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Prepare-se para próxima onda da robotização, diz professor do MIT

Para Daron Acemoglu, um dos economistas mais respeitados do mundo, as sociedades devem se preparar agora para batalha entre robôs e humanos pelo emprego

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Daron Acemoglu, do MIT: “Se treinarmos as pessoas agora, aumentaremos a chance de elas terem trabalho no futuro. Mas temos de começar logo” (Foto:/Divulgação)

Daron Acemoglu, do MIT: “Se treinarmos as pessoas agora, aumentaremos a chance de elas terem trabalho no futuro. Mas temos de começar logo” (Foto:/Divulgação)

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Eduardo Salgado

Publicado em 27 de julho de 2017 às, 05h55.

Última atualização em 30 de agosto de 2017 às, 17h37.

Cambridge, Massachusets — Daron Acemoglu, professor de economia no Instituto de Tecnologia de Massachusets (MIT), uma das melhores universidades americanas, tornou-se conhecido do grande público em 2012. Foi quando publicou, juntamente com James Robinson, economista britânico da Universidade de Chicago, Por Que as Nações Fracassam, livro sobre o papel das instituições no desenvolvimento.

De fácil leitura, a obra virou um best-seller entre as publicações de economia. Antes disso, Acemoglu, nascido na Turquia numa família armênia e hoje cidadão americano, já era uma estrela entre seus pares. Em 2005, ganhou a medalha John Bates Clark, concedida anualmente ao pesquisador com menos de 40 anos que tenha dado a maior contribuição ao pensamento econômico e considerada a antessala do Nobel.

Acemoglu até agora não foi chamado pelos suecos, mas continua no páreo. Considerando-se os últimos dez anos, ele é o economista mais citado por outros economistas em artigos acadêmicos. Numa tarde chuvosa, Acemoglu recebeu EXAME em seu espaçoso escritório no MIT com vista para o rio Charles, em Cambridge, ao lado de Boston, para falar sobre a robotização da indústria, um dos temas a que ele tem dado mais atenção recentemente.

EXAME – Há muito temor em torno do futuro do emprego ante as novas tecnologias. Nos Estados Unidos, por exemplo, o número de empregos no setor industrial caiu de 17 milhões nos anos 90 para cerca de 12 milhōes hoje. Como explicar esse fenômeno?

Daron Acemoglu – Numa análise bem ampla, dois fatores explicam esse movimento. Um é a tecnologia; e outro é o comércio internacional. Em boa parte do século 20, houve uma mudança estrutural importante. Diante de uma crescente demanda por serviços, os empregos foram migrando do setor industrial para o de serviços.

Mas não é isso que tem acontecido nos últimos 30 anos, pelo menos não nos Estados Unidos e em outros países ricos. Como sabemos? Nas últimas três décadas, a produção industrial tem continuamente aumentado, assim como o consumo de produtos industriais. Isso nos permite concluir que estamos fazendo mais produtos industriais com a elevação da tecnologia nas fábricas e também por meio do comércio com outros países.

EXAME – Qual foi o peso do comércio exterior na perda de empregos industriais?

Daron Acemoglu – A estimativa mais aceita é que a China foi responsável por 1 milhão das 5 milhões de vagas perdidas nos Estados Unidos desde o ano 2000. Os ramos industriais com baixo uso de tecnologia são os que mais sofreram com a concorrência estrangeira. Falo de têxteis, roupas, móveis e brinquedos. Dito isso, há evidências suficientes para dizer que a tecnologia e a automação das fábricas foram o principal fator.

Trabalhos rotineiros mais simples têm sido substituídos por softwares ou máquinas de vários tipos. Quando falamos do impacto da tecnologia, essa é a parte que teve mais peso. Mais recentemente, houve outra mudança importante. Tarefas mais complicadas, que exigiam mão de obra especializada, começaram a ser executadas por robôs. O movimento é mais forte em setores como automotivo, eletrônico, metalúrgico, químico e farmacêutico.

EXAME – Qual foi o impacto dos robôs no emprego?

Daron Acemoglu – Minha estimativa é que cerca de 500 000 empregos nos Estados Unidos tenham sido perdidos para os robôs nas últimas duas décadas. Podia ter sido bem mais. A verdade é que a indústria americana ainda é pouco robotizada em comparação com a de Japão, Coreia do Sul e mesmo Alemanha. O problema não é de acesso à tecnologia, mas demográfico. Japão, Coreia do Sul e Alemanha têm uma população mais velha. Os Estados Unidos se beneficiaram por ter uma população mais jovem, resultado, em certa medida, da imigração. Além disso, os trabalhadores da indústria nos Estados Unidos têm uma renda inferior à dos trabalhadores desses outros países, o que desencoraja a adoção de robôs. Mas o processo de robotização deve ganhar fôlego nos próximos anos.

EXAME – Por que o ritmo da robotização e de outros processos de automação deve aumentar?

Daron Acemoglu – Temos no horizonte uma dúzia de tecnologias com grande potencial de transformar os processos de -produção. Falo desde as aplicações de inteligência artificial até os carros autônomos. A inteligência artificial poderá acabar com muitas vagas de trabalho em serviços financeiros, no campo do direito, na área tributária e no setor de atendimentos por telefone, somente para dar alguns exemplos. Devemos presenciar grandes transformações nos próximos dez anos. E precisamos nos preparar para elas.

EXAME – Ao longo da história da industrialização, as pessoas foram perdendo o emprego para as máquinas e se recolocando em outras áreas. Por que deveríamos nos preocupar agora?

Daron Acemoglu – Não acho que exista razão para pânico. Mas o fato é que a questão da automação tem passado em branco tanto no meio acadêmico quanto no meio político. Há poucos estudos nessa área. Os últimos três presidentes americanos, Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama, não trataram desse assunto. Donald Trump também não está tratando. Do meu ponto de vista, devemos estudar o que está acontecendo para entender como podemos garantir a prosperidade para a sociedade como um todo. Sim, a automação está presente desde o começo da Revolução Industrial, mas em cada estágio ela produziu vencedores e perdedores.

Entre 1760 e 1850, primeira parte da Revolução Industrial na Inglaterra, a mecanização não aumentou o salário dos trabalhadores. Ao analisar o período entre a década de 30 e a de 80 do século passado, constatamos uma situação bem diferente. Houve prosperidade para a maioria dos trabalhadores. Portanto, por um lado, precisamos estudar e descobrir o que devemos fazer para repetir as melhores décadas do século 20 e, por outro lado, para evitar o começo da Revolução Industrial. Do meu ponto de vista, é urgente olhar para essa questão.

EXAME – A tendência não é a desigualdade social aumentar num mundo em que haverá poucos donos de robôs e muitos trabalhadores sem emprego?

Daron Acemoglu – Sim. Os donos de robôs, os programadores e todos aqueles com habilidades escassas vão ganhar dinheiro. A automação já tem sido uma força atuante no aumento da desigualdade social. Mas, na minha opinião, a grande questão é o trabalho. A queda do número de empregos deve-se ao fato de que uma parcela dos trabalhadores não apresenta as habilidades que a era da automação demanda.

Se conseguirmos nos antecipar e treinar as pessoas para que tenham as habilidades que serão demandadas nas próximas décadas, poderemos aumentar a chance de essas pessoas conseguirem trabalho. Isso combaterá a desigualdade. Mas temos de começar logo. Com as evidências que temos atualmente, podemos dizer que uma sociedade e uma democracia saudáveis precisam ser capazes de criar mais empregos. Não adianta apenas centrar a atenção nas políticas voltadas para a distribuição da riqueza e do lucro obtido com os robôs. Nosso maior foco tem de ser a geração de empregos.

EXAME – Deveríamos aumentar a tributação sobre os mais ricos?

Daron Acemoglu – Isso é parte da solução. Até porque criar um sistema de educação pública voltado para as necessidades dessa nova realidade do mercado de trabalho não será barato. O retreinamento de mão de obra também exige investimentos públicos. O que estou dizendo é que o foco não é taxar, e sim criar empregos com -salários maiores. A atual discussão sobre a criação de uma renda universal básica está errando o alvo. A palavra-chave é trabalho.

EXAME – Quais são as implicações do aumento da automação para as políticas públicas?

Daron Acemoglu – É preciso adotar processos mais eficazes de recolocação de trabalhadores. Há exemplos de países em que os trabalhadores são comunicados que serão demitidos seis meses antes. Durante esse período de tempo em que ainda estão trabalhando na empresa, sāo incentivados a se reciclar e a encontrar um novo emprego. É preciso investigar e adotar as políticas que funcionam. Nas escolas, precisamos preparar os jovens para ser trabalhadores mais flexíveis, capazes de tomar decisões e de trabalhar em grupo.

EXAME – O senhor acredita que o processo de robotização e de automação também vai chegar com força aos países em fase de desenvolvimento, como o Brasil e a China?

Daron Acemoglu – O caso dos países em desenvolvimento não tem recebido muita atenção. Certamente veremos o aumento da automação, mas num ritmo menor, por um motivo simples: a mão de obra é mais barata. Existem exceções, porém. A China tem investido na robotização. Em parte porque a população chinesa está envelhecendo e em parte porque o país quer se preparar para o futuro. O ponto central, para mim, é que os efeitos dos robôs serão sentidos nos países em desenvolvimento mesmo que eles não os utilizem.

O caminho do desenvolvimento que muitos países adotaram no século 20 — do Japão ao Brasil — foi começar com uma indústria com uso intensivo de mão de obra. À medida que o tempo foi passando, esses países foram subindo a escada. Criaram ou adotaram tecnologias mais avançadas e começaram a produzir produtos mais sofisticados. Com a crescente robotização das fábricas nos países desenvolvidos, esse caminho para o progresso será bloqueado. A mão de obra barata dos países em desenvolvimento não estará mais competindo com a mão de obra cara dos países desenvolvidos, mas com os robôs. Será preciso, então, encontrar outro caminho.

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