O amor em tempos de coronavírus

Não era isso o que desejávamos? Um Dia dos Namorados mais humano, mais pessoal, com Wi-Fi do pensamento ligado?

Nesse Dia dos Namorados, não haverá a corrida por motéis, não haverá a preguiça de jantar fora, não haverá os presentes de sempre, veremos menos pelúcia e mais pele de verdade.

Com a pandemia do novo coronavírus, será a data mais pobre dos últimos tempos, mas talvez seja a mais feliz. Todo mundo terá que se virar no fogão, terá que encontrar um jeito de dar um agrado customizado, terá que inovar na decoração além do tradicional caminho de pétalas de rosas até o quarto.

Criatividade só cresce com falta de verba. Talvez finalmente venham as longas cartas de declaração, os bilhetes pendurados nos armários, a faxina das janelas para alguma serenata surpreender os ouvidos.

Retornaremos à manufatura das afinidades, montando playlists e reencontrando a nossa letra. Não escolheremos nada que não surja como uma lembrança devolvida.

Aliás, devolver lembranças dos momentos vividos a dois, justiçando o passado, provando que os enlaces corriqueiros e as conversas mais banais não foram em vão, representarão a mais contundente jura romântica. Porque a gratidão é quando vencemos a luta contra o esquecimento.

A saudade mostrará os seus caninos, depois de tamanha dor, sofrimento e isolamento. Ninguém vai soltar os braços do outro. Abraços serão de lado, de frente, de costas. Os pares estarão sonhando de conchinha sentados.

O celular servirá apenas de testemunha, não mais dividindo a atenção na hora de comer e de se entreolhar.

Viveremos os papéis de domésticos da paixão, de dama e vagabundo puxando o fio do espaguete, com orçamento limitado e produções caseiras. Gastar menos, emocionar mais. Pediremos ajuda aos amigos, dicas aos familiares, para impor elegância na mais completa simplicidade.

Atingiremos a utopia descalça, da cumplicidade indescritível, apartada do pregão digital e da competição pelo presente mais caro.

Não era isso o que desejávamos? Um Dia dos Namorados mais humano, mais pessoal, com Wi-Fi do pensamento ligado? Como em nossos primeiros amores, em que marcávamos o banco da praça ou uma árvore com as iniciais de quem gostávamos em coração flechado? E não precisávamos de posts para existir. O romance era um segredo intenso barulhando lá dentro, numa tempestade de palavras. E bastava unicamente amar e ser amado.


Fabrício Carpinejar - Autor do livro “Colo, por favor! - reflexões em tempos de isolamento” (Editora Planeta)

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