Equidade é questão de segurança pública

Não incluir as mulheres em lugares de tomada de decisão, perpetua um ciclo de violência de geração em geração

Quando pensamos em equidade de gênero, assumimos que é apenas uma questão de justiça social e direitos humanos. Claro, também é, mas vai muito além disso. Viver em uma sociedade onde há equidade de gênero não se trata apenas de ter aquilo que é justo, que é certo ou equilibrado. A equidade está diretamente ligada à segurança pública, estabilidade e crescimento de um país. No Brasil, mulheres são 51% da população, não são uma minoria. Não as incluir em lugares de tomada de decisão tem efeitos que vão muito além do perceptível. Perpetua um ciclo de violência de geração em geração.

Em 31 de outubro de 2000, o Conselho de Segurança da ONU adotou a Resolução 1325 sobre mulheres, paz e segurança. Essa resolução aborda e reforça a necessidade de adotar uma perspectiva de gênero ao avaliar o impacto desproporcional que conflitos armados têm sobre meninas e mulheres. Esse foi o primeiro documento formal e legal do Conselho de Segurança que exigia que as partes em um conflito evitassem violações dos direitos das mulheres e apoiassem sua participação nas negociações de paz.

Se a paz é uma premissa básica para termos o que podemos chamar de civilização, o que dizer sobre nossa sociedade quando vivemos em um país que ocupou recentemente o 5º lugar do ranking de mortes de mulheres, que é hoje o 1º que mais mata transexuais, e isso sem estar em um estado “oficial” de guerra?

Não temos garantia da nossa integridade ao sairmos de casa. Muitas vezes não temos essa segurança nem dentro da nossa casa. O economista Francis Fukuyama em seu livro “The Origins of Political Order” afirma que o poder e controle começam no nível da família. Enquanto isso, por aqui, não é raro ouvirmos expressões como “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Isso é um absurdo. Não combater a violência estrutural, sistêmica, visível ou doméstica, é uma forma de compactuar com um futuro onde esse comportamento irá se repetir. A violência que começa em casa, em âmbito familiar, amanhã vai para as ruas. Violência gera violência.

Já o livro “The First Political Order: How Sex Shapes Governance and National Security Worldwide”, das cientistas políticas Donna Lee Bowen e Valerie M. Hudson, aponta que quanto maior a iniquidade em um país, ele tem duas vezes mais chances de ser um estado fragilizado, 3 chances e meia de ser mais autocrático, menos efetivo e mais corrupto, e 1 chance e meia de ser mais violento e instável.

Para ilustrar o impacto positivo de mulheres na resolução de conflitos, temos por exemplo Ellen Johnson Sirleaf, primeira presidente mulher da África, na Libéria, que assumiu o país após uma guerra civil que matou cerca de 250 mil pessoas e que teve que lidar com uma crise de ebola. Como primeira-ministra, trouxe investimentos e infraestrutura básica como canalização de esgoto e água potável. Por seu trabalho de trazer as mulheres para participar dos processos pela manutenção da paz recebeu o Prêmio Nobel em 2011, junto com a também liberiana Leymah Roberta Gbowee e Tawakkol Karman, do Iêmen. Como a maior parte dos personagens históricos, Sirleaf também não esteve isenta de polêmicas, com acusação de nepotismo durante o seu governo e uma declaração controversa em defesa de uma lei que criminaliza os homossexuais.

Outro caso do impacto feminino foi o de Ruanda. Após o genocídio de 1994, que deixou quase 1 milhão de mortos, a maioria homens, as mulheres passaram a compor 70% da população. Elas tiveram que ocupar cargos que antes eram ocupados majoritariamente por eles, o que contribuiu não só para a reconstrução do país, como para o avanço nas políticas de igualdade de gênero, colocando Ruanda ao lado de países nórdicos no ranking do Fórum Econômico Mundial sobre equidade.

E se temos incontáveis obras que recriam e relatam o que foi vivenciar uma das grandes guerras, a narrativa frequentemente é protagonizada por homens. Mas as mulheres também estiveram lá. No caso da Segunda Guerra Mundial, não faltam memórias de mulheres que sofreram o mesmo, se não mais, que os homens que iam para a linha de frente. Algumas dessas histórias estão na obra “A guerra não tem rosto de mulher”, de Svetlana Aleksiévitch.

Precisamos lembrar que as mulheres estiveram e estão em todos os lugares, em todas as épocas, e vivem todas as crises, mas nem sempre podem participar das decisões e resoluções. Temos que lembrar que mulheres vivem um cotidiano diferente dos homens e, por isso, trazem insights importantíssimos para politicas públicas e também para decisões em âmbito privado. Não as levar em consideração na hora de criar resoluções duráveis, simplesmente é uma receita para o fracasso. No nosso caso, é ignorar o olhar de metade da população. Como ser um país próspero sem dar valor para metade dos nossos recursos?

Não podemos deixar que a pauta da equidade para as mulheres seja vista como uma agenda especial, algo extra a ser discutido. É premissa fundamental ter mulheres na construção de políticas públicas, de forma ativa, para evoluirmos como sociedade. Todos ganham com a equidade. Os problemas das mulheres não podem ser enquadrados em um único pacote, pois vivemos realidades muito distintas. Da mesma forma, não podemos considerar os homens como inimigos. Precisamos nos unir e, juntos, construir o mundo que queremos, sem perder de vista que maior inequidade significa maior violência.

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