Na disputa entre gerações, todos saem perdendo

Em sua coluna, Sofia Esteves destaca uma habilidade valiosa para criar harmonia entre as diferentes gerações no trabalho

De um lado, os chamados 50+ foram empurrados para uma aposentadoria precoce e forçada. De outro, os jovens enfrentam dificuldade para ingressar no mercado de trabalho. Duas gerações diferentes, dois extremos opostos, mas que encaram um desafio muito parecido durante a pandemia.

Cada um tem suas motivações para lutar por um lugar ao sol, cada argumento para justificar sua prioridade tem uma razão de ser. Olhando para esse cenário, você poderia concluir que só resta briga, competição acirrada. Que o futuro reserva não só a ampliação do tal “gap geracional”, mas da disputa e da falta de diálogo entre eles. Uma pena se for assim.

Uma pena porque seria um desperdício. Uma chance jogada fora. Para mim, esse quadro do qual estamos diante é, na verdade, uma oportunidade de promover o encontro de gerações. E o caminho para unir essas duas pontas é a já conhecida, porém sempre necessária, empatia.

É verdade que, à primeira vista, a dificuldade atual pode ser enxergada como terreno fértil para a disputa feroz. Se tenho poucos recursos, “meu pirão primeiro”. Mas a antropóloga Margaret Mead acreditava que a empatia é inata ao ser humano — além de ser uma abordagem infinitamente mais inteligente, afinal, não se vai longe sozinho.

A crença da especialista norte-americana era baseada na descoberta de um fêmur — mais precisamente, da cura de um fêmur fraturado. Não entendeu nada? Eu explico!

A história famosa em torno de Mead e do fêmur surge quando um aluno, certo dia, questiona a antropóloga sobre qual seria o primeiro sinal de civilização em uma cultura, no que ela responde que a primeira evidência foi um fêmur de 15.000 anos encontrado em um sítio arqueológico.

Como você, que me lê agora, o estudante não entendeu nada. O que aquilo tinha a ver com os sinais de uma civilização? Acontece que o fêmur é o osso mais longo do corpo e, portanto, leva mais tempo para se curar de uma fratura. Sem os recursos da medicina moderna — que, claro, era o caso daquele osso encontrado pelos arqueólogos — , ele levaria cerca de seis semanas de descanso para conseguir cicatrizar. Semanas em que a pessoa machucada não conseguiria caçar, ajudar o grupo, contribuir com alguma tarefa... Se esse fêmur foi encontrado com sinais de cicatrização, é porque essa pessoa recebeu cuidados. Ele teve ajuda. E ajudar alguém com dificuldade é o ponto de partida da civilização.

Muitas coisas têm mudado nos últimos tempos, mas eu quero acreditar que a base da civilização não é uma delas. Ainda somos seres sociais e, assim sendo, dependemos um do outro. No caso dos 50+, por exemplo, a "dependência" está no olhar do mais jovem, nesse ponto de vista que traz, para o seu próprio, um frescor. Uma dependência no sentido de ter na figura do mais novo alguém que o apresenta a universos diferentes e, consequentemente, novos desafios.

Já os mais jovens dependem de algo que nem livros, nem vídeos, nem podcasts dão conta: pontos de vista resultantes de experiência. Me refiro tanto ao conhecimento técnico acumulado ao longo dos anos de trabalho, quanto aos aprendizados de carreira. E, eu sei, isso tudo pode parecer perfumaria, coisa de RH que inventa histórias comoventes para justificar a introdução da diversidade etária. Já adianto: não é.

Como contei no meu último artigo, ter um mentor mais experiente foi um dos amparos que garantiu a minha travessia segura pelas águas turbulentas da crise de 1990. Eu, uma jovem de 26 anos, não tinha inteligência emocional o suficiente para saber como lidar com aquela situação inusitada e também não tinha repertório naquele cenário de crise para já saber quais eram os próximos passos. Esse saber tão valioso me foi transmitido por meio da mentoria, impulsionada, primeiro, pela empatia.

É a empatia que faz com que mundos tão diferentes — uma jovem mulher empreendedora de 26 anos e um renomado empresário brasileiro e especialista em outplacement e aconselhamento de carreira com anos de estrada — consigam se aproximar e se reunir em torno de um ponto em comum. No caso, a crise.

Empatia não diz respeito saber exatamente o que o outro está sentindo e pensando. Isso é humanamente impossível.

Empatia é, antes de tudo, a disposição para observar e tentar identificar o que se passa com o outro para, então, fazer um exercício de “e se”. E se eu estivesse passando por essa situação? E se eu tivesse a vida dessa pessoa e isso acontecesse comigo? E se eu tivesse essa personalidade e sofresse essas circunstâncias? Esse “brincar de faz de conta” é a ponte que nos permite atravessar de um mundo para o outro.

Um jovem com seus 20 e poucos anos pode ter dificuldade para entender o que é se ver diante de uma situação forçada de aposentadoria precoce, da mesma forma que um sênior que percorreu uma longa estrada no mercado de trabalho tradicional pode não compreender totalmente os anseios de estrear em um mundo corporativo em crise e em isolamento. Porém, ambos compartilham de sensações parecidas nesses dois cenários: medo, insegurança, ansiedade quanto ao futuro.

Não são as particularidades de cada história que nos une. Na verdade, essas vivências pessoais, quando compartilhadas, são justamente o que nos torna mais plurais, o que nos enriquece. As particularidades nos ampliam, mas não necessariamente nos conectam.

A conexão, o caminho que une as duas pontas aparentemente tão distantes é a empatia. E a empatia é aquela palavra que talvez você esteja cansado de ouvir, mas que eu garanto que vai ajudá-lo, seja você X, Y, Z ou qualquer outra letra que vem por aí. A nomenclatura muda, mas a base do que nos torna uma civilização permanece. Pelo menos, é isso que desejo para mim e para você.

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