MP, ClubeTV, Direitos de Transmissão... Mas e o torcedor?

Em meio a tanto debate sobre tudo o que envolve a MP 984, incluindo Direitos de Transmissão, é fundamental entender os hábitos do verdadeiro consumidor

* Por Rafael Plastina

Desde 18 de junho com a entrada em vigor da Medida Provisória 984, não se fala em outro tema senão sobre o futuro dos direitos de arena do futebol brasileiro. Pela Lei Pelé, estes direitos são compartilhados entre mandante e visitante. Com a MP, o direito do mandante prevalece sobre o direito do visitante, ou seja, aquele pode negociar como bem entender com parceiros de mídia, sem a necessidade da anuência do visitante.

Esta Medida Provisória tem força de Lei por 120 dias, podendo ser emendada e votada pelo congresso ao longo desse prazo. Caso nada aconteça, perde força de Lei e desaparece. Em tese, estes 120 dias deveriam ter pouca ou nenhuma eficácia, tendo em vista que os contratos são negociados por períodos de médio prazo, ou por rodadas, em caso de competições de mata-mata.

Ocorre que, justamente esse ano, o Flamengo não assinou com o Grupo Globo para o Campeonato Carioca e, outros três clubes que subiram para o Série A também estão sem contrato vigente. Nestes casos, especialmente o do Flamengo, há a possibilidade de “uso” da MP. Foi exatamente o que fez o Flamengo, ou seja, abandonou de vez qualquer possibilidade de negociação e confirmou a transmissão de seus jogos como mandante no Campeonato Carioca.

Imediatamente estabeleceu-se o estado de guerra polarizada, com torcida nas arquibancadas. Em tempos de pandemia as arquibancadas foram trocadas pelas redes sociais. De um lado, Flamengo e outros clubes dando um grito de independência, de outro um suposto grande vilão, o grupo Globo. No meio do caminho, o torcedor. Este tem dois papéis: massa de manobra, sendo bombardeado de todos os lados com informações distorcidas e, por fim, mas não menos importante, o papel de pagar a conta dessa briga, pois, no final, é tudo sobre audiência.

Nessa linha, antes de qualquer coisa, temos que entender de que plataformas estamos falando e seus respectivos alcances. Começando pela TV aberta que tem penetração acima de 95% da população brasileira, ou seja, cerca de 200 milhões de pessoas. A TV por assinatura tem tido dificuldades em se estabelecer e crescer no Brasil, ao contrário, vem perdendo assinantes sistematicamente. Hoje, são cerca de 15,5 milhões de assinantes, o que significa pouco mais de 50 milhões de habitantes, ou seja, 24% de penetração na população.

Fica claro que o Brasil, em se tratando de televisão em seu conceito tradicional, ainda é fortemente alicerçado na TV Aberta, ficando a TV por assinatura para um nicho importante de mercado focado nas classes A e B. Dados selecionados no Mídia Fatos.

 (Hootsuite/Divulgação)

Já no que diz respeito à internet, o Brasil é uma estrela em ascensão, mas com alguns momentos de pouco brilho. Em termos de usuário, a internet apresenta números robustos, mais de 150 milhões, penetração de 71%. Uma curiosidade é o número impressionante de 205 milhões de celulares conectados, 97% da população. Ainda olhando o lado estrela, o Brasil é o terceiro país em hora/dia de conexão, ou seja, o brasileiro fica em média 09 horas e 17 minutos conectado, contra uma média global de 06 horas e 43 minutos.

 (hootsuite/Divulgação)

Por outro lado, somos apenas o 35º país em velocidade de internet via celular e 32º na fixa. Isso não é bom quando o tema é uso para vídeos. Além disso, ainda dependemos de pacotes de dados com planos limitados, o que inibe o uso, de certa forma. Os dados acima foram tirados do report Global Digital Overview 2020.

Quando o tema é consumo de esportes na mídia, segundo dado da pesquisa Sport Track, a TV aberta (59%) ainda lidera o ranking, seguido da internet (49%). A TV por assinatura aparece em 4º no ranking geral (45%).

 (Sport Track/Divulgação)

Ao investigar a aquisição de transmissões de eventos esportivos, os números encontrados revelam um longo caminho ainda a ser percorrido para que essa estrela digital que é o Brasil, chegue a seu brilho maior, uma vez que, 83% dos entrevistados disseram não comprar estes pacotes. Apenas 17% compram, sendo que destes, 80% pelo sistema PPV e 29% por streaming. Lembrando que as respostas são múltiplas, havendo pessoas que compram via PPV e Streaming ao mesmo tempo.

 (Sport Track/Divulgação)

Com o intuito de ir mais fundo nessa investigação, vale lembrar que o futebol representa 66% de interesse de esportes na mídia, seguido pelo Vôlei com 27%. Mergulhando nos hábitos de consumo das tribos esportivas, vemos o que 8% da tribo do futebol diz fazer uso do streaming, como meio de consumo.

Em uma análise comparativa, estes 8% de consumidores de streaming da tribo do futebol perdem para os 12% de usuários da tribo do automobilismo, para os 14% da tribo das artes marciais, os 13% do ciclismo e os 10% do tênis. Sem falar nos 14% da tribo do Basquete e 15% Corrida de Rua.

 (Sport Track/Divulgação)

Para efeitos de análise, vale destacar os expressivos 14% das Artes Marciais e do Basquete. Sem puxarmos muito pela memória, percebemos que esses números fazem total sentido, uma vez que são esportes que já trilharam um caminho no território streaming e o resultado já é captado nas pesquisas. Por fim, vale destacar que, mesmo perdendo percentualmente, a tribo do futebol é maior em números absolutos.

 (Sport Track/Divulgação)

A título de curiosidade, vale destacar também que, a torcida do Flamengo segue a tribo do futebol, ou seja, apresenta 8% de consumo de futebol via streaming.

Todos estes dados servem para mostrar que não há apenas saídas A ou B, não são os clubes contra a televisão, nem esta ou aquela plataforma. O importante é oferecer o conteúdo para todos os torcedores, onde eles estiverem, pelo maior tempo e valor possível. Com foco no evento, na competição, mostrando que há o compromisso em construir algo maior, com visão de médio e longo prazos.

Em sendo assim, a televisão aberta segue importante em um país com as características do Brasil, pois oferece alcance de pessoas, volume de cobertura e variedade de conteúdo e, em alta frequência. A TV por assinatura traz o lado mais Premium, mais alta renda e quantidade de conteúdo.

Já a internet é o mundo infinito, a estrela em ascensão, mas que precisa ser entendida, especialmente em seus aspectos mais técnicos e de risco. Não é a solução única para construir um futebol forte. Precisa ser legitimada pelo torcedor, pois, estes, deixam claro em seus hábitos de consumo, que não reagirão à mudança da noite para o dia, mas indicam que há um claro caminho pelas redes, também. É necessário planejamento e alta capacidade de implementação, além de humildade em acompanhar e aprender com o que esportes mais pioneiros vem fazendo, conforme achados da pesquisa acima.

Uma estrela em ascensão, mas o brilho é o torcedor!

* Rafael Plastina é CEO da Sport Track e referência na área de marketing esportivo

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