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Tecnologia

Depois de medir nosso corpo, a tecnologia quer programá-lo

ARTIGO: Contamos o que fazemos, medimos como nosso organismo reage, a inteligência artificial interpreta esses sinais e o sistema começa a agir sobre nós

Nike: três categorias com benefícios para diferentes atletas (Nike/Divulgação)
Nike: três categorias com benefícios para diferentes atletas (Nike/Divulgação)

Publicado em 10 de outubro de 2026 às 07:00.

RESUMO +

A tecnologia aplicada à saúde avança em 2026 do quantified self, baseado na medição corporal, para o programmable self, no qual a inteligência artificial interpreta dados e orienta ou executa intervenções. Sistemas como a plataforma de sono Eight Sleep já ajustam automaticamente a temperatura da cama, enquanto sensores e cozinhas automatizadas ampliam essa lógica para hormônios e nutrição.

Durante boa parte dos últimos 15 anos, a promessa da tecnologia aplicada à saúde foi relativamente simples: conhecer melhor o nosso corpo. Contamos passos, calorias e quilômetros. Depois começamos a acompanhar frequência cardíaca, sono, HRV, glicose, temperatura, oxigenação, estresse e recuperação. Transformamos o corpo em uma espécie de dashboard. Mas uma nova mudança está acontecendo agora, e ela é muito mais profunda. A tecnologia está deixando de apenas nos dizer o que está acontecendo conosco para começar a decidir o que fazer a respeito. Estamos passando da era do quantified self para algo que podemos chamar de programmable self.

O quantified self nasceu de uma ideia poderosa: aquilo que pode ser medido pode ser compreendido e, eventualmente, melhorado. Entre o final dos anos 2000 e a metade da década passada, essa lógica era dominada pelo tracking. Fitbit, Nike FuelBand e aplicativos de corrida transformaram passos, distância e calorias em métricas do cotidiano. A tecnologia olhava principalmente para aquilo que fazíamos.

A segunda fase foi muito mais sofisticada. O sensor saiu do bolso e se aproximou cada vez mais do corpo. Relógios, anéis, monitores contínuos e outros dispositivos passaram a medir nossa fisiologia. Não era mais apenas “quantos quilômetros você correu?”, mas “como seu organismo respondeu?”. Sono, HRV, frequência cardíaca de repouso, saturação, temperatura e glicose passaram a fazer parte do vocabulário de milhões de consumidores.

Foi uma mudança importante: saímos do track para o measure.

Agora estamos atravessando uma terceira etapa. Os dados se tornaram numerosos demais para que um ser humano consiga interpretá-los sozinho. A inteligência artificial começa a ocupar exatamente esse espaço. WHOOP, por exemplo, combina dados fisiológicos captados continuamente com contexto pessoal para gerar recomendações em tempo real sobre sono, recuperação e performance. O Oura Advisor usa IA para transformar tendências de sono, atividade e recuperação em orientações personalizadas.

Ou seja, depois de aprender a medir o corpo, a tecnologia começou a interpretá-lo.

Esse salto pode parecer apenas uma evolução natural dos wearables, mas suas implicações são muito maiores. Um estudo publicado em 2026 apresentou um modelo treinado com mais de 1 trilhão de minutos de sinais de sensores de cerca de 5 milhões de participantes, tentando construir uma inteligência capaz de extrair estados de saúde de dados fisiológicos contínuos. É uma escala que ajuda a entender para onde caminhamos: o wearable deixa de ser apenas um aparelho que produz gráficos e começa a funcionar como uma interface entre o corpo e sistemas capazes de reconhecer padrões que nós próprios dificilmente perceberíamos.

Mas a transformação realmente interessante acontece quando fechamos o ciclo.

Imagine quatro etapas: Track. Measure. Understand. Intervene.

Na primeira, contamos o que fazemos. Na segunda, medimos como nosso organismo reage. Na terceira, a inteligência artificial interpreta esses sinais. A quarta etapa é radicalmente diferente: o sistema começa a agir sobre nós.

Já existem exemplos concretos dessa transição. A Eight Sleep não apenas registra o sono. Seu sistema Autopilot analisa dados e ajusta automaticamente a temperatura da cama durante a noite, resfriando ou aquecendo o ambiente sem que o usuário precise tomar uma decisão. O ciclo está fechado: sensor, interpretação e intervenção acontecem dentro do mesmo sistema.

Na nutrição, algo semelhante começa a aparecer. A SUMMITS se associou à empresa de robótica Hyphen para desenvolver refeições produzidas a partir de dados provenientes de wearables, trackers nutricionais ou planos de nutricionistas. O software calcula a composição da refeição e a linha automatizada monta o prato de acordo com as metas daquela pessoa. O que antes terminava numa recomendação — “você deveria comer mais proteína” — começa a terminar numa ação: a própria cozinha prepara uma refeição diferente para você.

Até mesmo biomarcadores que durante décadas eram medidos em momentos isolados estão caminhando para uma lógica contínua. A Adaptyx Biosciences apresentou em 2026 dados de um sensor vestível capaz de acompanhar cortisol ao longo de vários dias e trabalha em tecnologias para medir continuamente diferentes moléculas e hormônios. Se a história da glicose se repetir em outras moléculas, teremos uma quantidade completamente nova de informação dinâmica sobre o funcionamento do organismo.

O que vem depois é quase inevitável: a tecnologia como aliada para aprimorarmos nossas experiências a partir das respostas do nosso corpo, minuto a minuto.

'Perguntas frequentes'

Qual é a diferença entre quantified self e programmable self? +

O quantified self usa dados para medir e compreender o corpo, enquanto o programmable self permite que sistemas interpretem essas informações e decidam como agir. A mudança leva a tecnologia do acompanhamento de métricas para intervenções personalizadas.

Como a inteligência artificial está mudando os wearables? +

A inteligência artificial transforma dados fisiológicos contínuos em recomendações personalizadas. A plataforma WHOOP oferece orientações sobre sono, recuperação e performance, enquanto o Oura Advisor interpreta tendências de sono, atividade e recuperação.

Quais são as quatro etapas da evolução da tecnologia aplicada à saúde? +

As quatro etapas são Track, Measure, Understand e Intervene. Elas representam, respectivamente, o registro de atividades, a medição das respostas do organismo, a interpretação dos sinais e a intervenção do sistema.

Como a Eight Sleep intervém no sono do usuário? +

A plataforma de sono Eight Sleep usa o sistema Autopilot para analisar dados e ajustar automaticamente a temperatura da cama durante a noite. O sistema resfria ou aquece o ambiente sem exigir uma decisão do usuário.

Como os wearables podem personalizar refeições? +

A SUMMITS e a empresa de robótica Hyphen desenvolvem refeições com base em dados de wearables, trackers nutricionais ou planos de nutricionistas. O software calcula a composição adequada, e uma linha automatizada monta o prato conforme as metas de cada pessoa.

Quais novos dados de saúde poderão ser monitorados continuamente? +

A empresa de biotecnologia Adaptyx Biosciences apresentou em 2026 dados de um sensor vestível capaz de acompanhar o cortisol durante vários dias. A companhia também trabalha em tecnologias para medir continuamente outras moléculas e hormônios.

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Rodrigo Ferreira da Rocha

Rodrigo Rocha, sócio da Athlete, venture builder focada em investimentos em negócios disruptivos em saúde, o executivo é investidor, conselheiro, empreendedor e palestrante

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