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Especialistas alertam que o futuro da inteligência artificial também dependerá da capacidade de países em desenvolvimento investirem em pesquisa, infraestrutura e formação de profissionais (©afp.com / Asif Hassan)
Redatora
Publicado em 8 de julho de 2026 às 05h09.
A disputa pela liderança da inteligência artificial costuma ser retratada como uma corrida entre gigantes da tecnologia.
No entanto, por trás dos anúncios de novos modelos e investimentos bilionários, cresce uma preocupação entre pesquisadores e organismos internacionais: o avanço da IA pode ampliar as desigualdades entre países ricos e pobres, consolidando uma nova divisão global baseada no acesso à tecnologia.
Hoje, os modelos mais avançados de inteligência artificial são desenvolvidos, em sua maioria, por empresas sediadas nos Estados Unidos e na China.
Além do conhecimento técnico, essas organizações concentram a infraestrutura necessária para treinar grandes modelos, como supercomputadores, centros de dados e enormes quantidades de chips especializados — recursos que poucos países conseguem financiar.
A concentração do desenvolvimento em um número reduzido de empresas também influencia a forma como esses sistemas interpretam o mundo.
Modelos de IA aprendem a partir dos dados utilizados em seu treinamento. Quando a maior parte dessas informações é produzida em determinados idiomas ou contextos culturais, existe o risco de que outras realidades fiquem sub-representadas.
Na prática, isso pode significar respostas menos precisas sobre culturas locais, menor compreensão de contextos regionais e dificuldade para lidar com temas específicos de países em desenvolvimento.
Embora os modelos tenham evoluído significativamente em idiomas como o português, especialistas defendem que ampliar a diversidade dos dados continua sendo um desafio importante.
Outro ponto de preocupação é a dependência crescente de soluções desenvolvidas no exterior. Sem investimento próprio em pesquisa, infraestrutura e inovação, governos e empresas podem depender cada vez mais de tecnologias produzidas por grandes corporações estrangeiras.
Essa dependência não envolve apenas o uso das ferramentas, mas também o acesso às atualizações, aos modelos mais avançados e às decisões tomadas por empresas privadas sobre preços, funcionalidades e disponibilidade dos serviços.
Para economistas, esse cenário pode reproduzir uma lógica semelhante à observada em outras revoluções tecnológicas, nas quais países exportavam matéria-prima enquanto importavam tecnologia de alto valor agregado.
A velocidade do desenvolvimento também impõe dificuldades para países com menor capacidade regulatória. Enquanto Estados Unidos, União Europeia e China avançam em debates sobre segurança, transparência e responsabilidade das plataformas, muitas nações ainda discutem como adaptar suas legislações à nova realidade.
A ausência de regras claras pode dificultar tanto a proteção dos cidadãos quanto o desenvolvimento de um ambiente favorável à inovação local.
Especialistas apontam que competir diretamente com as maiores empresas de IA não é, necessariamente, o caminho mais viável.
Em vez disso, países como o Brasil podem investir na formação de profissionais qualificados, ampliar a infraestrutura de pesquisa, incentivar universidades e empresas nacionais e desenvolver aplicações voltadas para desafios locais, como saúde, educação, agricultura e serviços públicos.
Também ganham importância iniciativas de produção de bases de dados em português, incentivo à pesquisa científica e criação de políticas públicas capazes de estimular o desenvolvimento tecnológico sem abrir mão de princípios como transparência, privacidade e inclusão.
Mais do que acompanhar uma corrida tecnológica, o desafio para países em desenvolvimento é garantir que a inteligência artificial seja uma ferramenta de crescimento econômico e social — e não um fator capaz de ampliar ainda mais as desigualdades já existentes.