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Crianças sofrem com desnutrição em um Iêmen em guerra há 4 anos

No país mergulhado em crise humanitária, a luta dos pequenos pela sobrevivência é diária

Crianças passam fome no Iêmen. (Khaled Abdullah/Reuters)

Crianças passam fome no Iêmen. (Khaled Abdullah/Reuters)

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EFE

Publicado em 3 de novembro de 2018 às 10h23.

Sana - Com apenas nove meses, a pequena Suad se aferra a uma vida que se esvai com cada batida de seu frágil coração pela desnutrição aguda que sofrem ela e centenas de milhares de crianças no Iêmen, um país imerso em uma guerra há quatro anos e na pior crise humanitária no mundo.

A mãe segura a debilitada mão de Suad, que respira com ajuda de aparelhos, em uma cama do hospital de Al Sabaain em Sana, enquanto o pai Saleh Yamaan olha para sua filha apoiado na porta, tentando segurar as lágrimas que se acumulam em seus olhos.

"Eu a levei para três hospitais diferentes para que recebesse um tratamento para a diarréia, mas não melhorou e agora sofre de desnutrição aguda", disse Yamaan à Agência Efe, antes de clamar "Oh, Deus!" e erguer as mãos para o céu.

O caso de desnutrição aguda de Suad é um dos 1,8 milhão que existem atualmente entre as crianças no Iêmen, segundo dados do Unicef, entre os quais se incluem 400 mil com desnutrição grave aguda que batalham diariamente para sobreviver.

Além disso, o fundo da ONU estima que uma de cada três crianças no Iêmen, e uma de cada cinco grávidas e mães lactantes, estão em risco de desnutrição aguda em um momento no qual 11,3 milhões de menores no país necessitam de ajuda humanitária.

O Iêmen é atualmente o cenário da pior crise humanitária no mundo, segundo a ONU, já que o país sofre um conflito civil que começou no final de 2014 e se agravou a partir de março de 2015 pela intervenção da coalizão árabe liderada pela Arábia Saudita, que luta contra os rebeldes houthis.

Os bombardeios da coalizão de países árabes acabaram com a vida de crianças e mulheres em sua ofensiva para tentar restaurar o presidente Abdo Rabu Mansour Hadi no governo de Saná, dominado pelos houthis, que contam com apoio do Irã.

Suad é cercada por uma equipe de médicos que tenta reanimá-la e entre eles, a doutora Sohir al Madahyi, que explicou à Efe que a pequena "necessita de terapia intensiva".

No entanto, essa unidade no hospital foi substituída por um departamento para tratar a difteria por ordem do novo ministro de Saúde no governo dos houthis, Taha Mutawakel, acrescentou a médica.

A ONG Oxfam Intermon informou neste mês que no Iêmen foram registrados mais de 1,1 milhão de casos de cólera nos últimos 18 meses, com mais de duas mil mortes, e aconteceram mais de 100 mortes devido à difteria em um período similar.

O responsável dos enfermeiros na unidade que trata dos casos de desnutrição no hospital, Fouad al Rimi, disse à Efe que os profissionais de saúde sofrem com a "falta de remédios" no centro, o que "obriga os familiares do doente a comprá-los fora do hospital a um preço alto".

Rimi também destacou a "pressão" sobre ele e seus colegas pelo "grande número de doentes" que estão recebendo tratamento, já que não podem ser levados a terapia intensiva após a substituição da unidade pela de difteria.

Além disso, este é o "único" hospital que se dedica a tratar os casos de desnutrição aguda, explicou Rimi, razão pela qual as crianças que "sofrem desnutrição aguda e vivem em áreas afastadas da capital morrem devido às poucas possibilidades de seus familiares para pagar o preço dos transportes para levar seus filhos ao hospital".

Nesse departamento no qual são tratados os casos de difteria, uma doença infecciosa que pode provocar o bloqueio das vias respiratórias, está Um Eshraq, que cuida de três de seus filhos internados por esse mal, dois deles em uma mesma cama.

Eshraq contou à Efe que sua filha mais velha morreu por causa da doença em uma cidade da província de Al Mahuit, a oeste de Saná, e que seu irmão também morreu pouco tempo depois.

Apesar das más notícias, a saúde de Suad está melhorando, mas ela segue fazendo parte das estatísticas.

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