Infância miserável exige agenda nacional

Criança exposta à pobreza tem menos chances de se tornar um adulto saudável

A pandemia vem agravando a chaga secular da miséria endêmica como fator determinante do futuro de milhões de crianças no Brasil. Tragicamente, a insegurança alimentar e a suspensão prolongada do ensino se somaram à antiga exposição à violência cotidiana e às condições insalubres de moradia, fechando um círculo vicioso que reproduz continuadamente a pobreza extrema.

Em qualquer sociedade, não há tarefa mais importante do que proteger a primeira infância – o período que vai até seis anos. É quando ocorrem etapas fundamentais do desenvolvimento físico e mental, capazes de influenciar o comportamento de uma pessoa pelo restante da vida. É por isso que se diz, com razão, que investir na criança é investir no futuro.

O economista e prêmio Nobel americano James Heckman calculou que cada dólar gasto em políticas voltadas a essa faixa etária gera retorno médio de US$ 8. Não há programa social mais rentável. Apostar na qualidade de vida das crianças não é só questão de cidadania. É também a forma mais inteligente de aplicar recursos públicos.

O Brasil, infelizmente, está muito longe de fazer uso dessa inteligência. Fora do alcance do Estado, nossas crianças são submetidas ao que o pediatra Jack Shonkoff, do Centro de Desenvolvimento da Criança da Universidade Harvard, chama de “estresse tóxico”, que pode comprometer seu desenvolvimento.

Seu impacto é duradouro. Jovens sujeitos a esse tipo de estresse na primeira infância adoecem com mais frequência, apresentam menor rendimento escolar, têm dificuldade para interagir socialmente e estabelecer vínculos afetivos.

Quem atua no terceiro setor sabe disso. Ao ser acolhido em um programa cultural, educativo ou de capacitação profissional, o adolescente da favela frequentemente leva consigo um enorme passivo emocional, que precisa ser entendido e enfrentado pelos assistentes sociais antes que qualquer avanço efetivo seja possível.

A regra comporta exceções. Uma família acolhedora, por exemplo, minimiza o impacto negativo do ambiente. Mas não se constrói política pública com base em exceções. O que fazer com as crianças em situação crítica que não têm a sorte de contar com uma estrutura familiar sólida? Abandoná-las à própria sorte, justamente agora, quando os efeitos sociais nefastos da pandemia aumentam a vulnerabilidade psicológica dos pais?

Quando permitimos que parte de nossas crianças experimente muito cedo a dor da barriga vazia, ou circule entre o zumbido das balas perdidas, reduzimos suas chances de um crescimento saudável e de uma vida adulta funcional. Precisamos construir um futuro no qual pobreza e criança não coexistam no mesmo território.

O Brasil deve escolher se continua sócio da miséria ou se quer virar sócio do progresso, em benefício de toda a sociedade. Só um grande pacto coletivo – envolvendo o governo, a iniciativa privada e o terceiro setor – fará com que o país leve a sério o destino de suas crianças. Precisamos de uma agenda nacional que contemple o futuro de uma geração inteira. O aumento da pobreza extrema provocado pela pandemia torna essa tarefa mais urgente do que nunca.

Se miséria gera miséria, também é verdade que oportunidade gera oportunidade.

* Edu Lyra é empreendedor social e CEO da Gerando Falcões

* José Luiz Setúbal é pediatra e vice-presidente do Instituto Pensi

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