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A vez do hidrogênio verde

Empresas nacionais e internacionais investem em projetos de H2V no Brasil, que busca se tornar um hub global dessa emergente fonte de energia limpa

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Usina de hidrogênio verde na Europa: países europeus lideram a corrida para promover essa alternativa de energia renovável (Angel Garcia/Bloomberg/Getty Images)

Usina de hidrogênio verde na Europa: países europeus lideram a corrida para promover essa alternativa de energia renovável (Angel Garcia/Bloomberg/Getty Images)

Desde que governos e empresas passaram a se comprometer a reduzir emissões em alinhamento com o Acordo de Paris, de 2015, o hidrogênio verde — ou H2V, abreviação pela qual é conhecida no mercado — começou a receber um nível inédito de atenção. Afinal, trata-se de uma alternativa especialmente eficiente para acelerar a transição energética para indústrias intensivas em carbono. Mais recentemente, diferentes mercados globais, em especial os europeus, começaram a ver os frutos do investimento em inovação e desenvolvimento nessa área.

De acordo com a Agência Internacional de Energia, mais de 30 países lançaram planos nacionais sobre esse tema em 2022. Muitas iniciativas ainda são tímidas, é verdade. Dos 67 países que mantêm pelo menos um projeto de hidrogênio verde, dez respondem por dois terços das iniciativas. E sete são europeus: Alemanha, Espanha, Holanda, Grã-Bretanha, França, Dinamarca e Noruega, pela ordem em número de projetos.

A Alemanha é parceira do Ministério de Minas e Energia (MME) do Brasil, um acordo que resultou no projeto H2Brasil, desenvolvido em 2021 como parte de um programa de desenvolvimento sustentável baseado em energia renovável. A iniciativa envolve promover tecnologias para incentivar a produção, além de implementar laboratórios com infraestrutura para aprendizagem e ações de formação profissional.

De acordo com um relatório da consultoria McKinsey, no Brasil, em 2040, a demanda por H2V deverá chegar a 2,8 milhões de toneladas anuais. Isso significa que existe uma expectativa de investimentos da ordem de 200 bilhões de dólares ao longo dos próximos 20 anos, enquanto o número de aplicações tende a se multiplicar. Na avaliação da Secretaria Nacional de Transição Energética e Planejamento do MME, o país tem potencial para produzir 1,8 gigatonelada de hidrogênio por ano, sobretudo em estados do litoral, que têm acesso facilitado a mercados internacionais, em especial na União Europeia.

Conforme as iniciativas começam a sair do papel, empresas nacionais e multinacionais que atuam no Brasil buscam implementar soluções locais, com potencial elevado de ganhar escala e conquistar o mercado internacional. O país já conta com 30 bilhões de dólares anunciados em projetos nessa linha, de acordo com a estimativa do MME.

EDP já produziu sua primeira molécula de H2V no Brasil — mais especificamente, na unidade de geração que mantém em São Gonçalo do Amarante (CE)

“O hidrogênio verde é um vetor energético importante para a jornada de descarbonização de setores essenciais à economia de qualquer país”, diz Roberto Noronha Santos, CEO da Unigel, uma empresa com 60 anos de atuação nos setores químico e petroquímico, além do agronegócio. “Somos responsáveis pela primeira iniciativa de produção de hidrogênio e amônia verdes do Brasil e entendemos que esse é o futuro — não só da indústria mas da sociedade como um todo.”

A Unigel anunciou em janeiro a instalação de uma fábrica de H2V em Camaçari (BA). Resultado de um investimento inicial de 120 milhões de dólares na primeira fase, a unidade deverá produzir 10 mil toneladas anuais de H2V, além de 60.000 toneladas por ano de amônia verde — números que depois devem chegar, respectivamente, a 100.000 e 600.000 toneladas anuais. “Estamos na fase de engenharia do projeto executivo. Em seguida, começam os trabalhos de obras civis, montagem eletromecânica, comissionamento e partida da planta. O início da produção está previsto para 2024”, prevê Santos.

De seu lado, o grupo português EDP já produziu sua primeira molécula de H2V no Brasil — mais especificamente, na unidade de geração que mantém em São Gonçalo do Amarante (CE). A iniciativa faz parte do desenvolvimento do Projeto Piloto de H2 no Complexo Termelétrico do Pecém (UTE Pecém), resultado de um investimento de 42 milhões de reais. A planta de H2V integra um projeto que contempla também uma usina solar, com capacidade de 3 MW, e um módulo eletrolisador de última geração para produção do combustível com garantia de origem renovável — um indicador de quanto a produção de H2V está relacionada à utilização de novas fontes de energia renovável, em especial a eólica e a solar.

A multinacional francesa Engie assinou em abril deste ano um protocolo de intenções com a Invest Paraná, com o objetivo de desenvolver no estado projetos em grande escala de produção de hidrogênio verde. A companhia adotou a estratégia global de investir nessa alternativa — já tem sete projetos em andamento em dez países, com a meta de implementar a produção de 4 GW até 2030. E vê em suas operações brasileiras um caminho para acelerar o desenvolvimento do H2V, apoiado na matriz elétrica majoritariamente renovável do país.

A Engie Brasil tem ainda, desde 2021, parcerias com o estado do Ceará para realizar estudos e projetos de unidades de hidrogênio com capacidade de até 150 MW, numa primeira etapa. No estado nordestino, a proposta é desenvolver um projeto em larga escala no Porto de Pecém, que o governo cearense pretende transformar em um hub global de desenvolvimento e exportação — com a possibilidade de aplicar o produto no mercado local, especialmente para a indústria de aço e de produção de químicos.

“O Brasil tem todos os fundamentos para assumir uma posição de destaque na indústria de hidrogênio verde, dada a sua matriz elétrica abundante em energia renovável. Cerca de 90% da energia gerada no país é oriunda de geração hidrelétrica, eólica, solar e de biomassa”, diz Eduardo Sattamini, diretor-presidente da Engie Brasil Energia, cuja meta é zerar as emissões líquidas em 2045. Com esse objetivo, já investiu mais de 20 bilhões de reais em transição energética nos últimos seis anos. “Estamos buscando oportunidades para desenvolver projetos de produção de hidrogênio verde e seus derivados tanto para exportação quanto para atender à demanda interna das indústrias brasileiras que buscam descarbonizar seus processos produtivos”, explica Sattamini.

Colocar essas iniciativas em prática requer a superação de uma série de desafios, aponta o executivo da Engie. “Essa indústria está em formação. Logo, são inúmeros os desafios para viabilizar os projetos, seja do ponto de vista tecnológico, seja para o desenvolvimento de uma cadeia de suprimentos sólida e de um mercado consumidor dos produtos verdes.” Há também desafios regulatórios. “É necessário que a indústria brasileira acompanhe e participe das discussões de certificação da energia elétrica para produção de hidrogênio e do carbono biogênico na Europa de modo a manter a competitividade do país frente a outros países, tal como a utilização de energia a partir das hidrelétricas e o consumo de energia através da rede de transmissão.”

No cenário nacional, ressalta, é importante a criação de um marco regulatório para dar a segurança de que os projetos que serão viabilizados agora, e que necessitam de longo prazo de implantação, estejam aderentes ao marco regulatório quando entrarem em operação. Para Sattamini, o Brasil pode avançar nessa direção se observar de perto iniciativas como o Inflation Reduction Act, nos Estados Unidos, e as políticas de uso de combustíveis sintéticos para a indústria de aviação, na Europa. “Precisamos desenvolver ações semelhantes no país, além de estudar mecanismos específicos no setor elétrico que possam aumentar a competitividade dos projetos de produção de hidrogênio verde frente aos outros países e, assim, criar e desenvolver de forma sólida essa indústria no Brasil.”

O fortalecimento do marco regulatório é pauta também da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que, em um estudo no qual detalha o cenário da produção de H2V no mundo, apontou a necessidade de reforçar a segurança dos investimentos, incentivar a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias, adotar as melhores práticas internacionais e promover estudos que dimensionem adequadamente o potencial do segmento.

A ApexBrasil tem buscado promover a captação de investimentos para setores da economia considerados estratégicos. No caso do hidrogênio verde, a agência colabora com uma série de agências internacionais, como Bloomberg, GIZ e AHK. Em setembro, levou uma delegação própria à Gastech 2023, maior conferência e exposição global para indústrias de gás, GNL, hidrogênio e baixo carbono. Realizado em Singapura, o evento contou com mais de 1.000 empresas expositoras internacionais, cerca de 40.000 visitantes e 20 pavilhões internacionais. Foi uma oportunidade para companhias que atuam no Brasil conhecerem potenciais consumidores, além de interagir com o que há de mais avançado em tecnologia para o setor. A presença em eventos desse porte reforça os laços do Brasil com o mercado consumidor de uma solução que tem tudo para crescer de forma acelerada nos próximos anos.


Investimentos em alta

O desenvolvimento do hidrogênio verde está no centro das atenções

• 131 novos projetos foram anunciados no mundo desde 20211

• Mais de 30 países lançaram planos nacionais na área em 20221

• 67 países têm pelo menos um projeto na temática do hidrogênio1

• 2/3 das iniciativas estão situadas em 10 países, sendo 7 deles europeus1

• 500 bilhões de dólares em investimentos estão previstos no mundo até 20302

• 30 bilhões de dólares já estão anunciados em projetos em hidrogênio verde no Brasil3

• 2 bilhões de euros serão investidos pela União Europeia em projetos de hidrogênio de baixo carbono no Brasil3

• 15 GW de energia adicional serão necessários para produzir 1,5 bilhão de toneladas de hidrogênio verde por ano no país4

Fontes: 1 Agência Internacional de Energia, 2 Hydrogen Council,  3 Ministério de Minas e Energia,  4 Instituto Nacional de Energia Limpa.

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