Invasão ao Capitólio incitada por Trump é considerada "terrorismo doméstico" - entenda

Para especialista, governo Trump deu passe livre para o crescimento de grupos supremacistas brancos, que agora atentam contra a democracia e as instituições americanas

A invasão do Capitólio por apoiadores do presidente Donald Trump, com o intuito de impedir o reconhecimento da vitória de Joe Biden, já é considerada um episódio de "terrorismo doméstico" - tanto por especialistas quanto pelos próprios políticos americanos.

Poucas horas após o início da confusão - que culminou em um toque de recolher em Washington DC -, a senadora Elizabeth Warren usou o termo "terroristas domésticos" para se referir aos apoiadores de Trump. Na mesma linha, Meghan McCain, filha do senador republicano John McCain, defendeu o termo "terroristas" como o ideal para se referir aos invasores do Capitólio.

"Terrorismo doméstico" é quando os cidadãos de um país lançam mão de violência para desorganizar as instituições e fragilizar o poder do próprio estado em que vivem. Essa sistemática é hoje um dos principais vetores de violência nos EUA. Em agosto, o próprio presidente Trump usou o termo para se referir aos tiroteios em massa que o país sofre frequentemente.

Para o professor de relações internacionais da FAAP, Lucas Leite, a invasão ao Capitólio incitada por Trump é um ato de terrorismo doméstico praticado por grupos supremacistas brancos que, durante o governo Trump, tiveram liberdade para crescerem e se organizarem. Justamente por isso, ainda que chocante, o episódio era esperado.

O supremacismo branco ganhou muita força no atual governo. Ele já vinha se organizando na época do Obama, e na era Trump eles ganharam quase que um passe livre. Não houve nenhum combate efetivo, e o presidente muitas vezes negou que fosse condená-los, inclusive durante os debates presidenciais. Esse movimento está ganhando força e, se não houver um combate mais efetivo, os veremos ganhando cada vez mais espaço.

Lucas Leite, professor de relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado

"Os EUA, querendo ou não, ainda são colocados como exemplo institucional para o mundo. Então, se isso é possível nos EUA, porque não seria em outros lugares?', indaga Leite. "Ao pressionar as instituições ao máximo, esperando que a corda estoure, o presidente é conivente. Se isso evolui para um conflito maior, se há uma organização mais ampla, isso gera um conflito civil."

Leite explica que, ainda que este episódio não seja suficiente para impedir a posse de Biden, por exemplo, ele já mina a narrativa americana de ser "o país da liberdade", além de servir de inspiração para grupos extremistas em outros países hoje liderados pela extrema direita, como o Brasil, Polônia, Turquia e Indonésia. "Em países com instituições mais frágeis ou grupos mais organizados, isso poderia inspirar esses indivíduos a pressionarem as instituições da mesma maneira, levando o discurso da negação e da mentira até as últimas instâncias.", disse o professor.

FOI GOLPE?

Além de um ato terrorista, a invasão do Capitólio também está sendo chamada de "tentativa golpe de estado" por diversos congressistas americanos e também pela imprensa - um termo inimaginável no cenário político americano há alguns anos. Para o professor de relações internacionais Arthur Murta, da PUC-SP, não houve a consumação de um golpe de estado - mas uma tentativa, certamente, ocorreu.

Se compararmos com outros países onde há de fato golpes de estado, vemos que eles sempre vêm acompanhados de um legislativo criando manobras semi-legais para que o golpe de fato aconteça, por exemplo. Ou seja: para falar de golpe, é preciso um movimento político. Esse movimento ainda não existe nos EUA, nem entre os republicanos. Mas o que Trump está fazendo? Uma tentativa de golpe, mobilizando as massas. Dependendo do que acontecer depois, ele pode tentar outro tipo de movimentação.

Arthur Murta, professor de relações internacionais da PUC-SP

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