ECONOMIA

A super China na berlinda: país cresceu 90 vezes em 40 anos, mas e agora?

Em duas gerações, a China saiu da fome profunda para único grande país a não ver crise nem na pandemia. Mas do novo governo Biden ao episódio Jack Ma, o foguete chinês tem uma enorme leva de desafios

A China divulgou nesta segunda-feira, 18, seu pior crescimento em 45 anos. Mas a notícia poucas vezes foi tão boa para os chineses: o país confirmou as expectativas e será possivelmente a única grande potência a ter crescido em um dos piores anos da história da economia mundial. Além do crescimento anual de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB), acima do consenso dos economistas, o PIB chinês superou pela primeira vez a marca de 100 trilhões de iuanes, ou mais de 15,4 trilhões de dólares.

Os números são astronômicos. Desde o fim dos anos 70, quando Deng Xiaoping começou a fazer reformas de abertura da economia do país, o PIB chinês subiu mais de 9.000% -- ou 90 vezes. No mesmo período, o PIB dos Estados Unidos foi de 2,6 trilhões para 21 trilhões de dólares, um avanço de oito vezes.

A escala chinesa é ainda mais espetacular se for levado em conta que nos anos 60 o país, liderado por Mao Tsé-tung, enfrentou uma onda de fome que matou 45 milhões de pessoas. Numa escalada lunática para crescer economicamente, Mao obrigava os cidadãos a queimarem até suas panelas em auto-fornos para produzir aço.

Deng Xiaoping foi mais bem-sucedido, com uma visão capitalista voltada para a exportação e que se aliou a uma retórica marxista-leninista na condução política. Em sua biografia "Uma Terra Prometida", o ex-presidente americano Barack Obama afirma que em 2009 já estava claro que "se havia algum país capaz de desafiar a supremacia americana no cenário mundial, era a China". A pandemia escancarou a ambição chinesa -- e as contradições que podem dificultar novos saltos.

O efeito covid

Para 2020, a expectativa do Banco Mundial é que o PIB dos Estados Unidos tenha encolhido 3,6% e o da zona do euro, 7,4%. Os números oficiais serão divulgados nas próximas semanas. Em relatório no ano passado, a OCDE lembrou que, por ora, a recuperação econômica global em 2021 deve vir muito mais da China do que das potências do Ocidente.

Atividade com professores e alunos em Hubei, província onde começou o coronavírus: taxas positivas de educação impactaram no avanço da economia

Atividade com professores e alunos em Hubei, província onde começou o coronavírus: taxas positivas de educação impactaram no avanço da economia (Costfoto/Barcroft Media/Getty Images)

Sair da pandemia com perspectivas melhores do que as americanas e europeias é mais uma das coroações para a economia chinesa em meio à guerra comercial dos últimos anos. Não só. Na crise da covid-19, a China deixou claro ao mundo a importância de sua indústria na cadeia de suprimentos -- das máscaras a vacinas, peças de respiradores ou eletrônicos do home office. A fatia chinesa no comércio global foi de menos de 4% em 2000 para quase 18% no ano passado.

Com os números de 2020, a China dá ainda mais um passo na trajetória de se tornar a maior economia do mundo, superando os Estados Unidos. Uma das previsões mais recentes, divulgada no fim do ano, indica que a China deve ultrapassar os Estados Unidos como país mais rico do mundo já em 2028, cinco anos antes do previsto pré-pandemia, segundo a consultoria britânica Centre for Economics and Business Research

A partir de agora, os primeiros meses de 2021 serão cruciais para entender os caminhos que a China deve traçar nesta nova década. O ano trará o começo do mandato de Joe Biden à frente dos Estados Unidos, e deixará claro se a nova gestão americana e o presidente chinês Xi Jinping chegarão a algum acordo que atenue os embates. Também trará aos chineses outros desafios: seguir contendo o coronavírus, manter o gigantesco mercado interno funcionando, acertar a mão nos incentivos à economia e, da porta para a fora, conter as críticas a seus desmandos antidemocráticos.

"O que vimos em 2020 foi como a China conseguiu, de forma ordenada e de cima para baixo, controlar o vírus. A cada início de onda já havia um protocolo de lockdown organizado e duro, o que é facilitado por um regime não democrático", diz o economista Arthur Mota, da Exame Research.

O número de casos sob controle permitiu à economia chinesa girar de forma relativamente normal na comparação com potências do Ocidente. A segunda onda, como no resto do mundo, preocupa. Mas se a pandemia seguir sem grandes surpresas na China em 2021, a perspectiva para o ano é de crescimento forte, na casa dos 8%, segundo projeções como do Banco Mundial e do banco UBS. "Para este ano, a preocupação maior será como o governo irá conduzir as medidas de crédito ao longo do ano, o que pode afetar tanto o setor produtivo quanto o consumo ao longo do ano", diz Mota.

Placa de "Feliz Ano Novo" em Xangai, na China: projeção é que o país cresça na casa dos 8% em 2021

Placa de "Feliz Ano Novo" em Xangai, na China: projeção é que o país cresça na casa dos 8% em 2021 (Aly Song/Reuters)

Como em outros países, que despejaram dinheiro na economia diante da crise do coronavírus, a política de crédito chinesa será importante para aquecer o mercado interno, que apesar da alta no PIB, mostrou seus sinais de esgotamento em 2020. O varejo sofreu ao longo do ano, embora o crescimento de 6,5% do PIB chinês em dezembro mostre algum retorno à normalidade pré-pandemia.

Ainda assim, a indústria cresceu mais do que o consumo, e só conseguiu se expandir devido às exportações, ainda que com um mercado global menos aquecido diante da pandemia. A China, em meio à crise mundial, foi capaz de fortalecer seu papel de fornecedora do mundo. Mas o poderio do mercado interno -- o mesmo responsável por fazer do país a potência que é hoje e ser um escudo às crises globais passadas -- será colocado à prova no médio prazo. Há, afinal, um limite para o poder de consumo da potência de 1,3 bilhão de habitantes?

Um processo de envelhecimento da população nas próximas décadas, parecido ao que já sofrem países desenvolvidos, pode ainda acentuar os desafios e aumentar a ampla desigualdade social no país. "A semelhança do que aconteceu no passado não é garantia de que o tremendo sucesso dos últimos 40 anos prossiga ininterrupto. Enriquecer antes de envelhecer permanece um desafio entre questões de liberdade econômica e envelhecimento demográfico acelerado", diz Diogo Castro e Silva, investidor e ex-diretor geral do Grupo Fosun para a América Latina.

A era Biden

No mercado externo, a briga com os EUA deve continuar. Nestes primeiros dias de 2020, o Pentágono colocou a Xiaomi em uma lista de segurança, o que deve reduzir investimentos americanos. A Huawei, por sua vez, já estava proibida de vender no país e no centro dos embates da guerra comercial. As duas companhias chinesas, mesmo assim, ultrapassaram a Apple nos anos anteriores e se tornaram a segunda e terceira maiores fabricantes de smartphones do mundo. Já o TikTok, app da chinesa ByteDance que virou febre mundial entre os jovens, se tornou o alvo preferido do governo Trump no ano passado -- e a dúvida para 2021 é como vai funcionar um acordo com a Oracle e o Walmart para "americanizar" a gestão do TikTok nos EUA.

A novela seguirá no governo Biden. A perspectiva até agora é de que pouca coisa mude para além da retórica menos agressiva do gabinete do democrata, dizem os analistas. "Pelo menos em um primeiro momento, diversas medidas tomadas contra a China pelo governo Trump não serão significativamente atenuadas pelo governo Biden, a não ser aquelas que estão claramente prejudicando as próprias empresas americanas", diz o professor Luís Antonio Paulino, do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Unesp.

Ainda que sem um acordo agressivo no governo Biden, há limites sobre o quanto China e EUA podem fugir uma da outra. A própria Apple se tornou o exemplo máximo da integração sino-americana, ao fabricar seus iPhones em Taiwan, na Foxconn, e ter na China um de seus principais mercados consumidores. Outras empresas americanas também anseiam o mercado de mais de 1 bilhão de chineses. Na China está, por exemplo, o mercado de luxo de maior crescimento no mundo.

Na outra ponta, ainda vêm da China boa parte dos produtos consumidos nos EUA. Em setores de produtos para casa, por exemplo, a estrela da pandemia, os chineses respondem ainda por mais de 50% do mercado americano em setores como brinquedos, decoração, computadores e livros, "apesar da guerra comercial e das tarifas impostas", escrevem os analistas do banco Goldman Sachs em relatório a clientes.

Mesmo na guerra comercial, os EUA comparam quase 400 bilhões de dólares em produtos chineses em 2020, muito mais do que exportaram, gerando um déficit na balança comercial com a China de mais de 280 bilhões de dólares.

Por isso, segundo a National Bureau of Economic Research, as tarifas aplicadas aos produtos chineses levaram a uma perda de renda anual aos consumidores americanos de 16,8 bilhões de dólares em 2018, últimos dados disponíveis. E os investimentos das empresas americanas seguiram subindo, de 12,9 bilhões em 2016 para 13,3 bilhões em 2019, segundo o Rhodium Group.

O comércio não parou. Mas a China também tem enfrentado na guerra comercial o desafio de ter alguns mercados fechados para seus produtos, o crescente escrutínio global sobre suas tecnologias -- como o 5G -- e a dificuldade em comprar produtos para sua indústria, como chips de computador, que antes vinham dos EUA. No novo Plano Quinquenal chinês, que dita os objetivos para o período 2021-26, o mote é fazer mercado interno e externo “se complementarem” e aumentar a independência chinesa, segundo Xi Jinping, o que aponta de forma clara que a China se prepara para uma guerra comercial duradoura.

"A indústria chinesa em setores tradicionais tem ajudado os EUA a manter sua inflação muito baixa. Os americanos compram roupa barata, carro barato, iPhone barato. E isso foi muito importante para os EUA nos últimos anos", diz o professor Mauro Rochlin, dos MBAs da Fundação Getúlio Vargas. "É realmente na fronteira tecnológica, como no 5G, que a coisa muda de figura."

Linha de produção em Jiangsu, leste da China: indústria do país se beneficiou sobretudo das exportações durante a pandemia

Linha de produção em Jiangsu, leste da China: indústria do país se beneficiou sobretudo das exportações durante a pandemia (Costfoto/Barcroft/Getty Images)

O caso Jack Ma

O desafio chinês será equilibrar sua busca pela "fronteira" da tecnologia em meio a um ambiente com cada vez menos liberdade política interna. O sumiço do bilionário Jack Ma após suas críticas recentes ao governo e à regulação no país fizeram o empresário dono da Alibaba virar persona non grata.

No passado, outros empresários já haviam sido detidos ou entrado em rota de colisão com o Partido Comunista. Mas o embate com Ma mostrou que nem mesmo as estrelas da ascensão tecnológica chinesa passarão ilesos caso discordem de Pequim. Outro símbolo de prosperidade, Ma Huateng, dono da holding Tencent, também tem sido alvo de constante escrutínio.

"Antes havia medo de o governo estatizar essas empresas que acabam se tornando maiores que o partido, sobretudo na visão do Ocidente. Mas hoje eles podem simplesmente aumentar a participação estatal no IPO ou em outros momentos, conseguindo o controle pelas vias do mercado", diz Mota, da Exame Research.

Para o economista, o caso de Ma é "emblemático", pesa na imagem de governança das empresas da China no exterior e na decisão dos investidores diretos. "Mas não deve ser, de forma isolada, um vetor que impeça sua consolidação como potência."

Jack Ma ao abrir capital da Alibaba em Nova York, em 2014: estrelas da ascensão chinesa, grandes empresas de tecnologia também estão na mira caso discordem de Pequim (Photo by /Getty Images)

Jack Ma ao abrir capital da Alibaba em Nova York, em 2014: estrelas da ascensão chinesa, grandes empresas de tecnologia também estão na mira caso discordem de Pequim (Photo by /Getty Images) (Andrew Burton/Getty Images)

O embate entre o então maior bilionário chinês e o governo mostra que a China caminha para se tornar a maior economia do mundo sem ter acertado seus dilemas internos. Após a morte de Mao Tse-tung, responsável pela ascensão comunista em 1949, foi nas mãos do líder Deng Xiaoping em 1976 que o país iniciou a série de reformas que mudariam sua economia sempre. Deng encorajou o comércio internacional, reestabeleceu laços com os EUA e permitiu investimento estrangeiro, sobretudo em áreas de exceção, que levariam ao crescimento de megalópoles modernas como Xangai e Shenzen.

Seu sucessor, Jiang Zemin, continuou as reformas econômicas, mas também mostrou o que viria a ser a China moderna: apesar da experiência capitalista na economia, a política não seguiria os moldes politicamente liberais do Ocidente, o que levou a episódios como o sufocamento da oposição depois dos protestos na Praça da Paz Celestial. Naquele fim de século, ficou claro que não haveria espaço na China para vozes dissidentes.

O playbook foi mantido pelo atual presidente Xi Jinping desde que ele chegou ao poder, em 2012. O maior exemplo atual vem dos embates políticos recentes em Hong Kong. Neste ano, ativistas como Joshua Wong e Agnes Chow, líderes dos movimentos de oposição, foram não só presos por alguns dias, mas condenados pela primeira vez. Com a nova lei de segurança nacional, a China encerra de vez o sistema de "um país, dois sistemas" que vigorava na ilha desde a devolução do Reino Unido a Pequim, em 1997, e que fez de Hong Kong a principal porta de saída da China para o mundo capitalista ocidental. É nesta frente que o novo governo Biden, por sua vez, tende a subir o tom nas pressões diplomáticas contra violações de direitos humanos e de liberdades democráticas.

Os aliados do Sul

Enquanto bate de frente com os EUA e fecha os olhos para suas controvérsias internas, a China quer ainda assegurar seu papel de campeã dos países do Sul. A corrida pelas vacinas -- somado à política externa frágil da era Trump, que pouco se esforçou para se aproximar de parte dos aliados estrangeiros -- deixou claro o tamanho do poderio chinês nesta frente.

Países como Brasil, Turquia, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e outros farão todos o uso de alguma vacina chinesa. É com uma das vacinas chinesas, da estatal Sinopharm, que os Emirados Árabes Unidos já são o segundo país com maior taxa da população vacinada, mais de 15%, só atrás de Israel. É também com uma vacina chinesa, da Sinovac, que o Brasil começou nesta semana sua imunização. Com os países mais ricos reservando quase toda a carga das primeiras vacinas aprovadas, como as da Pfizer e da Moderna, além de outras em desenvolvimento, coube à China estender a mão aos países mais pobres na oferta dos imunizantes.

Vacina ao Sul: quase 100 países têm algum tipo de acordo de compra de vacina ou empréstimo para compra com o governo chinês, segundo levantamento da Bloomberg

Vacina ao Sul: quase 100 países têm algum tipo de acordo de compra de vacina ou empréstimo para compra com o governo chinês, segundo levantamento da Bloomberg (Bloomberg/Bloomberg)

Outros dois marcos do novo imperialismo chinês vieram no fim do ano passado. A China e outros 14 países da região do Pacífico asiático fecharam o que é até agora o maior acordo comercial do mundo, a Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP na sigla em inglês). O bloco comercial abrange um mercado de 2,2 bilhões de pessoas e 26 trilhões de dólares, ou um terço do PIB global. Para além dos tradicionais parceiros chineses no sudeste asiático, o RCEP abrange nomes como Austrália, Coreia do Sul, Nova Zelândia e Japão, aliados dos EUA.

Também no apagar das luzes do ano passado, já em 30 de dezembro, China e União Europeia assinaram um acordo de investimentos. No tratado, a China se comprometeu com um nível “sem precedentes” de acesso a seu mercado para investidores da UE, “dando às empresas europeias segurança e previsibilidade para suas operações”.

"A China deixou há muito tempo de 'pedir licença para os Estados Unidos' para definir suas ações em nível internacional. E aliados tradicionais dos Estados Unidos, sobretudo na Europa, não estão mais dispostos a seguir cegamente a orientação norte-americana na definição de suas parcerias estratégicas", diz Paulino, da Unesp. Para o professor, o acordo China-UE é um exemplo, assim como a dificuldade do governo Trump em fazer os europeus desistirem do 5G da Huawei. 

Para o Brasil, muito além das vacinas, o crescimento da China traz frutos palpáveis já há mais de uma década. As vendas brasileiras para a China totalizaram mais de 67 bilhões de dólares em 2020, um terço das exportações brasileiras e alta de quase 7%. Só a soja e o minério de ferro somaram, juntos, quase 60% do que foi exportado à China. A demanda chinesa, junto à alta do dólar frente ao real, são em parte responsáveis pelas altas recordes no PIB agrícola brasileiro, a única frente a crescer em 2020 -- enquanto o Brasil deve ter fechado o ano com recessão acima dos 4,5%.

Para Mota, da Exame Research, ainda que algum acordo China-EUA faça os chineses voltarem a comprar soja dos americanos, os impactos no agro brasileiro serão mais rumo a uma normalização, mas não com quedas bruscas. "A China vai seguir sendo o principal mercado para os produtos brasileiros", diz. "A normalização do crescimento nesse ano na China segue sendo um vetor de suporte importante para a economia brasileira, como foi também ao longo de todo o ano de 2020, mesmo em momentos difíceis."

Na outra ponta, o Brasil também segue precisando da China para adquirir uma série de produtos industriais, como máquinas e eletrônicos. Em 2020, foram 34 bilhões de dólares em importações brasileiras (quase metade do que foi exportado, mas que ainda faz da China o país do qual o Brasil mais compra, à frente dos EUA).

A China é a maior parceira comercial do Brasil e comprou um terço das exportações brasileiras em 2020

O ano na relação sino-brasileira terá como marco o leilão do 5G no Brasil, adiado no ano passado e previsto para os próximos meses, embora ainda sem data confirmada. Em 2020, os EUA, sob Trump, pressionaram para que o Brasil impedisse a Huawei de participar do leilão.

Na visão de Rochlin, da FGV, um novo governo Biden deixa o Brasil mais livre para negociar igualmente com China e EUA, ao contrário do alinhamento com os americanos que tem marcado os anos do presidente Jair Bolsonaro até agora. "Os chineses adotaram uma postura pragmática e seguiram fazendo comércio com o Brasil apesar das declarações do presidente Jair Bolsonaro e seus filhos", diz. "Mas o Brasil hoje, sob um governo Biden, deve ficar mais à vontade para fazer uma política que vá a favor de seus próprios interesses."

Xi Jinping e Biden: não há, por ora, expectativa de que haja um grande acordo sino-americano na nova gestão Biden

Xi Jinping e Biden: não há, por ora, expectativa de que haja um grande acordo sino-americano na nova gestão Biden (Lintao Zhang/Getty Images)

Assim, a pandemia consolida não só o crescimento econômico chinês, mas seu papel de império global. Muito para um país que começou o século 20 com fome extrema, ocupações japonesas e, por fim, uma guerra guerra civil levaria ao poder Mao Tse-tung e o Partido Comunista Chinês.

O problema é que, como em outras potências capitalistas, a riqueza gerada pela globalização se tornou mal distribuída. Estimativas apontam que, enquanto a fatia da renda nacional dos 10% mais ricos da população cresceu de 27% em 1978 para 41% em 2015, a renda dos 50% mais pobres caiu de 27% para 15%, segundo números de um estudo liderado pelo francês Thomas Piketty ao lado dos economistas Li Yang e Gabriel Zucman.

Como nas potências do Ocidente, a desigualdade social crescente na China e o envelhecimento da população são desafios para o futuro

"O nível de desigualdade na China nos anos 70 costumava ser parecido à média europeia -- perto dos níveis observados nos países nórdicos --, mas está agora se aproximando de um nível que é quase comparado aos EUA", escrevem os autores.

Não é de se esperar que, em uma população mais velha e em redução, os números de desigualdade fiquem melhores. Assim, a China avança para o futuro sem ter resolvido os problemas do passado e, de quebra, com novos desafios a superar. A esperança do Partido Comunista é que o modelo de um pé em cada canoa que lhe serviu até aqui siga sendo suficiente.

Veja também: Guerra Comercial entre EUA e China: o que você precisa saber | EXAMINANDO

(Com Lucas Amorim)