Da pandemia para a Copa: os planos da fintech de biometria facial Payface

Em dois anos, startup de reconhecimento facial já captou R$ 3 milhões em investimentos no primeiro semestre e foi selecionada para projeto no Catar

O uso da biometria facial já não é algo exatamente novo para os brasileiros: pelo menos trinta e sete iniciativas foram lançadas no país com esse foco entre 2018 e 2019, com aplicações principalmente nos setores de segurança pública, transportes e controle de fronteiras. Buscando um filão diferente desse mercado, a startup Payface nasceu em 2018, com o objetivo de usar a biometria facial para autorizar pagamentos em estabelecimentos físicos.

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A ideia para montar a empresa surgiu de uma experiência bastante comum: a demora nas filas para comprar comida nos refeitórios da universidade. Ricardo Fritsche, que voltou a esse ambiente depois de uma trajetória empreendedora inicial de sucesso, começou a pensar em maneiras de tornar esse processo de compra mais acelerado e eficaz. Ao mesmo tempo, seu (agora) sócio Eládio Isoppo procurava uma oportunidade para investir no setor de meios de pagamento, que já estudava há algum tempo.

“Eu conheço o Ricardo há quase onze anos. Estava observando os IPOs (ofertas públicas de ações) de adquirentes e comecei a pensar em formas de entrar nesse mercado. Conversamos e decidimos criar a Payface. Desenvolvi um plano de negócios, que seguimos até hoje, e nele pontuamos todas as fases de crescimento do negócio, a fim de ter um resultado consistente”, afirma Eládio Isoppo, CEO da Payface.

O plano, é claro, prevê crescimento contínuo – que a companhia está conseguindo alcançar. Desde sua fundação, passou por sucessivas fases de desenvolvimento e, este ano, captou R$ 3 milhões em uma rodada de investimentos finalizada em maio. Pouco tempo depois, foi escolhida como a única fintech da América Latina a participar de um programa de aceleradora de startups no Catar.

“Foi algo que surgiu de forma espontânea, com os responsáveis pelo projeto nos acionando diretamente. Ficamos muito felizes com a oportunidade, principalmente pelo potencial que o Catar demonstra, com uma visão de longo prazo a respeito do desenvolvimento tecnológico local e da própria região onde está inserido”, diz Isoppo. Ainda que recente, o contato com o país abre as portas para a startup planejar novos passos no Oriente Médio e norte da África.

E, já que se está no Catar, por que não sonhar com o alcance internacional proporcionado pela Copa de 2022? Esse é um desejo mencionado pelo CEO da companhia. Ainda que não tenha parceiros locais para viabilizá-lo, ele acredita que o contato com o Catar pode ajudar a tirar isso do papel. “Seria um grande passo para a Payface, mas, de qualquer forma, gostamos muito do compromisso de desenvolvimento que o país nos apresentou, com um plano que vai até 2030”, afirma Isoppo.

App de pagamentos está presente em quase todas as regiões do país

App de pagamentos está presente em quase todas as regiões do país (Divulgação/Divulgação)

Enquanto o sonho de milhares de quilômetros de distância ainda não se torna realidade, a companhia direciona seus esforços para crescer localmente. Como parte dessa estratégia, a startup fechou uma parceria com a Software Express, dona de 60% do mercado de Transferência Eletrônica (TEF) no país. Apesar de ser uma gigante “não tão famosa”, a empresa está presente em pelo menos 100 mil estabelecimentos comerciais no país.

Essa presença ampla e diversificada deve dar ainda mais fôlego à Payface. Colocando isso em números: a companhia espera aumentar a quantidade de transações realizadas em sua plataforma em 200% e gerar um aumento de dez vezes em receita já no próximo ano.

Além do impulso dado pela parceria, a startup deve continuar investindo em clientes de estabelecimentos físicos da mesma forma como já vinha fazendo. O foco é direcionado a supermercados, farmácias e lojas que emitem cartões próprios (chamados de Private Label, no jargão). O CEO acredita que o Pix deve intensificar o movimento para meios de pagamento digitais, o que, em certa medida, também colabora para o crescimento da Payface.

“O Brasil tem muitas realidades, tem uma população muito grande que ainda pagava em espécie. Mais da metade dos pagamentos foram feitos em espécie em 2018. Com a pandemia, isso mudou radicalmente, e é um comportamento que não deve voltar atrás. Portanto, enxergamos um potencial significativo par trazer o consumidor que está começando a usar pagamentos eletrônicos”, explica Isoppo.

Com um DNA totalmente digital, é claro que a companhia também estendeu o olhar para além do varejo físico. No primeiro trimestre de 2021, planeja lançar uma solução para pagamentos digitais in-App (dentro dos próprios aplicativos, como fazem alguns apps de transporte, por exemplo). O movimento faz sentido, pensando no aumento contínuo de pagamentos realizados por dispositivos móveis – uma estimativa do ano passado, feita pela FIS, empresa de renome em tecnologia financeira, mostrava que um terço das vendas online já eram realizadas por esses dispositivos.

Tanta inovação e facilidade trazem dentro de si uma questão comum quando se fala de biometria facial: afinal, e a privacidade desses dados?

Para a Payface, é fundamental garantir a segurança dos usuários. A fim de protegê-la, a empresa usa criptografia HSM e desenvolve a maior parte dos softwares que garantem o funcionamento da empresa dentro de casa. Quando não pode contar com soluções totalmente produzidas dentro de casa, a companhia faz parcerias com outras empresas para garantir o serviço aos consumidores. De acordo com o CEO, isso não passa de 10% do total de componentes utilizados pela startup para operar.

“A gente vê muitas empresas tendo a LGPD como uma questão, mas a Payface leva isso em consideração desde o momento em que surgiu. A gente já está atento a essas regras desde o momento em que a GDPR estava presente na Europa e com certeza acompanhamos de perto as discussões no Brasil. Priorizamos muito a segurança”, afirma Eládio Isoppo, CEO da Payface.

Biometria

Especialmente para o mercado de pagamentos, a biometria é vista como uma das principais alternativas para diminuir o índice de fraudes. De acordo com um estudo feito pela Economist Intelligence Unit para a TransUnion, aproximadamente 90% dos executivos brasileiros e 85% dos líderes globais afirmam que esse recurso será popular para autorizar pagamentos dentro de dez anos. O estudo contempla diferentes tipos de mapeamento: impressão digital, reconhecimento facial ou métodos de autenticação de voz.

O relatório, que incluiu respostas de 150 executivos brasileiros e 1.460 do Canadá, Chile, China, Colômbia, República Dominicana, Hong Kong, Índia, Filipinas, África do Sul, Reino Unido e Estados Unidos, afirma que esse avanço pode estar relacionado à criação de um plano nacional de Identidade Digital. A iniciativa é conduzida geralmente por governos, com o intuito de captar os dados da população e servir como uma base de dados confiável.

Apesar do propósito nobre, ceder dados como esses para o governo gera preocupações por parte de cidadãos em todo o mundo. Na China, um tribunal ordenou recentemente que um parque local exclua dados de reconhecimento facial dos visitantes, à medida que as preocupações com a privacidade crescem; no Brasil, o governo de São Paulo anunciou, no Carnaval deste ano, o uso de um algoritmo para analisar imagens captadas pelas câmeras na cidade – e a Justiça pediu detalhes sobre como implementar o projeto. No Rio de Janeiro, uma mulher foi detida por engano após o uso dessa tecnologia.

Como forma de solucionar o problema, mais uma vez, beber da fonte do setor financeiro pode ser a solução. No Brasil, o governo federal estuda um projeto de identidade digital descentralizada, em que cada cidadão teria o controle de suas informações – deixando, estas, de estarem sob o domínio exclusivo de órgãos públicos. A iniciativa está em estudo pelo Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) desde 2017 e explora o uso da tecnologia Blockchain para garantir a segurança desse novo sistema.

Enquanto o setor público tem um passo mais lento para se adaptar às mudanças que a tecnologia é capaz de trazer, o setor privado mantém atenção total a cada nova norma e regulação publicada dentro do setor de meios de pagamento no país – e, às vezes, cria ideias para as quais ainda não existem normas. Foi o caso da Payface. Apesar de ter começado a operar em 2018, a norma do Banco Central que regulamenta a operação de iniciadores de pagamento – empresas capazes de fazer a ponte entre consumidores e comerciantes, sem intermediários – foi regulada somente este ano.

Inovação é o que rege essa startup criada em Florianópolis. A pandemia e a Copa do Mundo são apenas alguns passos rumo à sua trajetória de continuar de olho no futuro dos meios de pagamento.

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