a violência, pois sugere que as pessoas não serão punidas pelos seus atos de violência."

Psicólogo e coordenador do projeto Acolhe LGBT, da All Out, que leva atendimento psicológico qualificado a LGBTs em situação de vulnerabilidade, Carú Seabra destaca que boa parte dos assassinatos de transexuais é bastante cruel e ocorre, geralmente, em espaços públicos. Segundo o Trans Murder Monitoring, 38% dos assassinatos reportados aconteceram na rua.

"Isso mostra quão difícil é ser trans na sociedade brasileira. Não é espantoso que, justamente em um momento de crise, a vivência trans se torne ainda mais difícil", diz Carú, que é um homem trans. Para ele, o direito ao uso do nome social (regulamentado no Brasil desde 2018) e o recorde de pessoas trans eleitas é só um dos inúmeros passos que precisam ser dados "para que essa população possa viver, e não apenas sobreviver". Um desses passos, ele aponta, é a inclusão trans no mercado de trabalho formal.

"Precisamos ser reconhecidos como potências que podem produzir tanto quanto, igual ou melhor que qualquer pessoa cisgênero [que se identifica com o seu sexo biológico]", defende Carú. "Reconhecer isso é reconhecer a nossa humanidade."

Para Cabrera, reduzir as desigualdades e dar mais dignidade à população trans requer que as autoridades reconheçam a existência dessas violências e invistam numa educação que promova a tolerância e a aceitação de todas as pessoas, independentemente da orientação sexual ou identidade de gênero. "Hoje, há tentativas de barrar as discussões de gênero nas escolas. Isso não apenas viola o direito à educação, mas também reforça os preconceitos na sociedade brasileira", explica ele, defendendo que o setor privado também pode contribuir com a causa.

Os CEO's devem deixar claro que as diversidades são bem-vindas em suas companhias e que nenhum tipo de discriminação deve ser tolerado. Isso passa a mensagem que as pessoas transgênero existem e que o setor privado reconhece as suas capacidades e contribuições como fazem com todos os outros empregados.

Cristian Cabrera, pesquisador da Human Rights Watch

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