Vitória de Biden deve deixar o dólar mais barato, diz Portofino

Em entrevista à Exame, Adriano Candreva conta sobre os possíveis efeitos das eleições americanas no mercado financeiro

Queda do dólar, juros mais altos e fuga das ações de tecnologia. Esse será o cenário no mercado financeiro caso o democrata Joe Biden saia vitorioso, segundo as previsões de Adriano Candreva, sócio responsável pela sede da Portofino Multi Family Office nos Estados Unidos. Mas ele afirma que ainda “há uma incógnita muito grande” sobre o resultado e o que acontecerá após encerrarem as votações, nesta terça-feira, 3. “A única certeza é que vai ter volatilidade.”

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Em entrevista à Exame, Candreva contou que uma vitória do mesmo partido na presidência e no Senado teria potencial de impulsionar as bolsas de valores. “O problema é se um ganha a presidência e o outro o Senado. Se isso acontecer, as atenções se voltam para [as negociações do] pacote de 2 trilhões de dólares, que acabou não saindo antes das eleições e é muito dependente de tudo isso.”

Mas embora veja as políticas ambientais ganharem força com a vitória de Biden, Candreva vê chance do barril de petróleo se valorizar. “Teria mais regulamentação, o que deve fazer o preço do petróleo subir, já que ficaria mais cara sua produção.” Por outro lado, diz ele, a tendência é que as políticas de investimento ESG (Ambiental, Social e de Governança, na sigla em inglês) ganhem ainda mais força no mercado.

Quanto aos impactos sobre o Brasil, Candreva acredita que serão piores caso o presidente Donald Trump seja reeleito. Por mais que considere a possibilidade de haver um acordo bilateral entre os dois Países, ele pondera que a pior dinâmica do comércio internacional pode trazer duras consequências. Confira a entrevista.

Exame: Quem deve ser o próximo presidente dos Estados Unidos?

Adriano Candreva: Tem várias correntes, desde quem acredita em uma onda azul, com os democratas ganhando tudo, até gente falando que os republicanos podem ganhar tudo. Ao que tudo indica, os democratas devem manter a Câmara. A batalha maior está no Senado e na Casa Branca. Por mais que o Trump esteja atrás nas pesquisas, ainda há uma incógnita muito grande. Está muito confuso. A única certeza é que vai ter volatilidade. A semana promete. É pouco provável que a gente tenha o resultado já no dia 4. Se espera que as eleições sejam contestadas, que vá para a Justiça.

A possibilidade de o Trump questionar os resultados em caso de derrota é real?

Depende de quão perto ele ficar [da vitória]. Se tomar de lavada, aí é mais difícil [contestar]. Se for por alguns mil votos, imagino que ele vá questionar.

Como o resultado pode afetar as bolsas de valores?

A gente acredita que se der uma onda azul, com o Biden ganhando a presidência e os democratas, o Senado e a Câmara, seria até positivo para o mercado, assim como se o Trump ganhar e manter o Senado. Os dois extremos são relativamente positivos. O problema é se um ganha a presidência e o outro, o Senado, porque o Senado dificultaria as coisas, dado que medidas econômicas precisam ser aprovadas nos três níveis [Câmara, Senado e presidência]. Se isso acontecer, as atenções se voltam para [as negociações do] pacote de 2 trilhões de dólares, que acabou não saindo antes das eleições e é muito dependente de tudo isso. Se os republicanos ganharem o Senado, é pouco provável que tenha um pacote de incentivo novo como tem se falado. Se ficar tudo azul ou vermelho, o mercado segue para o próximo tópico, que são as vacinas.

Como estão as expectativas sobre o pacote?

Depende. Se os republicanos ganharem o Senado, eles vão ficar mais fortes e até o Trump teria dificuldade em aprovar um pacote dessa magnitude.

Como está o sentimento do mercado americano? Em quem Wall Street está apostando?

A expectativa é que poderia dar uma vitória de Trump. O mercado está se posicionando como se o presidente fosse reeleito.

Como ficaria o cenário para o petróleo em caso de vitória de Biden?

Teria mais regulamentação, o que deve fazer o preço do petróleo subir, já que ficaria mais cara sua produção. Ainda que tenha muito petróleo hoje, se o custo da produção aumenta, vai tirar da indústria do fracking, que transformou os Estados Unidos nos maiores produtos de petróleo. Então, pode ser até que o petróleo suba. Mas é inquestionável que, se o Biden ganhar, deve se acelerar a transição do uso do petróleo para o de energias renováveis.

Com o Biden, a filosofia ESG deve ganhar ainda mais força no mercado?

Sim, sem dúvida. Isso é um pilar da campanha do Biden, que, sem dúvida, vai acelerar.

Como o mercado vê a possibilidade de ele aumentar impostos?

O mercado, obviamente, não gosta de mais impostos. Mas de um lado aumentariam os impostos e do outro, provavelmente, aumentariam os gastos. Isso causaria um déficit maior e, provavelmente, taxas de juros maiores e um dólar um pouco mais fraco.

Como o dólar vai perder valor? Isso fortaleceria o real também?

Com o Joe Biden ganhando, certamente, vão ter pacotes de incentivos fiscais maiores, o que deve aumentar ainda mais o déficit americano. Aumentando o déficit americano, vai ter mais títulos do Tesouro sendo ofertados no mercado. Então vão ter que vender a preços mais baixos, que significa rentabilidade mais alta. Porém, o déficit americano vai causar um pouco de incerteza com relação ao dólar. Seria uma queda generalizada do dólar. Assim como o dólar foi se fortalecendo no governo Trump, no governo Biden, com mais dívidas sendo emitida, teria o movimento inverso, com o dólar se enfraquecendo contra a maioria das moedas do mundo, incluindo o real.

Como a vitória de Biden poderia mudar dinâmica na bolsa?

As empresas de tecnologia, que puxaram os índices americanos, seriam as perdedoras. São empresas muito rentáveis, como Apple, Amazon, Microsoft, Facebook, que vão pagar mais impostos. Daí tende a mudar a liderança do mercado para empresas mais de valor ou small caps, que se beneficiariam de um incentivo mais abrangente na economia. Não ficaria tão concentrado nessas grandes empresas.

É de se esperar uma mudança na relação com a China?

A disputa com a China não deve mudar. O que deve mudar é a intensidade do negócio. Hoje, nos EUA, existe um sentimento bastante antagônico em relação à China, independentemente do partido. Mas a relação EUA-China é igual a uma banda elástica: ela estica, mas não pode quebrar, porque um depende do outro.

Os números de casos de coronavírus seguem altos nos EUA, a possibilidade de haver um lockdown fica mais próxima com Biden?

Eu não acredito, porque uma coisa é o candidato falando, outra é ele fazendo. Uma das razões de o número de casos estar aumentando é que ninguém aguenta mais ficar em casa. Então, o que deve ter mais é assistencialismo, a volta do apagamento extra de seguro desemprego, mas não acho que vai fechar tudo. Hoje isso não é mais uma opção. A economia não aguenta. Acho que ele faria medidas mais restritivas, como uso obrigatório de máscara, talvez algumas medidas mais fortes, mas um lockdown acho pouco provável.

Essas medidas mais fortes poderiam ter efeitos econômicos?

Sim. Sempre tem na margem. Mas a gente viu o PIB subindo fortemente nesse último trimestre e a expectativa é que ele possa continuar crescendo. Na margem, sem dúvida nenhuma teria [efeitos econômicos], mas não é um fato novo. Teve o primeiro choque inicial porque ninguém conhecia o coronavírus. Hoje, todo mundo sabe o que é o coronavírus, todo mundo já sabe o que precisa fazer. Os democratas colocariam medidas mais duras, mas seriam compensadas por mais gastos do governo.

Como eleições americanas pode mudar relação entre Brasil e Estados Unidos?

Se o Biden ganhar, deve ter uma volta à globalização e normalização da relação com outros parceiros internacionais. Embora com a China não deva voltar tanto, deve ter uma suavizada. Com o Trump ,a gente viu os Estados Unidos se isolar, tentar ser autossuficiente, trazer os negócios de volta e isso diminuiu muito a demanda mundial. Consequentemente, o Brasil foi afetado. Com o Biden ganhando, a gente acredita que vai ser bom para o Brasil. Se o Trump ganhar fica igual para pior para o Brasil. Acho que ele vai ter mais força e segurança em seguir com o movimento de isolamento dos Estados Unidos. Não que teria algum problema direto, já que, a nível político, a maior afinidade entre Bolsonaro e Trump possa levar a um acordo bilateral. Mas, globalmente, o Brasil sairia prejudicado, porque o comercio mundial tenderia a crescer menos ou diminuir.

Com Joe Biden, a relação política entre os EUA e o Brasil poderia azedar por questões ambientais?

Acho que nas questões ambientais, sim. O Brasil tem sido muito criticado por questões envolvendo a Amazônia e o Pantanal. Então, certamente, esse ponto, seria negativo para o Brasil. O Trump já saiu do Acordo de Paris, então é muito mais alinhado com o que tem visto no Brasil.

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