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Integrar viciados em crack à sociedade ajuda na recuperação

Em debate sobre o tema, especialistas defenderam que é preciso uma mudança na concepção sobre a melhor maneira de combater o vício

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	Cracolândia: ex-usuário de crack citou a dificuldade de acesso aos recursos do poder público, como atendimento médico e psiquiátrico
 (Marcelo Camargo/ABr)

Cracolândia: ex-usuário de crack citou a dificuldade de acesso aos recursos do poder público, como atendimento médico e psiquiátrico (Marcelo Camargo/ABr)

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Fernanda Cruz

Publicado em 10 de setembro de 2015 às, 15h47.

São Paulo - “Conheço usuários de crack com mais de 50 internações e que não melhoraram em nada, isso se não estiverem um pouquinho pior”.

O depoimento é de Raul Garcia Júnior, de 47 anos, que foi viciado durante 35 anos e conseguiu, sozinho, superar o vício.

Para ele e para profissionais que estudam o assunto, o tratamento mais eficaz para combater o vício precisa envolver as famílias e a sociedade e depende de uma integração entre os serviços de saúde.

O tema foi discutido hoje (10) durante o Simpósio: Crack – Estigma e Preconceito: desafios da intersetorialidade, realizado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Isaldo Carlini, diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Unifesp, estuda o assunto há 50 anos. Segundo ele, é preciso uma mudança na concepção sobre a melhor maneira de combater o vício.

“Sempre estamos batendo nas mesmas teclas, não tem havido progresso na evolução do tratamento ou da compreensão do problema de usar drogas”, declarou. “Estamos fracassando nesse assunto”, acrescentou.

Carlini defende ouvir, primeiramente, o que o usuário tem a dizer e depois decidir sobre as melhores estratégias para o tratamento de usuários de crack.

No caso de Raul, a compreensão dos parentes foi o que mais ajudou. “A falta de informação faz achar que a melhor forma de lidar com o viciado é internando. Mas carinho, afeto e até uma conversa funcionam bem mais. Se internar [o viciado], é um monte de 'nóia' junto. É difícil, acho que a pessoa sai até um pouco pior”, disse ele.

Marta Ana Jezierski, médica psiquiatra e pesquisadora do Cebrid, lembra que a sociedade passou ao menos 200 anos acreditando que a melhor forma de tratamento era isolando o usuário. “Esses hospitais, desde que fossem longe, passavam a ser um mundo alternativo onde as pessoas ficavam internadas”, explica.

O ex-usuário de crack José Francisco da Silva, de 50 anos, hoje trabalha com reciclagem e participa da Associação Brasileira dos Consultórios de/na Rua (Abracoru) em Guarulhos, uma iniciativa que leva atendimento de saúde em vans à população em situação de vulnerabilidade nas ruas.

José foi viciado por 15 anos, tendo vivido na cracolândia em São Paulo. Ele também perdeu o contato com a família depois de vendar pertences de seus parentes para conseguir comprar a droga.

José cita a dificuldade de acesso aos recursos do poder público, como atendimento médico e psiquiátrico. “O pessoal da abordagem vinha só para agredir a gente. Alguns já chegavam espancando, mas nós também somos cidadãos. O pessoal de rua também tem o direito de ir e vir, mas nossos direitos são violados”, lamentou.

A questão de melhorar o acesso aos recursos públicos é importante para a recuperação dos usuários, defende Marta Ana Jezierski. “Os recursos de saúde são vistos como castelos fortificados, com grande dificuldade de acesso”.

Em razão do estigma e preconceito, muitos pacientes que são viciados acabam sendo abandonados pelo sistema de saúde. “É uma dura realidade que a gente vive ainda”, declarou.

Na opinião da médica, um dos pontos mais importante a ser discutido é a integração entre saúde mental e o restante dos serviços de saúde pública.

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