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Por que o etanol do Brasil é uma questão que incomoda tanto os EUA

Em fevereiro de 2025, biocombustível brasileiro entrou no radar de Trump, citado como exemplo de “injustiça” tarifária

Canavial: Fontes do setor sucroenergético temem que Trump pressione pela redução da tarifa de importação do etanol americano, atualmente em 18%. Motivos para isso não faltam. (Leandro Fonseca/Exame)

Canavial: Fontes do setor sucroenergético temem que Trump pressione pela redução da tarifa de importação do etanol americano, atualmente em 18%. Motivos para isso não faltam. (Leandro Fonseca/Exame)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 7 de maio de 2026 às 06h00.

A venda de etanol dos Estados Unidos ao Brasil deve ser um dos temas na agenda do encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump, que acontece nesta quinta-feira, 7.

Os dois presidentes acertaram fazer uma reunião para discutir a relação bilateral. A agenda prevê uma reunião de trabalho de manhã, mas o encontro pode se prolongar até a tarde, segundo apurou a EXAME. A expectativa é de que Lula volte ao Brasil imediatamente após a reunião com Trump.

Em fevereiro de 2025, ao justificar a imposição de tarifas sobre outros países, o etanol brasileiro entrou no radar de Trump, citado como exemplo de “injustiça” tarifária. “A tarifa dos EUA sobre o etanol é de apenas 2,5%, enquanto o Brasil impõe uma taxa de 18% sobre o produto americano”, dizia o documento.

Fontes do setor sucroenergético temem que Trump pressione pela redução da tarifa de importação do etanol americano, atualmente em 18%. Motivos para isso não faltam.

Os Estados Unidos são o maior produtor global de etanol de milho. Nesta safra, o país deve produzir 427 milhões de toneladas de milho, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). Desse total, 35% será destinado à produção de etanol.

Com uma produção elevada e em meio a uma guerra comercial com diversos países, os produtores americanos têm enfrentado dificuldades para escoar a oferta.

Mesmo com a tarifa mais alta, os EUA devem exportar 650 milhões de litros de etanol para o Brasil em 2025/26, um crescimento de 160% em relação à safra anterior, segundo a consultoria Datagro.

O aumento das importações neste ano é impulsionado pela maior demanda, especialmente após a elevação da mistura de etanol na gasolina, que passou de 25% para 30% desde agosto.

Esse fator, aliado à quebra na produção de etanol de cana, tem contribuído para a recuperação dos preços no mercado interno, apesar do avanço da produção de etanol de milho.

Em 2024, os EUA ampliaram suas exportações globais de etanol em 34,8%. Os embarques do biocombustível cresceram pelo 15º ano consecutivo, atingindo um valor recorde de US$ 7,5 bilhões.

Em novembro do ano passado, o governo brasileiro chegou a sinalizar que poderia permitir que fabricantes de etanol dos Estados Unidos participem do RenovaBio, a política nacional de biocombustíveis que estimula a adoção de etanol e biodiesel no país.

"O questionamento para importação de produtos americanos e biocombustíveis está praticamente resolvido", disse o vice-presidente Geraldo Alckmin na época.

O RenovaBio é a principal política nacional voltada à redução das emissões no setor de transportes. Criado em 2017, o programa estabelece metas anuais de descarbonização para distribuidoras de combustíveis.

Etanol dos EUA pode invadir Nordeste

Se o Brasil eliminar as tarifas sobre as importações de etanol dos EUA, o biocombustível americano pode ganhar espaço no Nordeste, região com déficit de oferta. Isso pressionaria os preços internos e afetaria o mercado do Centro-Sul, principal polo produtor do país, segundo a Datagro Consultoria.

“Se o Brasil ceder à pressão de Trump, o mercado, especialmente o nordestino, seria inundado pelo etanol norte-americano, o que reduziria os preços para os produtores em todo o país. Isso também afetaria as transferências de etanol da região Centro-Sul para o Norte-Nordeste, cujo volume médio anual gira em torno de 1 bilhão de litros”, afirma a consultoria.

O Brasil importa etanol dos Estados Unidos por razões comerciais.

Em geral, o país recorre ao biocombustível americano em momentos de alta demanda interna, quando a produção local não é suficiente para suprir o consumo. Esse etanol é utilizado na mistura obrigatória — atualmente em 30% — de etanol anidro na gasolina.

Além disso, há fatores logísticos, já que as regiões Norte e Nordeste estão mais próximas de Houston, nos EUA, de onde o produto é embarcado.

Outro ponto que favorece a importação é o custo. O etanol norte-americano chega às regiões Norte e Nordeste entre 12% e 15% mais barato do que o produto nacional, também de acordo com a consultoria.

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