Mundo

Raqqa: um golpe fatal para o Estado Islâmico

Hoje o Estado Islâmico foi derrotado pelas Forças Democráticas Sírias (SDF) dentro da sua "capital"

Raqqa: foi uma importante derrota simbólica

Raqqa: foi uma importante derrota simbólica

DR

Da Redação

Publicado em 17 de outubro de 2017 às 18h07.

Última atualização em 17 de outubro de 2017 às 18h46.

As Forças Democráticas Sírias (SDF), uma coalizão de guerrilheiros curdos e árabes armada e treinada pelos Estados Unidos, anunciou nesta terça-feira a tomada de Raqqa, a “capital” do Estado Islâmico (EI), no nordeste da Síria. A conquista coroa outras derrotas importantes do grupo nas cidades iraquianas de Mossul e Hawija.

O território ocupado pelo EI nessa região que constituiu o seu berço há três anos fica reduzido agora a uma estreita faixa nas margens do Rio Eufrates, entre o leste da Síria e o oeste do Iraque.

Segundo analistas ouvidos por EXAME, é uma importante derrota simbólica, que no entanto não põe fim necessariamente ao grupo.

E principalmente não elimina a razão de sua existência: os descontentamentos dos sunitas em várias regiões do mundo muçulmano.

Para aumentar o sentimento de humilhação dos extremistas islâmicos, que impõem nas cidades que ocupam um rigoroso código de conduta sobre as mulheres, a tomada de Raqqa foi liderada pela comandante curda Rojda Felat.

A vitória ocorre depois de quatro meses de batalha, na qual a SDF contou com o apoio de bombardeios aéreos dos EUA e de assessores militares americanos no terreno.

Cerca de 1.000 moradores da cidade morreram nos combates. Depois de uma última ação defensiva que teve como base o estádio e um hospital da cidade, os combatentes do EI se renderam mediante promessa de não serem punidos.

Assim como ocorreu com Mossul, Raqqa está arrasada. Talo Silo, porta-voz da SDF, disse que as ações militares cessaram e que os guerrilheiros estavam buscando explosivos e células adormecidas.

O EI já estava militarmente enfraquecido pelo corte nas linhas de suprimento entre o Iraque e a Síria, e pela queda em julho de Mossul, a segunda maior cidade iraquiana e a maior ocupada pelo grupo, e de Hawija, no último dia 5. Nessa cidade do norte do Iraque, 1.000 integrantes do grupo se renderam.

Capital da província de mesmo nome, Raqqa foi o palco dos mais sórdidos e impactantes golpes de propaganda do EI, a começar pela decapitação do jornalista americano James Foley, em agosto de 2014, em que ele foi filmado de joelhos, cabeça raspada e uniforme de presidiário americano, e obrigado a criticar a política externa do então presidente Barack Obama, antes de ter seu pescoço serrado com uma faca.

Essa e outras filmagens de atrocidades contra reféns e prisioneiros eram conduzidas por Mohammed al-Emwazi, cidadão britânico nascido no Kuwait.

Apelidado de Jihadi John, ele foi morto pelo disparo de um drone americano na praça central de Raqqa em novembro de 2015. A liderança do EI em sua capital foi dizimada pelas ações com drones.

O próximo reduto importante do EI fica na província de Deir al-Zour, ao sul de Raqqa. As forças leais ao ditador sírio Bashar Assad, apoiadas por aviões russos e por guerrilheiros patrocinados pelo Irã, estão avançando naquela direção.

O presidente Donald Trump terá de decidir agora se autoriza o envio das forças pró-americanas para disputar aquele território, o que representaria uma ampliação da presença curda na geografia síria, ou se deixa essa conquista para a coalizão pró-síria.

Com a perda de território no Iraque e na Síria, o EI tenta se estabelecer noutros países conflagrados. Pela primeira vez, drones americanos atacaram nesta terça-feira redutos do grupo no Iêmen, na província de Al-Bayda, a sudeste da capital, Sanaa, onde o EI mantém campos de treinamento.

O território iemenita é cenário de uma guerra com diversas frentes, grupos e países, desde que o governo do presidente Abed Rabbo Mansour Hadi foi derrubado em 2014 por um levante dos rebeldes houthis (xiitas), apoiado pelo Irã, que disputa com a Arábia Saudita influência sobre o Golfo Pérsico e o Oriente Médio.

Os sauditas bombardeiam constantemente alvos houthis no país, onde há também presença da Al-Qaeda, que assim como o EI é sunita.

As derrotas militares do EI na Síria e no Iraque significam a perda de fontes de receitas com sequestros, comércio de petróleo, confiscos de bens e extorsões das populações locais, além de campos de treinamento e bases de operações terroristas.

“Perder Raqqa é certamente um golpe fatal para o EI, cuja legitimidade é construída sobre a reivindicação territorial, o assim chamado Califado Islâmico, que o diferencia da Al-Qaeda”, disse a EXAME o analista turco Mustafa Gurbuz, pesquisador do Arab Center Washington e professor da American University, na capital americana.

“O EI está agora de joelhos, mas não completamente fora do jogo. O grupo vai explorar as divisões do leste da Síria e do oeste do Iraque, onde a estrutura tribal ainda é forte, e as queixas dos sunitas ainda não foram atendidas.”

Desde a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, o país é governado pela maioria xiita, que tem dificultado o acesso dos sunitas a empregos e contratos públicos, entre outros benefícios.

Já a Síria é governada desde 1970 pela minoria alauíta, uma derivação dos xiitas, embora a maioria da população seja sunita. Essas realidades explicam o apoio, pelo menos inicial, de parte das populações dos dois países, ao EI.

“No leste da Síria, muitos árabes sunitas estão com medo de um futuro sob o domínio dos curdos ou do brutal regime de Assad”, continuou Gurbuz.

“No oeste do Iraque, milícias xiitas estão expandindo seu poder e influência nas cidades e vilarejos sunitas devastados pela guerra. Assim, a eliminação do EI pode não significar necessariamente o fim do problema. O EI foi um sintoma, não a causa.”

Além disso, com a derrota militar, o EI pode concentrar seus esforços nas ações terroristas. “A terrível verdade é que o EI será tão mortal como rede insurgente e terrorista que como um ator de natureza estatal”, avalia Nicholas Heras, pesquisador do Center for a New American Security, também em Washington.

“Os ataques na Europa continuarão por algum tempo”, completa Aymenn Jawad al-Tamimi, especialista britânico em terrorismo islâmico, cuja família é originária de Mossul. “A derrota do EI como projeto de Estado diminui seu apelo, mas ele terá seguidores por muito tempo.”

 

Acompanhe tudo sobre:Estado IslâmicoExame HojeIraqueSíria

Mais de Mundo

Portugal celebra 50º aniversário da Revolução dos Cravos

PIB dos EUA desacelera e cresce 1,6% no 1º trimestre de 2024

Com melhora da economia, bancos aumentam previsão de PIB da China

Paciente que estava com covid-19 há 613 dias morre na Holanda

Mais na Exame