Quando o vírus passar

O bicho-homem seguirá o mesmo. Mas compraremos online, trabalharemos mais de casa — e estaremos mais ressentidos

De uma coisa podemos estar certos: quando a pandemia tiver passado, a humanidade não ficará mais solidária, não estaremos todos munidos de algum grande e novo insight sobre a existência humana, uma nova era de cooperação e boa vontade não reinará sobre a Terra. Tampouco abriremos mão de nos encontrar, de socializar, de aglomerar de maneira geral. O bicho-homem seguirá o mesmo. Onde pode haver mudança é na incorporação de hábitos que a quarentena forçou sobre nós e que continuarão fazendo sentido depois dela. Alguns mais simples, como a presença de álcool em gel. Outros com impacto econômico e social potencialmente mais amplo.

Rotina
Primeiro, do lado do consumo: muitos de nós não tínhamos o hábito de fazer compras online. Agora, por força da pandemia, muitos se deram conta de como é prático. Sem dúvida, o comércio online deve cair um pouco conforme as medidas de isolamento se afrouxem, mas deve ficar permanentemente acima do patamar pré-covid. O processo vivido pelas livrarias, que estão tendo de se reinventar para sobreviver, chegará também a outras lojas.

Do lado do trabalho, há uma mudança que veio para ficar: muitas empresas descobriram que o home office funciona. Não como um substituto total do trabalho presencial, mas como uma alternativa viável. Ficou resfriado, teve algum imprevisto? Trabalhe de casa. Em outras empresas, será a ida ao escritório que demandará um motivo especial. Para reuniões com pessoas de fora da empresa, a praticidade do encontro virtual é patente. A economia de custos é real. Ambas as mudanças terão como primeiro resultado um ganho de tempo em nosso dia a dia. Em segundo lugar, tenderão a aliviar um pouco o trânsito nas cidades e a reduzir o valor de imóveis comerciais: haverá menos demanda por espaço físico para comércio e escritórios.

Setor público
Antes do coronavírus, o Brasil ainda vivia a angustiante e lenta recuperação da recessão que se estendeu de 2014 a 2016. Ao contrário do que o ministro Paulo Guedes afirmou, não estávamos decolando antes da pandemia. Um de nossos principais desafios, atingir o equilíbrio fiscal, tornou-se ainda mais urgente. A dívida bruta poderá chegar a 98% em 2020. Austeridade rigorosa depois disso está fora de questão: as demandas sociais são muitas. Nossa melhor perspectiva, portanto, é a de uma lenta transição para o equilíbrio fiscal. E isso é especialmente grave porque limita o uso de armas fiscais para nossa recuperação econômica: investimento público e corte de impostos estão fora do arsenal. Restam a política monetária e a esperança de que a agenda de reformas e privatizações traga o otimismo e o crescimento que não trouxe nos últimos três anos. Não há motivos para crer que o consumo privado por si só dará conta do recado: a pandemia torna as famílias mais cautelosas, menos propensas a gastar.

Desdobramentos globais
A pandemia revelou a importância da cooperação internacional. No entanto, tornou-a mais difícil. No plano global, as tensões tendem a subir. Embora tenha sido a primeira nação afetada pela pandemia, a China (assim como outros asiáticos) está tendo uma recuperação econômica rápida, ao contrário do que parece ser o caso dos Estados Unidos. A China aproveitou o momento para se tornar muito mais assertiva em sua diplomacia, auxiliando outras nações no combate à pandemia e dando a seus diplomatas carta-branca para rebater críticos — como tem feito Yang Wanming, embaixador no Brasil. Ao mesmo tempo, outras nações gostariam de ter suas cadeias de produção menos dependentes da China.

Muito do desenrolar das tensões depende do resultado das eleições americanas em outubro. A vitória de Joe Biden parece mais provável, mas já vimos esse filme antes, então é melhor não contar com isso. A tensão entre a China e os Estados Unidos é inevitável, mas com Trump ela se dará de forma mais errática e com o enfraquecimento das redes de cooperação globais. Para um país independente e que busca agora se encaixar na globalização — caso do Brasil —, o momento será ainda mais desafiador. Como não fechar portas a nenhum dos lados se o mundo caminha para uma nova guerra fria?

Aprendemos alguma coisa?
No Brasil, em vez de usar a pandemia para unir o país e curar fraturas políticas, o governo escolheu — pelo menos inicialmente — polarizar o debate ainda mais. Sairemos desta mais desunidos e mais ressentidos uns com os outros. A tensão foi elevada ao limiar da ruptura até junho. De algumas semanas para cá, Bolsonaro parece ter finalmente abandonado a estratégia — desastrosa para ele próprio — de criar conflitos constantes. Mas não há volta para a confiança que ele queimou até agora e para o rastro de ressentimentos criados. Fake news, milícias digitais e cancelamentos continuam na ordem do dia.

A pandemia nos mostrou a importância da cooperação. A precariedade dos órgãos de cooperação internacional — como a OMS — e a negação peremptória do governo federal de exercer seu papel aqui no Brasil tornaram a crise de saúde pública muito pior do que ela precisaria ser. Ao mesmo tempo, essa mesma crise tornou a cooperação mais difícil no futuro. As distâncias aumentaram, assim como os ressentimentos políticos. O coronavírus vai passar. Novas e maiores ameaças — como o aquecimento global — virão. Não será só uma gripezinha…

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