Embaixo da peruca

hero_Jorginho do Jeep: o jeitinho ‘faria limer’ que conquistou o Brasil

Leandro Fonseca/EXAME (Exame/Leandro Fonseca)

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Jorginho do Jeep: o jeitinho ‘faria limer’ que conquistou o Brasil

Do beach tennis paulista até Roland Garros, ‘Jorge do Jeep’ acumula milhões de visualizações com humor sobre o conglomerado financeiro

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Jorginho do Jeep: o jeitinho ‘faria limer’ que conquistou o Brasil

Do beach tennis paulista até Roland Garros, ‘Jorge do Jeep’ acumula milhões de visualizações com humor sobre o conglomerado financeiro

Leandro Fonseca/EXAME (Exame/Leandro Fonseca)

Por Laura Pancini

Publicado em 06/07/2023, às 15:33.

Última atualização em 19/12/2023, às 10:43.

Embaixo da peruca

Camisa polo, shorts acima do joelho, cabelo loiro penteado para o lado e três palavras: o beach venceu. No último ano, Jorginho “do Jeep” foi das profundezas das areias artificiais paulistas até o assento ao lado de Guga em Roland Garros, torneio de tênis parisiense. O personagem que satiriza a Faria Lima acumula milhões de visualizações nas redes sociais; parcerias com marcas como a Lacoste, Jeep e Stanley; e se tornou o único influenciador a fazer um publi post da B3, no Instagram.

Para o homem embaixo da peruca, o impacto é o mesmo – senão maior. Fausto Carvalho veio de uma região em São Paulo bem longe do condado da Faria Lima: o município de Diadema, no ABC paulista. Os trejeitos de “faria limer” – as gírias exageradas, a ostentação de roupas de marcas e a presença semanal no beach tennis – vêm de observar a espécie como um verdadeiro antropólogo. “Comecei a entender onde eles vão, o que fazem, o que comem [risos]”, explicou em entrevista exclusiva à EXAME.

Fausto tem 15 anos de experiência como animador e passou anos trabalhando dentro de cruzeiros, criando personagens caricatos e até imitando os “maôes” de Silvio Santos para as atividades do navio. “Eu sou do evento, né? Tenho esse lance de conversar com as pessoas”, conta. E foi num evento empresarial em Curitiba, em junho de 2022, que nasceu Jorginho: era um encontro com um público grande de “beach tenistas”, ou jogadores de tênis de praia, então criar um personagem a partir daí parecia a solução lógica.

Com uma camiseta apertada demais, desceu os andares do hotel em que ficava e, no meio do caminho, pensou em algumas piadas que poderia soltar para os convidados assim que chegasse. “Acabei falando umas coisas tipo “não tem nem escada rolante aqui, meu, já cheguei cansadão” e também que tinha perdido o meu copo Stanley”, relembra Fausto. “E o evento era patrocinado pela galera da Stanley”.

O animador não sabia que alguém estava gravando a entrada de Jorginho no evento. O vídeo viralizou nos grupos de WhatsApp dos adeptos ao tênis de praia, e foi como se uma lâmpada acendesse na cabeça de Fausto. Três dias depois, ele buscou seu irmão André no aeroporto, já vestido da cabeça aos pés como Jorginho. “Precisamos gravar”, disse. E lá foram.

Os primeiros conteúdos publicados, em cerca de dois meses, renderam no Instagram quase 1 milhão de visualizações, e logo Fausto começou a receber ajuda do videomaker Victor “Vitinho” Castanho. Pegou emprestado o Jeep Renegade do pai para gravar conteúdo e o carro acabou se tornando um acessório essencial do personagem – foram 100 mil seguidores novos só na semana em que os vídeos passeando por Interlagos foram publicados. A Jeep deu um Renegade para ele, uma das primeiras parcerias do personagem. O “Renê” custa a partir de R$ 119.990 e hoje é uma das marcas registradas do Jorginho.

Jorge Jeep é Fausto Carvalho, comediante e animador há mais de 15 anos (Leandro Fonseca/EXAME)

O que é um “faria limer”?

O imaginário “faria limer” cresceu nas redes sociais de uns anos para cá. É um meme que personifica o "way of life" de quem trabalha no centro financeiro de São Paulo, especificamente na Avenida Faria Lima, que cruza do bairro de Pinheiros até o Itaim Bibi. Perpetuadores de tendências controversas, como o cigarro eletrônico sabor uva e crossfit às 5 da manhã, engloba a geração millennial das startups e os boomers das corporações tradicionais.

Da cabeça aos pés, marcas como Lacoste, Tommy Hilfiger e Golden Goose. As sextas são destinadas a “casual friday”; as conversas são sobre o mercado financeiro, o futuro das criptomoedas e a próxima disrupção econômica; as gírias misturam o paulistês com o inglês. Este resumo serve como exemplo de quais trejeitos Jorge busca para exagerar de um “faria limer”. 

Os fãs que também habitam o condado da Faria Lima se encaixam em pelo menos um dos estereótipos dos quais o animador brinca – e, mesmo assim, eles o adoram. Homens de 35 a 45 anos representam boa parte dos seguidores de Fausto no Instagram, segundo o próprio.

A origem da audiência é um pouco mais variada e não se limita a São Paulo: Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul também se destacam no interesse pelo personagem. Mas o comediante sabe que ficar preso na avenida da classe A não é o ideal, e já busca novas formas de lentamente furar a bolha: “Eu tinha trinta mil ‘faria limers’ me seguindo, aí comecei a falar de outras coisas. Ser pai de pet ou ter copo Stanley”. E funcionou. Em um ano de rolês pela avenida, Jorginho angariou no Instagram 765 mil seguidores

Jorginho posa ao lado da baleia metálica da Faria Lima; ao fundo, Victor "Beachinho" (Leandro Fonseca/EXAME)

Um dia com Jorginho

No dia a dia, Fausto não gosta de deixar Jorginho em casa (“até porque é casa de pobre”) e sai nas ruas para gravar conteúdo. A estratégia é fazer com que as interações que rendem os vídeos sejam espontâneas. Para quem não está acostumado com câmeras e pessoas expansivas, pode ser um pouco difícil de início. Em um momento Fausto faz um comentário sobre o clima, noutro Jorge aparece e solta um “puta dia lindo, meô”

Se alguém engaja na conversa, o cinegrafista Vitinho (que ganhou o apelido carinhoso “beachinho”) saca o smartphone e começa a gravar o momento, na esperança de que o personagem solte a próxima frase viral. 

Poucos minutos depois, o assunto do dia nas redes sociais de Fausto pode ser sobre como uma pessoa comum reagiu naqueles curtos segundos ao lado de Jorge do Jeep. Se torna uma condicionante: você nunca quis 15 minutos de fama, tampouco uma carreira de influencer, mas ele te levou pra mais próximo disso. 

Antes de ser possível externar qualquer aversão à interação, o animador preenche o rosto com um sorriso largo e lota as frases de elogios: “que gringa! Olha esse cabelo todo de francesa, todo L’Oreal Paris, cara”. Quem está apreensivo logo relaxa os ombros. A verdadeira piada no vídeo é sempre Jorginho do Jeep, então “relax, meô”.

O carisma excessivo de Jorge é honesto, mas também é uma tática. Garantir que ele vai ser sempre o centro das piadas é, no fim, garantir as risadas. “Quando comecei a perceber que o Jorginho poderia ser metido, um cara arrogante... bom, eu já não sou assim”, diz. “Eu nunca tinha ido à Fazenda da Grama, por exemplo. Um dia fui numa casa de R$ 85 milhões. Não é todo mundo que entende [esse mundo]”.

E é verdade: na vida real, Fausto Carvalho não poderia estar mais distante da realidade de Jorginho. O comediante fala seis idiomas, anda de skate e já jogou futebol de salão profissional pelo Corinthians. Enquanto Jorginho não sabe o que significa o “mínimo” de “salário mínimo”, Fausto passou boa parte da vida ganhando entre R$ 1.500 a R$ 3.000 – e não era mesada do pai, que é o operador de trem mais antigo do Brasil. Segundo o filho, Nelson Rocha tem 47 anos de carreira ativa nos metrôs de São Paulo. “Os outros morreram tudo [sic]”. 

Jorginho conversa com fãs enquanto "Beachinho" grava conteúdo (Leandro Fonseca/EXAME)

Jorginho posa para fotos com fãs em frente a baleia metálica da Faria Lima (Leandro Fonseca/EXAME)

Jorginho posa para fotos com fãs; ao fundo, Victor "Beachinho" (Leandro Fonseca/EXAME)

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Ano fantástico

Roteiros não são coisa do Jorge. Como os vídeos espontâneos, tudo é feito no improviso. Muitas piadas que se tornaram bordões do personagem saíram em visitas de podcast. Numa delas, disse que estava criando a criptomoeda “beachcoin” para os adeptos do tênis de praia. 

O corte viralizou e Fausto chegou a receber propostas de empresas do Vale do Silício para transformar a cripto em realidade, mas não topou pelos riscos. “Quem sabe um NFT um dia?”, pensou em voz alta. O comediante também está conversando com marcas nacionais para o desenvolvimento de um gin, o JorGin. Outra piada que pode virar produto é o perfume “Diamond Black”, que não existe, mas Jorge fala nos vídeos que é a melhor fragrância de todas. 

Além das conversas com marcas, Jorginho continua sendo pago para ir em eventos – mas o valor não é fixo, e varia dependendo do lugar. O “faria limer” topa de tudo, desde as menores quadras de tênis de praia até eventos corporativos com milhares de empresários. Em sua essência, Fausto e Jorge são pessoas do evento – e não têm nenhuma pressa para aumentar os seguidores ou faturar milhões. Acima de tudo, o objetivo final é garantir a risada.

Jorginho Jeep, o rei da Faria Lima (Leandro Fonseca/EXAME)

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Créditos

Laura Pancini

Laura Pancini

Repórter de Tecnologia e Inteligência Artificial

Formada pela PUC-SP. Começou como estagiária na Exame em 2020, reportando nas áreas de Ciência e Tecnologia. Hoje, trabalha na Home do site e produz matérias para as editorias de Pop, Tecnologia e Inteligência Artificial.

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