É possível conter o avanço da covid-19?

Estudo mostra caminhos que levaram municípios brasileiros ao sucesso frente à crise do coronavírus. Gestão pública proativa faz diferença

Qual a melhor resposta quando uma crise sanitária gigante, como a provocada pelo novo coronavírus, bate a sua porta? Muito se discute sobre medidas para enfrentar a proliferação da patologia, e a sensação que temos é que ninguém sabe ao certo como proceder.

Contudo, em meio ao mar de informação (e também de desinformação) sobre o vírus, é possível encontrar padrões que levam a uma redução significativa no número de casos e, consequentemente, uma melhor contenção da doença entre os municípios brasileiros. É o que mostra nosso recente estudo aceito para publicação da Revista de Administração Pública.

Com enfoque apenas no nível local, analisamos a evolução da covid-19 nas 52 primeiras cidades brasileiras que, no dia 16 de abril, haviam completado pelo menos 30 dias do primeiro caso confirmado da patologia. O objetivo era verificar quais padrões de resposta definidos por cada municipalidade levaram a uma menor contenção da doença.

Os resultados da pesquisa são intrigantes. Primeiramente, os dados apontam que não há caminho único. O que existem são respostas mais ou menos efetivas dependendo da realidade municipal. Neste sentido, os resultados sugerem três vias principais para se chegar ao sucesso na resposta à crise.

A primeira via, e também a mais óbvia, depende da existência de recursos suficientes no sistema de saúde local. Neste sentido, se o município conta com uma rede de saúde adequada, tanto em número de médicos quanto em leitos por 100 mil habitantes, esta disponibilidade de recursos garante uma resposta efetiva.

Já a segunda e a terceira vias não são tão triviais. E potencialmente são as mais interessantes de serem analisadas no contexto brasileiro. De acordo com os resultados, quando o município não conta com um sistema de saúde adequado, a resposta municipal passa a depender de redes de colaboração e programas de auxílio, em dois caminhos possíveis.

Quando a vulnerabilidade social da população é premente, colaborações entre unidades públicas provendo auxílios emergenciais são necessárias para que os municípios superem a crise a contento (segunda via).

Alternativamente, se os gestores municipais desenvolverem uma rede de colaboração mais ampla, tanto entre unidades públicas, mas também com organizações privadas, com e sem fins lucrativos, a vulnerabilidade social deixa de ser um gargalo no sucesso frente à crise (terceira via).

Ou seja, em um cenário com falta de recursos e com vulnerabilidade social, as parcerias – tanto internas quanto externas ao governo – são fundamentais na contenção da doença.

É interessante verificar que entre os municípios que analisamos, aqueles que seguiram um destes três caminhos reduziram expressivamente a proliferação da doença nos 30 primeiros dias, e ainda mais significativamente nos 30 dias seguintes.

Dessa forma, ainda que não exista como segurar o avanço da covid-19, um bom diagnóstico das condições na localidade e a proatividade na gestão pública podem minimizar, e muito, os efeitos deletérios da crise.

 

Nobuiuki C. Ito, professor do Ibmec São Paulo

Leandro S. Pongeluppe, pesquisador da Universidade de Toronto

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