Desafios crescentes no mercado de trabalho brasileiro

No curto prazo, estamos às voltas com uma nova elevação de patamar da taxa de desemprego depois da alta de 2015 e 2016

Por Sergio Vale

Entre os vários resquícios da pandemia, talvez o mais dramático e de difícil solução se dá em relação ao mercado de trabalho. São dois aspectos relevantes nesse caso, um mais de curto e outro mais de longo prazo.

No curto prazo, estamos às voltas com uma nova elevação de patamar da taxa de desemprego depois da alta de 2015 e 2016. A lenta recuperação da economia desde então não levou a taxa de desemprego para um dígito. Às portas da pandemia ano passado, a taxa de desemprego ainda se encontrava em 11,5%. Mais ainda, utilizando modelos similares ao do Banco Central para capturar a NAIRU (Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment), identificamos resultados muito ruins. A NAIRU é um indicador que mostra justamente o que o nome diz, ou seja, qual a taxa de desemprego de equilíbrio em que a inflação não aceleraria a partir dela. No caso brasileiro, a taxa de desemprego real está 3,5 pontos percentuais acima da taxa da NAIRU. Na verdade, desde a crise de 2015 que o desemprego tem ficado acima dela. Vale lembrar que mesmo nesse período a taxa de inflação ficou relativamente elevada, com média anual de 4,5% de 2015 para cá.

Essa taxa de desemprego estruturalmente elevada é de difícil solução quando se considera que tivemos duas crises profundas em tão pouco espaço de tempo. Quando dizemos que a taxa de desemprego está 3,5 pontos percentuais acima da NAIRU significa dizer que a própria taxa de desemprego neutra está muito elevada, em torno de 11%. Trazer a taxa estrutural para baixo depende de crescimento maior e contínuo nos próximos anos, mas especialmente com elevação da produtividade para que a taxa de desemprego possa cair sem gerar pressão inflacionária. Como se vê, não é tarefa simples, pois a produtividade brasileira tem crescido muito pouco nas últimas décadas, sem sinais de recuperação à frente. Uma queda mais forte da taxa de desemprego para baixo da estrutural poderia fazer com que a inflação acelerasse e o Banco Central tivesse que subir juros com mais intensidade, especialmente sabendo que a meta de inflação para os próximos anos está em queda e deverá chegar a 3% em 2014.

Por mais que a nova Lei de Independência do Banco Central coloque o emprego como ponto de atenção, dificilmente o Banco Central atual, que já está sob mandato pela nova lei, trocará mais inflação por mais emprego. Ou seja, é muito provável que a taxa de desemprego continue elevada nos próximos anos, em parte pela própria necessidade do BC em controlar a inflação.

Mas talvez o mais difícil será lidar com as questões de longo prazo. E essas têm a ver com as aceleradas mudanças tecnológicas dos últimos anos. Nesse sentido, três livros recentes colocam algumas luzes sobre o assunto. Em um tom mais otimista, o novo livro de Philippe Aghion, Celine Antonin e Simon Bunel, The Power of Creative Destruction, considera que, na verdade, precisaríamos aprofundar o avanço tecnológico, o que geraria mais emprego qualificado, mas também não qualificado. A ideia é que o aumento de produtividade ao aumentar a inovação seria de tal ordem que geraria demanda relevante por emprego. Alguns setores e regiões em que isso aconteceu mostram que de fato isso é verdade.

Entretanto, o fato é que são poucos os setores e regiões que conseguem usar a destruição criativa em grau elevado, como o Vale do Silício californiano. O resto da economia tende ser negativamente impactada por não ter o melhor do que se poderia ter do aumento de produtividade.

Os autores sabem disso e um capítulo na parte final do livro coloca o Estado como ponto central para mitigar os pontos de atrito que surgirão para a população que será afetada pela tecnologia. Nesse caso, salta aos olhos alguns modelos de referência, como o “flexicurity” dinamarquês, que mescla proteção social longa no desemprego, com busca ativa por recolocação através de qualificação mais intensa de quem ficou desempregado. Os resultados mostram que o modelo dinamarquês tem permitido uma taxa de desemprego menor, mas também a taxa de desemprego de longo prazo menor, cerca de metade da taxa média europeia. Ou seja, a população desempregada consegue voltar ao emprego com as opções dadas pelo governo.

Esse estado de social democracia que os países nórdicos tem sido exemplo para alguns poderá ser a norma no futuro, especialmente para os Estados Unidos, como acha Lane Kenworth em seu recente livro Social Democratic Capitalism. A solução terá que passar pelo Estado de qualquer maneira.

Em outro livro, mas em tom mais pessimista, está Daron Acemoglu. Redesigning AI: Work, Democracy, and Justice in the Age of Automation coloca a automação como sinal de alerta para boa parte do emprego menos qualificado nos próximos anos. Sem regulação do Estado que direcione os caminhos da inteligência artificial e automação fatalmente as perdas de emprego vão acelerar. Da mesma forma, a solução passa pelo Estado, mas no caso de Acemoglu o papel dele é mais de regulador do que de provedor, em que pese isso ser necessário também em sua visão.

As soluções de proteção e regulação que parecem factíveis para os países desenvolvidos, ficam distantes quando caímos na realidade brasileira. O Estado brasileiro tem um nível de proteção social elevado para a população mais idosa e muito menos para quem é jovem, não à toa quem sofre as maiores taxas de desemprego. Como nos lembra Ricado Paes de Barros e Laura Machado em artigo para o livro do Insper, Legado de Uma Pandemia, “a renda per capita dos idosos no Brasil é 30% maior que a das pessoas em idade para trabalhar (18 a 59 anos) e mais que o dobro da renda per capita das crianças, adolescentes e jovens (até 17 anos).” Esse desequilíbrio de gasto público entre gerações coloca dificuldades para que se tenha uma solução mais de curto e médio prazo que caiba dentro do orçamento. O Estado brasileiro não foi reformado o suficiente para ser útil para quem precisa como será necessário nas próximas décadas.

A tragédia da pandemia terá vários legados e, dentre eles, o mercado de trabalho em meio a um Estado inchado e com acelerado avanço tecnológico talvez será um dos maiores desafios que teremos que enfrentar, sem, infelizmente, soluções fáceis.

Sergio Vale é economista-chefe da MB Associados.

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