Como ARQ quer ganhar corrida das fintechs para ser o Nubank da alta renda
Com US$ 70 milhões da Sequoia Capital, fintech inglesa se abre para novos investidores para começar a vencer a concorrência com ofertas de cartões de crédito


Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHT
Publicado em 5 de agosto de 2026 às 07:03.
Última atualização em 5 de agosto de 2026 às 14:12.
A fintech inglesa ARQ, antiga DolarApp, vai acelerar sua ofensiva no Brasil. Embalada por uma rodada de US$ 70 milhões liderada pela Sequoia Capital, a empresa quer se posicionar como o banco de brasileiros de alta renda que movimentam dinheiro entre países.
Ao contrário do Nubank, primeiro investimento da gestora de venture capital no Brasil, em 2013, que ganhou escala atendendo sobretudo consumidores de renda média e baixa, a ARQ aposta em um nicho de clientes com fluxo financeiro internacional, oferecendo conta global, câmbio e pagamentos transfronteiriços.
Com operações no México, Argentina e Colômbia, a ARQ estreou no Brasil em 2025 com uma operação tímida, num mercado que também conta com Revolut, Wise e Nomad. "Fomos os últimos a chegar, mas se ganharmos a competição aqui, ganhamos em qualquer lugar do mundo", diz Leonardo Bernini, general manager da ARQ no Brasil.
A tarefa não é fácil, mas há disposição de capital. Além do aporte da Sequoia, a ARQ tem freado o apetite de potenciais investidores. "Rodamos o mercado e temos conversas sobre novas rodadas o tempo todo", revela o executivo. A ARQ está em fase de crescimento, o que exige exercício intensivo de capital.
Para onde vai o dinheiro
A ARQ já sabe o que vai fazer com boa parte do capital disponível em caixa — e o que virá. Ao contrário da concorrência, que investe em ações de marketing, o foco da fintech é no desenvolvimento do portfólio. "A concorrência está focada em ações comerciais, mas o melhor produto se vende sozinho", diz Bernini.
Além disso, a ARQ se orgulha de ser "enxuta". São menos de 200 funcionários espalhados nas quatro operações da companhia. Mais da metade, são engenheiros. Empresas do mesmo porte têm, pelo menos, cinco vezes mais colaboradores. "Somos pequenos, não dá para competir com a concorrência awareness, mas damos um jeito", diz.
Pequenas apostas assimétricas
Cerca de 20% do orçamento destinado ao desenvolvimento de novos produtos é reservado para o que a ARQ chama de "pequenas apostas assimétricas". São iniciativas experimentais, como quizzes ao vivo sobre finanças e investimentos que distribuem ações como recompensa aos participantes. A ideia é testar novas funcionalidades com baixo custo.
Entre essas apostas, a fintech avalia criar uma plataforma de mercados preditivos, ambientes em que usuários negociam contratos atrelados à probabilidade de eventos futuros, como decisões econômicas ou resultados políticos.
A iniciativa, no entanto, ficou em compasso de espera após o endurecimento da regulação e da fiscalização sobre plataformas de apostas no Brasil. "Pode ser que decole, mas estamos observando", afirma Bernini.
Mar de plástico
Onde a ARQ vê a maior avenida de crescimento é no cartão de crédito — um mercado que já parece saturado. Segundo dados do Banco Central (BC), há mais de 253 milhões de cartões de crédito ativos no Brasil, distribuídos entre cerca de 100 milhões de consumidores.
É justamente essa profusão de cartões que, na visão da fintech, abre espaço para diferenciação. "Cartão de crédito na alta renda virou commodity. A concorrência disputa clientes na base dos benefícios, é um banho de sangue", afirma Bernini.
A estratégia da ARQ é competir por outro caminho: reduzir o custo do financiamento da fatura. A fintech pretende oferecer taxas que permitam ao cliente aproveitar o diferencial de juros entre mercados. Na prática, a ideia é que, em determinadas condições, seja mais vantajoso manter recursos investidos no exterior e financiar temporariamente a fatura do cartão. "Pode compensar deixar a fatura aberta, investir lá fora e depois pagar a conta com os rendimentos obtidos no exterior", diz o executivo.
A lógica se aproxima do carry trade, estratégia em que investidores exploram diferenças de juros entre países para buscar retorno. A operação, porém, depende do comportamento das taxas de juros e do câmbio, o que significa que não está livre de riscos.
Nova onda
A ARQ encerra um hiato de sete anos da Sequoia em novos investimentos ligados ao Brasil. Antes da fintech, a última aposta havia sido a Wildlife Studios, em 2019. A gestora também investiu no QuintoAndar, em 2018, e ganhou notoriedade no país ao apostar no Nubank ainda em 2013, em seu primeiro investimento no mercado brasileiro.
Agora, a gestora avalia possibilidades de novos investimentos em fintechs, principalmente às que nascem nativas com inteligência artificial e viés internacional. "Pode ser o começo de uma nova onda", diz Bernini.
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Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHTJornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico, e CMA. Contato em pedro-b.gil@exame.com
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