Número de mulheres na chefia cresce a passos lentos no país

Apesar de pesquisas apontarem que mulheres na liderança trazem melhores resultados para empresas, processo de inclusão é lento no país

São Paulo - Vai levar um bom tempo até que as mulheres consigam compor uma parcela significativa no alto escalão das empresas no Brasil. Pelo menos é o que indicam pesquisas recentes.

A boa notícia é que o debate sobre a diversidade de gênero está aquecido no país e a tendência é que cada vez mais companhias se engajem a favor do tema, segundo especialistas.

Para se ter uma ideia, a participação feminina nos conselhos de administração das empresas listadas na BM&FBovespa se manteve na casa dos 6% entre 2013 e 2014, de acordo com estudo da KPMG.

Em números absolutos, as conselheiras passaram de 101 para 107 no período, sendo que 15 corporações que antes não tinham mulheres no board, passaram a ter. A análise levou em conta 235 organizações.

Outro levantamento feito pelo O Estado de S. Paulo nesta semana mostrou que nenhuma das 63 companhias que compõem o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, é presidida por mulheres atualmente. Até pouco tempo, duas delas eram: a Petrobras e a Sabesp, mas suas CEOs, Graça Foster e Dilma Pena, deixaram os cargos recentemente, em meio a crises.

Conta-gotas

Mesmo se considerados outros postos de alta administração no país (fora a presidência e o conselho) a fatia feminina não passava dos 7,7% em 2013, conforme estudo da FGV.

Mas esse cenário tende a mudar, ainda que seja a conta-gotas.

"Quando eu falava sobre liderança feminina em 2011, as pessoas me perguntavam o que era isso. Hoje as empresas não só falam do assunto, como já deixam de enxergá-lo como responsabilidade social", diz Cristina Kerr, idealizadora do Fórum Mulheres em Destaque.

Segundo ela, a adesão das companhias aos eventos para discutir a inclusão feminina nos negócios aumentou a partir da divulgação de pesquisas que apontavam que ter mulheres no comando poderia levar as empresas a terem melhores resultados financeiros.

Em 2013, dados colhidos pela McKinsey mostraram que companhias que tinham uma ou mais mulheres em seus comitês executivos obtinham retorno sobre o patrimônio 44% maior e margem de lucro antes dos impostos 47% acima do que os registrados por aquelas com apenas homens nessas posições. Foram estudadas 345 empresas listadas em bolsas de seis países da América Latina, incluindo o Brasil.

"Esse fenômeno prova que o diferencial da mulher [nos negócios] não está relacionado a características maternais", avalia Viviane Barreto, coordenadora de um programa para aprimorar a liderança feminina na Fundação Dom Cabral, o Women’s Global Leaders.

O Projeto teve início no ano passado e teve a participação de 31 executivas de grandes empresas. Segundo Viviane, elas atuavam em cargos de chefia de várias áreas, como RH, gestão de projetos, planejamento, marketing e informática, além de diretoria e presidência.

"A leitura que eu faço desse público diverso é que o assunto está deixando de ser específico e que as empresas estão mais interessadas", diz.

Na prática

De fato, muitas companhias têm investido em programas para aumentar o número de mulheres entre seus líderes. Eles abrangem palestras, treinamentos, horários flexíveis para as mães e mentoring. Algumas organizações, como a Renault, possuem até mesmo cotas para as mulheres.

É só através da reserva de vagas exclusivas para o público feminino que será possível acelerar o processo de diminuir a lacuna entre homens e mulhers em cargos de administração, segundo o Grupo Mulheres do Brasil, liderado por Luiza Helena Trajano, dona do Magazine Luiza. O assunto, porém, divide opiniões.

"Não sou a favor de cotas. Acredito que elas criam um contexto em que a mulher já entra perdendo, porque institui o preconceito de que ela não está onde está pela competência", diz Viviane Barreto.

"No Brasil as pessoas entendem a cota como uma incompetência quando, na verdade, ela é um processo transitório para acertar uma desigualdade", argumenta Cristina Kerr, que também integra o Mulheres do Brasil.

"Se a cota não for utilizada, levaremos mais de 100 anos para chegarmos a equidade de gênero nas organizações", afirma.

Em dezembro do ano passado, o time liderado por Luiza Trajano entregou ao Congresso um projeto de lei que pretende estabelecer a reserva de vagas para mulheres nos conselhos de administração de estatais e empresas de economia mista.

Pelo texto, as cotas precisariam garantir ao menos 30% das cadeiras para mulheres e o sistema duraria até 2033, quando deixaria de existir.

A ideia é inspirada na Noruega, pioneira em iniciativas para ampliar a diversidade de gênero no ambiente corporativo. Lá, cotas de 40% para mulheres no board são exigidas por lei desde 2008. Mesmo assim, um levantamento recente da Catalyst constatou que a representação feminina nesses cargos no país ainda é de 33,5%.

Não é só aqui

O baixo índice de mulheres no comando das empresas está longe de ser um problema local. Um levantamento divulgado pelo The New York Times nesta semana revelou que, entre as companhias do índice S.&P. 1.500, dos Estados Unidos, para cada presidente do sexo feminino, há quatro CEOs chamados John, Robert, William ou James.

Um outro estudo feito pela Bain & Company com 1.000 homens e mulheres no país no ano passado, mostrou que 43% das mulheres que estavam nos dois primeiros anos de carreira aspiravam assumir os postos de chefia mais altos de grandes empresas, contra 34% dos homens.

Entre os funcionários mais experientes, com mais de dois anos de casa, a fatia de homens que desejava chegar ao topo continuava a mesma, enquanto a das mulheres caía para 16%, o que indica que elas vão perdendo confiança à medida que amadurecem no emprego.

No Brasil, uma pesquisa da consultoria realizada em 2013 apontou que homens tem 20 vezes mais chances de chegar ao cargo de CEO do que as mulheres.

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