Memórias de um empreendedor

Fala-se muito que o bom atendimento a clientes começa nas pessoas. Mas onde e como isso começa?

No início da quarentena escrevi um texto compartilhando minha experiência durante os últimos anos de trabalhar em casa.

Depois de semanas, que já se transformaram em meses, talvez seja bacana compartilhar um pouco dos aprendizados que adquiri com o passar do tempo e que naturalmente servem para o relacionamento entre empresa e cliente.

Fala-se muito que o bom atendimento a clientes começa nas pessoas. Vale lembrar que a pessoa mais próxima somos nós mesmos. Tendo isso como ponto de partida, no post de hoje compartilho uma visão de como podemos melhorar nossa própria caminhada nesta jornada.

Uma das palavras que motiva as pessoas a trabalharem em casa ou mesmo abrirem o próprio negócio é: liberdade. São poucos os que se dão conta que esta liberdade vem acompanhada de outras palavras não menos relevantes: responsabilidade e disciplina.

Se você está ou já esteve em posições de responsabilidade como, por exemplo, empreendedor, sócio, presidente, gerente ou algo similar, sabe que quanto mais alta a posição, menos pessoas você terá no seu encalço para te dizer o que fazer. Por um lado, isso é bom, significa mais liberdade. Por outro, sente-se uma natural falta de direção ou balizamento sobre para qual lado seguir.

Demorei algum tempo para compreender por que algumas pessoas têm reportado trabalhar neste período 12, 14, 16 horas por dia, enquanto no local de trabalho esse expediente se resumia as costumeiras 8.

Uma das poucas posições que um ser humano pode se colocar sem a necessidade de alguém externo cobrando é a de empreendedor. Nas outras existe a possibilidade de se justificar de alguma forma: “Eu estou todos os dias aqui no escritório das 8h às 18h”; “Fiz a minha parte, mas o fulano não cumpriu a dele”; “Preparei tudo, mas o fornecedor não entregou o material”; e assim indefinidamente.

Trabalhar em casa traz a liberdade de se fazer o que se quer, na hora em que se quer, mas também a responsabilidade de se auto organizar, bem como ajustar aquilo que é possível no ambiente, para que o trabalho seja realizado da melhor forma.

Gosto da definição de trabalho do Kahlil Gibran em um de seus poemas: “Trabalho é o amor em movimento.” Na prática diária, trabalho é fazer o que precisa ser feito no momento em que precisa ser feito. Isso pode significar 1 minuto ou mesmo 1 década de dedicação (Para aqueles que são pais e mães sabem que esta ‘posição’ toma bem mais do que alguns poucos meses!).

Uma das coisas que se aprende como empreendedor é que o mundo é como é. Um verdadeiro empreendedor não muda a realidade, ele apenas torna visível aquilo que era invisível aos olhos comuns.

Um empreendedor não é nem de longe aquele que erra menos, mas a pessoa que tem a sensibilidade e a humildade de rever seus passos. E é precisamente esse aprendizado que gostaria de compartilhar hoje, de como fazer esta revisão sistemática sobre os passos caminhados até o momento.

Na minha experiência empreender é colocar a si mesmo dentro da arena de jogo, olhar os próprios defeitos e encontrar formas de solucioná-los. Isso pode significar se tornar um ser humano melhor no final da jornada ou, como é nosso caso aqui no blog, melhorar o relacionamento entre a empresa e o cliente, oferecendo melhores produtos, serviços e atendimento àqueles a quem servimos.

Minha experiência é que o empreendedor tem a coragem de se colocar conscientemente no local de desconforto onde os problemas estão para buscar uma forma de solução.

Esse é um trabalho naturalmente desgastante. A melhor forma que encontrei foi utilizar o silêncio e a “parada obrigatória” como ferramentas para me auxiliar nesta revisão sistemática.

Virando seguidamente noites e trabalhando mais de 14 horas por dia, os finais de semana deixaram de existir como dias no calendário e em algum momento percebi que aquilo não seria produtivo a longo prazo. Dentro da minha agenda a segunda-feira acabou sendo o melhor dia para esta parada. Me organizei para que a agenda ficasse livre neste dia. Passei a anotar todos os problemas que tinham ficado sem solução nos dias anteriores em um caderno. De alguma forma foi como tirá-los da mente e colocá-los “de molho.”

Estas duas práticas (o silêncio e o registro) foram as primeiras ferramentas que foram úteis e que utilizo até hoje.

O silêncio se transformou em períodos de meditação antes de iniciar o dia de trabalho e como fechamento da jornada diária. O aprendizado aqui é compreender que somos menos importantes do que imaginamos, principalmente quando não estamos fazendo o nosso melhor. Rapidamente você irá descobrir que o mundo e seus problemas não deixarão de existir se você parar em algum momento.

Meu caderno de anotações se transformou naquilo que chamaria de a “lista dos 6.” Minha sugestão é organizar o dia para as 6 coisas que devem ser feitas. Isso vale para a semana, para o mês, semestre, etc. Em uma escala de importância chamo o trabalho diário de ‘tarefa’ e a direção, ‘propósito.’ Fique tranquilo conseguir balancear os dois é uma arte, e não uma tarefa.

Descobri que uma revisão pessoal diária rápida (por isso uma parada no final do dia) vale muito ao longo do tempo. Uma revisão semanal e uma mensal ajudam a reorganizar o dia e o período que vem a seguir. Passei a iniciar minha semana no domingo e não mais na segunda-feira (bem, entendo que isso é muito particular!).

O mais importante não é o que você irá colocar ou tirar da usa lista, mas como este movimento se desenrola. Se uma determinada tarefa se repete e não é resolvida, ou ela não é importante ou estamos postergando o trabalho seguidamente. A honestidade aqui talvez seja um bom caminho.

Algo que um empreendedor acaba, inevitavelmente, por descobrir é que o planejamento é um, e a vida cotidiana é outra. Raramente eles se encontram. Saber como incluir ou tirar coisas da lista do que fazer é novamente um aprendizado e uma arte que se ganha enquanto se caminha.

Esta prática de parada e revisão me ajudou em vários aspectos da vida e passei a utilizar também na relação com os clientes, revendo o que precisa ser feito, o que precisa ser mudado e eventualmente o que vale a pena ou não continuar. Do ponto de vista da empresa diria que esta pequena atitude conta e muito ao longo do tempo. Para clientes de continuidade, como é o caso de nossa empresa, isso mostra a atenção, carinho e respeito que dedicamos aos clientes.

Esta não é uma prática que se faça de um dia para o outro e mostre resultados no segundo dia. O segredo não está na prática em si, mas na repetição e nos aprendizados e melhorias que se consegue fazer ao longo do tempo. Algo como Kaizen (melhoria contínua).

Na minha experiência pessoal a simplicidade e a escolha de boas palavras foram essenciais. Meu principal aprendizado foi escolher palavras (tanto para as revisões diárias quanto para os registros no caderno) que não tivessem conflito entre si. Isso acabou sendo algo natural, afinal “resultado somente para acionistas” e “trabalho compartilhado” acabaram ficando ‘desconfortáveis’ dentro da mesma página de trabalho.

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