Em tempos de coronavírus, a densidade se tornou fatal?

Um quarto da população norte-americana vive em dez principais regiões metropolitanas

Sempre que se ouve alguém falar na “América de verdade” como um lugar de cidades pequenas, tenham em mente que hoje em dia a maioria de nós vive nas grandes regiões metropolitanas. De fato, cerca de um quarto de nós americanos vivemos nas 10 principais regiões metropolitanas, das quais a menor, a grande região de Boston, tem quase 5 milhões de pessoas.

Mas a cidade de Nova York é diferente. Ela parece urbana de um jeito que as outras cidades dos EUA não parecem. E os números confirmam essa impressão.

O número para se prestar atenção aqui não é o da densidade populacional pura, que pode ser enganoso: a Grande Los Angeles e a Grande Nova York têm quase a mesma proporção de pessoas em relação ao território, porque L.A. é cercada de montanhas, ao passo que a região metropolitana de Nova York se estende de modo contínuo até a Pennsylvania.

Mas é óbvio que os moradores de L.A. não têm uma experiência urbana como a de Nova York. Em vez disso, o que vale a pena olhar é a “densidade por peso populacional”, que examina quão denso é o bairro em que o cidadão médio mora.

E, com base neste critério, Nova York ocupa uma posição singular, com o morador padrão vivendo em uma área com mais de 31 mil pessoas por 2,5 metros quadrados. (O meu bairro mesmo tem cerca de 60 mil pessoas.) Isso é duas vezes e meia a densidade de São Francisco ou L.A., e quatro vezes a de Chicago.

Alta densidade significa que os nova-iorquinos vivem de modo muito diferente dos outros americanos. É verdade que os subúrbios lembram os de qualquer outro lugar. Porém, aqueles que vivem ou trabalham na cidade ou perto dela fazem compras e se deslocam até a cidade de modos diferentes; é muito mais provável que essas pessoas andem ou vão de transporte público do que os demais no nosso país carrocêntrico.

Há vários pontos positivos deste estilo de vida de cidade densa. Um antigo ditado diz que Nova York é um ótimo lugar para visitar, mas não para viver; isso está precisamente errado. Eu sempre me senti mal pelas multidões agitadas de turistas no centro da cidade; entretanto, se você tem dinheiro para pagar um imóvel – e esse é um se um tanto grande -, a vida cotidiana em Manhattan é surpreendentemente fácil, com tudo de que você precisa a alguns minutos de distância.

Além disso, a “caminhabilidade” facilita muito a prática de exercícios; depois de mudar do subúrbio para a cidade há alguns anos, eu fiquei espantado com o quão mais saudável meu estilo de vida vem se tornando.

E quanto ao crime? O presidente Trump, entre outros, ainda tem uma visão da “carnificina” nas cidades grandes infestadas de criminosos que vem da década de 70, mas nos dias de hoje é notável que Nova York é segura, com os homicídios representando uma fração mínima do seu auge em 1990.

Contudo, de repente a densidade de Nova York vem se tornando um problema com potencial mortífero. Por ora, no mínimo o coronavírus está afetando Nova York de um modo muito pior do que outras partes do país, e é provável que a densidade seja a principal razão: A doença se espalhou muito mais depressa em Nova York do que em outros lugares pelo simples fato de haver muito contato humano.

Pode ser que esse excepcionalismo não dure muito. Nova York vem agindo de maneira firme para reforçar o distanciamento social, o que deve dar retorno em uma ou duas semanas. Eu não me surpreenderia se os casos de coronavírus em outras regiões – como Miami, que tinha praias lotadas não faz tanto tempo, e onde o governador do Estado continua se recusando a tomar medidas mais drásticas – passarem os de Nova York num futuro próximo.

Em todo caso, espero que esta experiência não tenha um impacto de longo prazo no urbanismo em si. Nós não temos de viver todos como os nova-iorquinos, mas é bom para a América – que cresce na diversidade – que alguns de nós o façamos. Além disso, eu quero minha cidade de volta.

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