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Como o uso excessivo de areia tem impactado a vida no delta do Mekong, no Vietnã

O futuro do delta do Mekong, uma região estratégica para o cultivo de arroz e para a biodiversidade, está ameaçado pelo esgotamento das suas reservas de areia até 2035

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A casa de Le Thi Hong Maib que desabou no rio Hau devido à erosão das margens, em 26 de outubro de 2023 em Can Tho, Vietnã (AFP/AFP Photo)

A casa de Le Thi Hong Maib que desabou no rio Hau devido à erosão das margens, em 26 de outubro de 2023 em Can Tho, Vietnã (AFP/AFP Photo)

Em uma manhã de verão, a casa de Thi Hong Mai desabou em um rio no delta do Mekong, onde a rápida erosão das margens devido ao esgotamento das reservas de areia ameaça centenas de milhares de vietnamitas.

"Ouvi uma explosão, saí correndo e tudo desapareceu", lembra esta mulher de 46 anos, referindo-se ao seu pequeno restaurante ao lado da sua casa, nos arredores de Can Tho (sul). "Perdi tudo", diz à AFP.

A areia, utilizada como material de construção, é o segundo recurso natural mais explorado no mundo depois da água, em volumes no limite do que é sustentável, alerta a ONU. O futuro do delta do Mekong, uma região estratégica para o cultivo de arroz e para a biodiversidade, está ameaçado pelo esgotamento das suas reservas de areia até 2035, destaca um relatório da WWF.

Segundo os pesquisadores, as hidrelétricas que retêm o aluvião e a extração de areia para obras - cada vez mais numerosas no país em desenvolvimento - impedem a renovação natural das reservas.

A secagem da areia leva à aceleração da erosão costeira, em uma região já vulnerável ao aumento do nível do mar induzido pela mudança climática.
Os habitantes e as autoridades sofrem as consequências sociais e econômicas da erosão, que ameaça deslocar dezenas de milhares de pessoas. Na província de Hau Giang, Diep Thi Lua acordou no meio da noite e viu seu jardim submerso na água. "A terra tremia. Ficamos com muito medo”, diz esta mulher de 49 anos.
Segundo dados do governo vietnamita, entre 2016 e agosto de 2023, pelo menos 750 quilômetros da costa e quase 2.000 casas desapareceram devido à erosão. O fenômeno põe em perigo as ambições econômicas do regime comunista, que registra uma das taxas de crescimento mais altas da região.

Os últimos grãos de areia

Perto da foz do maior rio do Sudeste Asiático, barcaças circulam dia e noite para extrair areia do leito.

A região do delta precisa de 54 milhões de metros cúbicos de areia para construir seis rodovias até 2025, afirma o Ministério dos Transportes vietnamita. O rio pode abastecer menos da metade, admitem os responsáveis.

A fragilidade das reservas atrasa obras importantes e as autoridades debatem alternativas, como a areia da praia, ou a sua importação do Camboja. Vacas caminham pela futura rodovia entre Can Tho e Ca Mau, no extremo sul do Vietnã. O percurso continua sendo uma estrada de terra devido à falta de areia disponível para a produção do revestimento.

"Não tínhamos areia suficiente desde o início do ano, por isso não há muito o que fazer", explica um trabalhador que pediu anonimato.
O Vietnã proibiu a importação de areia em todas as suas formas em 2017. Mas a demanda interna é tanta que excede as capacidades naturais de renovação do Mekong, afirma Nguyen Huu Thien, especialista na região. "Esses são os últimos grãos de areia que dragamos", alerta.
Desde 2016, o governo vietnamita gastou mais de 480 milhões de dólares (2,3 bilhões de reais) em 190 projetos destinados a conter os efeitos da erosão, segundo a mídia estatal. "Muitas das estruturas eram caras, mas acabaram afundadas no rio", afirma o especialista, que prevê que metade do delta terá desaparecido até o final do século.
"Aí o delta vai desaparecer e teremos que reescrever os livros de geografia", lamenta. Cerca de 20 mil casas precisam ser deslocadas devido aos riscos associados à erosão, estima a agência governamental responsável pela prevenção e gestão de desastres naturais.Segundo a WWF, cerca de 500 mil pessoas poderão perder as suas casas.
Um programa de realocação "exige muito dinheiro e o nosso governo nunca o terá", admite um funcionário da província de Hau Giang, que não quis revelar o seu nome. "Sabemos que as pessoas podem perder a vida nestas áreas. Mas não temos solução", lamenta.

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