Tecnologia

Plataforma criada por voluntários do Rio Grande do Sul já resgatou 12 mil pessoas

Diante da catástrofe que assola as cidades gaúchas, a população civil uniu forças para centralizar pedidos de socorro, organizar resgates e conectar vítimas das enchentes

Isabel Rocha
Isabel Rocha

Jornalista

Publicado em 9 de maio de 2024 às 18h02.

Última atualização em 14 de maio de 2024 às 17h50.

O Rio Grande do Sul segue contabilizando as vítimas do maior desastre climático de sua história. Segundo o boletim mais recente da Defesa Civil, divulgado nesta quinta-feira, 9, já são pelo menos 107 mortos, 136 desaparecidos e 165.112 desalojados em decorrência das fortes chuvas que acometem o estado desde o final de abril.

Dos milhares de gaúchos que tiveram de abandonar suas casas às pressas – deixando para trás não “apenas” bens materiais, mas também lembranças de uma vida inteira –, 67.563 estão agora alojados em abrigos públicos.

É verdade que, num país continental como o Brasil, algumas pessoas demoraram mais que outras para tomar conta das proporções da tragédia que atingia a região. Mas, à medida que imagens e relatos tão fortes quanto devastadores começaram a circular pelas redes sociais no último final de semana, centenas de instituições, empresas privadas, coletivos e pessoas físicas começaram a se mobilizar para ajudar com informações, doações, localização e resgate das vítimas.

Foi nesse contexto que nasceu a plataforma Salva RS, um web app criado de forma voluntária e independente por um grupo de professores das áreas de Comunicação, Ciência da Computação e Arquitetura da UniRitter – e colocado no ar menos de 24 horas após o início das enchentes.

Com o objetivo de centralizar os pedidos de socorro que surgiam em diferentes grupos de ajuda e evitar a dispersão de recursos e esforços, o aplicativo conta com duas interfaces distintas: "Preciso de Resgate" e "Consigo Resgatar". Os pedidos de socorro são automaticamente transformados em pontos de geolocalização em um mapa e a rota até o local, traçada em tempo real, é compartilhada com aqueles que têm condições de ajudar.

“Entramos em contato com tudo que é grupo civil organizado de resgate para ter pontos focais e conseguir disponibilizar a informação. Muitos deles estão atuando conosco, além de pessoas dentro da FAB, do Corpo de Bombeiros e do Bope, para levar para as forças do governo os casos mais complexos”, explica Mely Paredes, relações públicas, professora da Fasc Uniritter e uma das idealizadoras do projeto.

Com as limitações de comunicação de boa parte da população (pelo menos 220, dos 497 municípios do estado enfrentam problemas com internet, de acordo com levantamento da Anatel), a confirmação dos resgates efetuados na plataforma ainda é subestimada. Por isso, o grupo incluiu em sua operação um contato para verificação e baixa do registro de resgate, ampliando assim a qualificação das informações antes de serem encaminhadas.

“Também criamos um sistema para verificar todos os dados que estão sendo registrados, excluir pedidos duplicados e informar de forma mais qualificada para os grupos de resgate que a gente mapeou”, explica Mely.

Trabalhando dia e noite

O publicitário gaúcho Andrei Nowa, que já estava mobilizando resgates entre amigos e se juntou à operação do Salva RS, descreve a tensão por trás de cada uma das mais de 2 mil solicitações recebidas pela plataforma na última semana.

“Tem muito pedido, você não faz ideia. [Eles chegam] o tempo inteiro: não é minuto a minuto, é segundo a segundo", diz ele, que também relata estar dormindo em média 2 horas por dia desde quando começaram a atuar, na madrugada da última sexta-feira. “Eu paro literalmente 10 minutos para almoçar e já volto para as operações. É muita tensão, muita coisa ao mesmo tempo”.

Apesar do desgaste com a construção da logística dos resgates, Nowa afirma que a maior dificuldade tem a ver com o aspecto emocional do trabalho, que também envolve ser um porto seguro para as vítimas da tragédia – que, muitas vezes, incluem conhecidos e entes queridos.

"Uma cidade que foi muito destruída é Canoas, que é a cidade da família da minha mãe, onde eu passei minha infância e onde estão meus amigos de colégio. De todos os pedidos de resgate que eu estava envolvido, pelo menos uns dez eram de amigos de infância. Eram pedidos do tipo ‘pelo amor de Deus, salva meus pais’; ‘meus pais estão há 20 e tantas horas sem comer ou beber nada, esperando o resgate’”, desabafou o publicitário.

“Da minha família, sete pessoas perderam tudo. O bairro do meu pai ficou totalmente submerso. Saber que eles estão em segurança agora é um privilégio gigante e todas as pessoas merecem esse privilégio. Então estamos trabalhando dia e noite para ajudar”, complementa Mely.

Até o momento em que essa reportagem foi escrita, a plataforma já havia colaborado com o resgate de 12.220 pessoas.

Salva RS: a amplificação da rede e os próximos passos

À medida que o projeto cresceu, a equipe decidiu somar esforços com outros projetos e iniciativas independentes que também estavam atuando para ajudar no restabelecimento da vida das pessoas afetadas – desde ONGs que preparavam refeições para os desabrigados até projetos de resgate animal. A construção dessa rede unificada de colaboração foi batizada de Projeto Salva.

“São muitas iniciativas que estão trabalhando em conjunto para ajudar as pessoas a serem salvas, terem acesso a água, comida e encontrarem suas famílias. Começamos a atuar em conjunto com elas para unir os dados e evitar informações duplicadas”, explica Mely.

“Juntos, criamos condições para que as famílias encontrem seus entes queridos e a atuação voluntária de resgates aconteça de forma segura, apoiando a atuação do estado e dos municípios nesse momento de emergência”.

Dentre as iniciativas voluntárias que fazem parte do Projeto Salva, estão:

Mesmo trabalhando incansavelmente, a equipe de voluntários do Salva RS já começou a olhar para o futuro – e enfatiza que continuará atuando quando a fase de resgates der lugar ao processo de limpeza e reconstrução das áreas e da vida das pessoas afetadas. “Iniciativas similares, voluntárias e com o mesmo objetivo serão bem-vindas nesse trabalho”.

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